Depois da enchente histórica de novembro de 2023 no Alto Vale do Itajaí, o legado de 10 milhões de árvores plantadas pela família de Carolina Cháfara ganhou escala com a Premave, paga produtores em euros para cercar nascentes, restaurar Mata Atlântica e vender crédito de carbono em pequenas propriedades rurais.
Em novembro de 2023, uma enchente histórica atingiu o Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina, arrancando do morro as araucárias que o avô de Carolina Cháfara havia plantado décadas antes. Do luto por essas árvores nasceu a decisão de transformar o legado de 10 milhões de árvores plantadas pela família em resposta concreta à crise climática que já bate à porta da casa dela.
De acordo com reportagem do DW Brasil, quase 40 anos depois de os pais ajudarem a aprovar, em 2006, a Lei da Mata Atlântica e enfrentarem resistência contra o desmatamento em Santa Catarina, Carolina assumiu a Premave e levou o trabalho para uma nova fase. O que começou como luta local virou projeto que paga em euros para que produtores rurais cerquem nascentes, deixem o gado do lado de fora e recuperem a floresta, conectando reflorestamento, água limpa e mercado de carbono.
Da enchente de 2023 ao plano de restaurar a Mata Atlântica

Na terra natal de Carolina, no sul do Brasil, o cenário é de uma Mata Atlântica com 90% da área original destruída, mas com potencial de recuperação.
-
O cargo que ninguém consegue explicar: por que o Brasil ainda gasta R$ 8 milhões por ano com ascensoristas mesmo após o governo reconhecer oficialmente que a função se tornou obsoleta há décadas
-
La Rinconada, a cidade a 5.100 metros de altitude onde 50 mil pessoas desafiam o limite do corpo humano nos Andes peruanos: garimpo de ouro, ar rarefeito, frio extremo e mineração artesanal transformaram um dos lugares mais altos da Terra em um polo de sobrevivência acima das nuvens
-
Sem dinheiro, sem máquinas e com o marido doente, família que vivia de pequenos trabalhos cava poço à enxada durante 3 meses sob luz de lamparina e transforma dificuldades em exemplo de fé e trabalho no interior de Minas Gerais
-
Arqueólogos encontram vala com dezenas de esqueletos humanos sem cabeça de 7 mil anos na Eslováquia, revelando um dos maiores enigmas do Neolítico e levantando novas questões sobre rituais funerários, ancestralidade e organização social na Pré-História europeia
Em trilhas que hoje parecem floresta fechada, grupos de visitantes descobrem que aquele verde simplesmente não existia 20 anos atrás.
É resultado de plantios sistemáticos que, ao longo das décadas, somam perto de 10 milhões de árvores plantadas pela Premave e por parceiros.

A enchente de novembro de 2023 foi o ponto de virada pessoal. Sozinha em casa quando a água subiu, Carolina recebeu a notícia de que as araucárias plantadas pelo avô, quando o pai ainda era adolescente, tinham descido morro abaixo.
“Foi viver a catástrofe das mudanças climáticas dentro do coração”, resume ela. A resposta veio na forma de mais restauração, mais parcerias e mais pressão para que a floresta volte a ocupar áreas degradadas.
Hoje, a família atua em propriedades que, por lei, deveriam ter faixas de 5 a 8 metros de vegetação nas margens de rios, mas que ainda estão tomadas por pastagens.
O objetivo é simples e ambicioso: transformar áreas privadas em reservas naturais permanentes, ampliando ano a ano a área coberta por floresta nativa em Santa Catarina.
Produtores pagos em euros para cercar nascentes e tirar o gado da água
Na fazenda de 25 hectares do produtor Vanderlei Mess, o cenário era típico: um pouco de milho, cebola, soja, gado, poucas árvores e um solo compactado por mais de 50 anos de pisoteio animal. Com a chegada da equipe de Carolina, a lógica muda.
O gado passa a ficar atrás da cerca, e as nascentes, antes pisadas, ganham proteção de árvores nativas.
Em um único dia, mais de 130 mudas são plantadas ali, todas de espécies nativas da Mata Atlântica, selecionadas entre mais de 40 tipos diferentes.
Na primeira fileira, o ipê-amarelo, com sua florada intensa, foi escolhido de propósito: a beleza da árvore ajuda a conquistar o produtor e a vizinhança para a ideia de reflorestar.
O pacote oferecido a Vanderlei e à esposa, Josefa, inclui tudo: mudas, conhecimento técnico da equipe e até a cerca que mantém o gado longe da nascente.
