Túneis históricos sob Clapham viram fazenda subterrânea com LED e hidroponia para produzir microverdes em ambiente controlado, reaproveitando abrigos da Segunda Guerra e conectando tecnologia agrícola à logística urbana que abastece grandes redes de varejo britânicas.
Fazenda subterrânea a 33 metros de Londres
A cerca de 33 metros abaixo das ruas do bairro de Clapham, no sul de Londres, um conjunto de túneis construídos como abrigo antiaéreo durante a Segunda Guerra Mundial abriga hoje uma fazenda subterrânea que produz microverdes e folhas jovens com iluminação de LED e cultivo hidropônico.
A operação é apresentada pela empresa Zero Carbon Farms como a primeira fazenda urbana subterrânea do tipo no mundo e, segundo o próprio site institucional, abastece grandes varejistas do Reino Unido, incluindo Waitrose e Tesco, além de outras redes e serviços de alimentação.
O cultivo acontece em um ambiente fechado, sem luz solar direta, com controle de condições como iluminação e irrigação.
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Em vez de solo, as plantas crescem com nutrientes dissolvidos em água, em um sistema hidropônico.
No local, a iluminação artificial é fornecida por LEDs posicionados sobre prateleiras e bancadas de cultivo, recurso adotado para permitir o crescimento de plantas folhosas em áreas onde não há entrada de luz natural.
Como funciona a produção com hidroponia e LED
De acordo com a Zero Carbon Farms, a produção no local inclui microgreens e “baby leaf”, termo usado para folhas colhidas ainda jovens, comuns em misturas de saladas.
A empresa afirma que vende a produção para varejistas nacionais e também abastece cafés e restaurantes em Londres por meio de parceiros de distribuição ligados ao mercado atacadista de New Covent Garden Market, descrito como a menos de uma milha do sítio, o que facilita a logística de entrega na cidade.
O projeto é associado à marca Growing Underground, que se tornou conhecida por reaproveitar a infraestrutura subterrânea londrina para produção de alimentos em ambiente controlado.
Em uma reportagem de impacto publicada pelo Alan Turing Institute, instituição britânica voltada a ciência de dados e inteligência artificial, o espaço é descrito como um abrigo antiaéreo da Segunda Guerra adaptado para cultivo, com bancadas empilhadas de folhas sob LEDs e um esforço de otimização do processo produtivo com apoio de engenheiros e especialistas em dados.
Túneis da Segunda Guerra e a origem do espaço em Clapham
O uso de túneis subterrâneos não foi uma escolha casual.
Segundo a própria empresa, o local faz parte de um conjunto de estruturas profundas construídas entre 1940 e 1942, quando o governo britânico implantou uma rede de abrigos subterrâneos para proteger a população de bombardeios.
A Zero Carbon Farms relata que, após o período de guerra, havia um plano de transformar esses túneis em parte de um trajeto expresso conectado ao metrô, mas o projeto não foi adiante.
O espaço passou por diferentes usos ao longo do tempo, incluindo períodos de ocupação residencial e uso como área de armazenamento, antes de ser convertido em fazenda.
A empresa informa que ocupa os túneis com atividade agrícola desde 2015 e que a fazenda entrou em produção plena naquele ano, com fornecimento para varejistas e para o setor de hotelaria e restaurantes via distribuidores.
Ainda segundo a companhia, houve uma expansão do espaço de cultivo em 2022, quando a área total destinada ao plantio teria chegado a cerca de 1.050 metros quadrados.
Esses números se referem ao que a própria organização divulga publicamente sobre a operação.
Supermercados, abastecimento e logística urbana
A tecnologia de cultivo em ambiente controlado costuma ser apresentada como uma alternativa para produzir folhas e ervas próximas dos centros urbanos, com menos dependência do clima e do ritmo das estações.
O Fórum Econômico Mundial descreveu a iniciativa como um exemplo de fazenda subterrânea voltada a abastecer a cidade e registrou que a empresa afirma utilizar menos água do que a agricultura convencional ao ar livre.
A comparação é tratada como alegação do projeto: na prática, a economia de água depende do sistema de irrigação e do nível de recirculação aplicado na operação.
No caso da Zero Carbon Farms, o site institucional detalha que o sistema é de “circuito fechado”, com reuso de água e filtragem, e afirma que medições internas indicariam redução relevante no consumo por quilo produzido em relação a alguns cultivos a céu aberto.
Energia, certificações e alegações públicas da empresa
A mesma discussão aparece em materiais públicos do empreendimento sobre certificações e sustentabilidade.
Em páginas institucionais, a empresa afirma que opera a fazenda com energia de fonte renovável e que atingiu, em março de 2021, um marco que descreve como certificação “Carbon Neutral+”, vinculada a uma consultoria externa.
O próprio site reconhece que há críticas ao uso de compensações de carbono e afirma que buscou aconselhamento de terceiros para estruturar uma estratégia de longo prazo.
Como se trata de um tema técnico e sensível, essas afirmações são divulgadas como posicionamento da empresa, sem que o material institucional substitua auditorias independentes publicadas em detalhe para o público geral.
Pesticidas, ambiente controlado e cultivo indoor
Outro ponto frequentemente associado a fazendas de ambiente controlado é o uso reduzido de defensivos agrícolas.
No caso do projeto de Clapham, a Zero Carbon Farms afirma em seus materiais que não utiliza pesticidas ou “químicos” no cultivo, justificando que o ambiente protegido reduz a pressão de pragas.
Esse tipo de alegação, quando feito por operadores de estufas e fazendas indoor, costuma estar ligado à barreira física e ao controle de entrada e circulação no espaço, mas o alcance e a forma de verificação variam conforme o operador e o padrão adotado.
Engenharia, ventilação e o desafio do subsolo
A operação subterrânea também atrai interesse por causa da engenharia de adaptação do espaço.
A reportagem do Alan Turing Institute relata que o cultivo é hidropônico e descreve o uso de um tipo de substrato no suporte das plantas, além de tanques de água em um nível inferior e ciclos rápidos de colheita para folhas.
O texto ainda aponta que o trabalho conjunto com pesquisadores buscou criar um “gêmeo digital” do processo para ajustar parâmetros de produção e reduzir consumo de energia, dentro do desafio de manter produtividade constante em um ambiente sem luz natural.
Na prática, a transformação de um abrigo subterrâneo em área de produção envolve questões de ventilação, circulação de ar, segurança do trabalho e infraestrutura elétrica e hidráulica para sustentar iluminação intensa e irrigação constante.
Reportagens internacionais sobre a fazenda ao longo dos anos destacaram a presença de grandes ventiladores, corredores longos e prateleiras de cultivo, elementos compatíveis com instalações subterrâneas adaptadas para uso industrial.
O funcionamento exato, porém, depende de escolhas de engenharia e de gestão que nem sempre são detalhadas integralmente ao público em documentos técnicos completos.
Reutilização do subsolo e agricultura urbana em Londres
A fazenda de Clapham se insere em um cenário mais amplo em que cidades buscam reutilizar espaços subutilizados, do subsolo a galpões e antigas áreas industriais, para funções de produção local.
No caso de Londres, o fator histórico adiciona uma camada de curiosidade: estruturas criadas para proteger pessoas de bombas passaram, décadas depois, a ser usadas para produzir alimentos que chegam às prateleiras de supermercados.
Em tempos de debate sobre logística de alimentos, custos de energia e pressão por cadeias mais curtas, o modelo chama atenção não apenas pela estética incomum dos túneis iluminados por LED, mas por conectar passado urbano e tecnologia agrícola no mesmo endereço.


É, o tempo muda tudo…
Qta transformação e aproveitamento. Hoje, utilizando por um projeto interessante para o bem do povo. Antes para esconder de ataques do inimigo…
É a história e seus ciclos..
Parabéns!