Eles não pagam nada. Quem banca é um parceiro europeu que usa as áreas para compensar emissões de CO2, dentro de um projeto estruturado que, na ponta, garante pagamento anual em euros para os agricultores que se comprometem com a restauração.
O estudo de reflorestamento é feito propriedade por propriedade. Depois, a Premave envia todo o descritivo do projeto para uma certificadora internacional, que mobiliza auditores independentes. Eles verificam em campo se o que está no papel está mesmo acontecendo.
É assim que as 10 milhões de árvores plantadas pela organização passam a valer também como ativo climático em um mercado global de carbono.
No caso de Vanderlei, o contrato já garante 500 euros por ano pelos 6 hectares incluídos no projeto. Ele admite que ainda acha “estranho” uma empresa europeia pagar para que ele plante árvores e as deixe em pé, mas reconhece que, sem esse incentivo financeiro, dificilmente teria feito a mudança.
Microcorredores, 28 produtores e a meta de 7.000 hectares restaurados

Historicamente, a Premave sempre trabalhou com pequenos produtores rurais da região. A estratégia é montar microcorredores de biodiversidade em escala municipal, conectando fragmentos de floresta que estavam isolados.
Essa abordagem se apoia diretamente no histórico de 10 milhões de árvores plantadas em áreas que antes eram pastagem.
Com a chegada de um grande projeto de conservação financiado por parceiros europeus, a escala mudou. Se antes as metas falavam em 300 hectares restaurados, agora a conversa é de 7.000 hectares.
Atualmente, 28 produtores já participam dessa rede, recebendo recursos para restaurar nascentes, cercar margens de rios e deixar que a floresta volte a dominar áreas degradadas.
O avanço local se soma a uma meta nacional mais ampla. O Brasil se comprometeu a restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de áreas degradadas, e estudos internacionais apontam a Mata Atlântica como um dos biomas com maior potencial de recuperação, pela combinação de biodiversidade e fragmentação.
A lógica é clara: se o país restaurar apenas 15% das áreas estratégicas, poderá evitar até 60% da perda de espécies projetada para as próximas décadas, ao mesmo tempo em que alivia a pressão sobre o clima.
Florestas “vazias”, espécies ameaçadas e o cálculo do carbono estocado
Boa parte dos remanescentes de Mata Atlântica em Santa Catarina é hoje descrita como “floresta vazia”. Falta alimento, falta proteção, falta diversidade, e a fauna silvestre já não encontra abrigo. Em uma divisa de propriedades, Carolina caminha com o pai. De um lado, a floresta restaurada pela família. Do outro, áreas que ainda sofrem com a degradação.
Há 35 anos, quando Carolina nasceu, a área restaurada era basicamente pastagem. O gado entrava livremente, e quase não havia árvores jovens.
Ao plantar e impedir a entrada do gado, a família viu a floresta avançar até atingir um estágio hoje considerado de regeneração avançada.
É uma prova viva de que, com proteção mínima e manejo correto, as árvores conseguem retomar o espaço perdido.
Nas áreas adquiridas recentemente com recursos do mercado de carbono, a equipe mede em detalhes o CO2 estocado. Eles demarcam parcelas de 10 por 30 metros e contam todas as árvores com mais de 15 centímetros de circunferência.
Registram espécie, circunferência à altura do peito e altura total. Esses dados alimentam fórmulas que estimam a densidade da madeira e o teor de carbono.
Em um dos levantamentos, uma canela ameaçada de extinção aparece com 10 metros de altura e 72 centímetros de circunferência. Ao lado, o sub-bosque ainda está dominado por taquara, samambaias e regenerantes com menos de 1 metro.
A expectativa dos técnicos é que, nos próximos cinco anos, esse estrato inferior cresça rapidamente, aumentando de forma significativa a quantidade de carbono estocada por hectare.
É esse tipo de medição que transforma as 10 milhões de árvores plantadas pela Premave em números de carbono compreensíveis para empresas e certificadoras, conectando a árvore específica do campo ao crédito negociado em contratos internacionais.
Mercado de carbono sob desconfiança, mas com emprego e imposto na região
O mercado de carbono em que a Premave atua é polêmico. Já houve casos de projetos que venderam compensações sem entregar a restauração prometida.
Carolina não ignora essa desconfiança e afirma que permanecer nesse mercado é, justamente, uma forma de confrontar os projetos envolvidos em escândalos, mostrando que é possível fazer diferente.
O foco é comprovar resultados concretos: árvores plantadas, nascentes protegidas, áreas compradas exclusivamente para conservação e comunidades rurais recebendo renda para manter a floresta em pé. Os ganhos vão além do CO2. Há impacto direto sobre biodiversidade, água e qualidade de vida nas propriedades.
A previsibilidade financeira trazida pelos contratos de carbono permite à Premave planejar vários anos à frente. Hoje, a organização é responsável por cerca de 40 funcionários e diversos pequenos prestadores de serviço, tornando-se um dos principais empregadores da região e o maior contribuinte de imposto sobre serviços do município.
Carolina descreve o dia a dia como uma mistura de família e trabalho. Ela reconhece o privilégio de atuar ao lado dos pais, figuras reconhecidas na defesa da Mata Atlântica, mas admite que há choques de geração e de visão.
O desafio é aprender a ouvir, negociar e, quando necessário, sair da zona de conforto para manter o projeto no rumo desejado. A responsabilidade de não desviar o legado familiar pesa tanto quanto o compromisso com as pessoas que hoje vivem do reflorestamento.
Viveiro: o coração das 10 milhões de árvores plantadas
O viveiro é o centro nervoso de tudo. Ali, apenas cerca de 10% das mudas não vingam depois do plantio, índice considerado baixo para projetos desse porte.
Ao longo dos anos, a equipe acumulou conhecimento técnico, testou espécies, ajustou métodos e conseguiu levar para o campo perto de 10 milhões de árvores plantadas em diferentes propriedades.
O início foi modesto. O viveiro usava embalagens plásticas simples, canteiros no chão e muito trabalho manual. Em 2019, a tecnologia mudou. Hoje, as mudas são produzidas em embalagens de papel que podem ser plantadas junto com a árvore, permitindo que as raízes atravessem o material sem restrição. Uma máquina preenche até 2.000 embalagens por hora, substituindo o esforço antes feito à mão.
A rotina de ver bandejas de mudas crescendo é descrita por Carolina como uma fonte constante de energia. Ela diz que cada árvore, seja em um quintal urbano ou em um grande reflorestamento, “faz diferença” e ajuda a manter viva a disposição de continuar apesar das dificuldades.
O trabalho da Premave já inspirou outras pessoas a montarem seus próprios viveiros, criarem pequenos projetos ou simplesmente plantarem a primeira árvore da vida.
A mãe de Carolina costuma repetir que “quem planta árvores normalmente é uma pessoa feliz”. Os plantios coletivos organizados pela equipe, em que produtores, vizinhos e parceiros se juntam para colocar as mudas no solo, viraram momentos de celebração em comunidades que antes viam a floresta apenas como obstáculo à produção.
Do quintal à meta global de restaurar 12 milhões de hectares
Enquanto a Premave expande sua atuação em mais de mil hectares já manejados e mira metas de milhares de hectares à frente, o Brasil tenta cumprir o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de áreas degradadas.
A Mata Atlântica aparece em estudos internacionais como uma das regiões em que esse esforço traz maior retorno em biodiversidade e clima, ao lado da bacia do Amazonas, da bacia do Congo e de áreas úmidas em várias partes do mundo.
Os cientistas calculam que, se o planeta restaurar apenas 15% das áreas prioritárias, será possível evitar até 60% da perda de espécies que hoje é projetada.
Em Santa Catarina, a experiência de Carolina e da Premave mostra como essa estatística global ganha rosto, nome de família e história de enchente quando chega ao nível de um vale específico, com produtores reais, nascentes locais e contratos em euros que permitem ao agricultor deixar de cortar a árvore que protege a água que ele mesmo usa.
No centro dessa história estão as 10 milhões de árvores plantadas que conectam o trabalho iniciado por um casal de ambientalistas décadas atrás à resposta prática de uma filha que viu as araucárias do avô descerem o morro em 2023.
A cada muda que sai do viveiro, uma parte desse trauma se transforma em floresta, emprego, renda e água preservada para quem produz.
E você, se pudesse receber para cercar nascentes e recuperar áreas degradadas na sua região, toparia entrar em um projeto de reflorestamento como o de Carolina e da Premave?


Magnífico!
Acredito tambem que poderia se fazer um estudo para desviar todos os dejetos humanos para reflorestamento e plantio de eucaliptos para produsir celulose .
Parabéns ! Excelente iniciativa .