Geólogos reavaliam o Maciço do Mendanha e refutam a cratera: entenda por que o famoso ‘vulcão de Nova Iguaçu’ é, na verdade, uma intrusão subvulcânica de 64 milhões de anos exposta pela erosão.
O Maciço do Mendanha, popularmente conhecido como vulcão de Nova Iguaçu, é há décadas um ponto de debate na geologia brasileira. Embora a ideia de um vulcão extinto domine o imaginário popular, o que vemos hoje na Baixada Fluminense está longe do cone e da cratera preservados que se supunha existir. Uma série de estudos cruciais, liderados por geólogos como Akihisa Motoki (UERJ), desmantelou essa hipótese e reclassificou a estrutura. O local não é um edifício vulcânico superficial, mas sim as suas “raízes”, o sistema de “encanamento” magmático exposto pela ação de milhões de anos de erosão, uma revelação que eleva ainda mais o seu valor científico.
A complexa história geológica do Maciço do Mendanha, datado em cerca de 64 milhões de anos, segundo estudos como a tese de Carlos Eduardo Miranda Mota (Redalyc), o posiciona no Alinhamento Magmático Poços de Caldas-Cabo Frio. Este artigo explica o contexto da formação dessas rochas alcalinas raras e apresenta a definitiva conclusão científica: as supostas “bombas vulcânicas” são formações de intemperismo, e o que visitamos é um laboratório a céu aberto que revela o coração de um sistema vulcânico antigo.
O contexto de 64 milhões de anos: a origem do magma no sudeste
O Maciço do Mendanha é a estrutura imponente, com quase 900 metros de altura, que se tornou sinônimo do vulcão de Nova Iguaçu e domina a paisagem da Baixada Fluminense. Ele não é um fenômeno geológico isolado, mas sim um dos corpos alcalinos que compõem a “Província Alcalina do Sudeste Brasileiro”, um evento de grande escala que ocorreu entre o Cretáceo Superior e o Eoceno. A explicação predominante para este alinhamento é o modelo de hot spot (pluma mantélica): uma pluma de magma estacionária no manto sobre a qual a Placa Sul-Americana se moveu, deixando um “rastro” de rochas alcalinas.
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Pesquisas detalhadas, como a tese de doutorado de Carlos Eduardo Miranda Mota (Redalyc), introduzem complexidades significativas. Novas datações geocronológicas prejudicam o modelo simples de uma trilha linear de hot spot. A petrogênese, ou seja, a origem do magma, é mais complexa, sugerindo que os magmas que formaram o Mendanha foram gerados a partir de magmas mantélicos enriquecidos, mas cuja assinatura química está associada à antiga zona de fraqueza da crosta (o Orógeno Ribeira).
O Maciço do Mendanha é, portanto, o resultado de um processo geodinâmico híbrido e complexo. Sua formação, datada em cerca de 64 milhões de anos, envolveu a reativação tectônica de antigas zonas da crosta por uma pluma mantélica. O magma não subiu à superfície de forma pura; ele passou por cristalização fracionada e assimilação de rochas encaixantes (AFC), onde o magma quente “digeriu” partes da crosta que atravessava. O resultado é a diversidade de rochas alcalinas raras que vemos hoje.
A refutação científica: por que não há cratera preservada?
O debate central em Nova Iguaçu não é se houve vulcanismo, mas o que exatamente vemos hoje. Por décadas, a hipótese de que o Maciço do Mendanha era um vulcão extinto com sua forma original preservada (cone e cratera) foi tratada como um fato, baseada na presença de abundantes rochas piroclásticas. Essas rochas, formadas por material ejetado durante erupções explosivas, pareciam confirmar a existência de um vulcão superficial.
A partir de 2006, uma série de artigos científicos, notavelmente os do geólogo Akihisa Motoki e seus colaboradores (UERJ), reexaminou as evidências de campo e refutou a hipótese do vulcão preservado. Estudos mostraram que o vale interpretado como uma cratera vulcânica não é composto por aglomerado piroclástico, mas sim por traquito maciço. A conclusão é que a morfologia circular não é uma cratera, mas uma feição desenvolvida por erosão diferencial ao longo de milhões de anos, que esculpiu a forma atual.
O “nó” do debate residia nas estruturas que pareciam ser inconfundíveis “bombas vulcânicas”. A análise petrológica de Motoki e Sichel forneceu a resposta definitiva, provando que essas estruturas são, na verdade, pseudo-bombas criadas por processos de intemperismo (a ação da chuva e do tempo). As supostas “vesículas” (buracos) são cavidades de dissolução, formadas pela lixiviação de fenocristais de feldspato alcalino. Além disso, a “crosta” escura e dura foi identificada como um fenômeno de intemperismo chamado case hardening (endurecimento superficial), e não uma borda de resfriamento rápido de lava, provando que “estes clastos não são bomba, spatter ou scoria”.
A nova geologia: intrusão subvulcânica exposta e o geopatrimônio
A conclusão científica sobre o vulcão de Nova Iguaçu é inequívoca: ele não é um edifício vulcânico preservado. É uma intrusão subvulcânica erodida (Motoki/UERJ). Isso significa que, embora erupções vulcânicas de fato tenham ocorrido há mais de 60 milhões de anos, o cone, a cratera e todos os depósitos superficiais foram completamente eliminados pela erosão.
O que os visitantes e cientistas observam hoje são as “raízes” do vulcão, o seu “encanamento”. As rochas do parque expõem os condutos e fissuras que existiam a aproximadamente 3 quilômetros de profundidade abaixo do vulcão original. Longe de diminuir a importância do local, essa revelação a torna ainda maior. O Maciço do Mendanha é um exemplo geologicamente raro no mundo, uma “dissecção” natural que expõe as estruturas internas que alimentavam as erupções, permitindo o estudo direto do coração de um sistema vulcânico antigo.
O Maciço do Mendanha é um “complexo” alcalino (Mota/Redalyc) por abrigar uma diversidade notável de rochas. As principais litologias são os Sienitos (rochas plutônicas que formam a maior parte do encanamento) e os Traquitos (o equivalente vulcânico do sienito). Essa complexa história geológica, com rochas alcalinas resistentes, criou uma paisagem de relevo acentuado que hoje serve como refúgio vital. O Maciço, protegido pelo Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (PNMNI), é um refúgio de Mata Atlântica primária e um importante polo de ecoturismo, sendo a “Rampa de Voo Livre da Serra do Vulcão” considerada uma das melhores do Brasil para o esporte.
A importância de um “não-vulcão”
A verdadeira narrativa do vulcão de Nova Iguaçu é uma história integrada de geologia, erosão e vida. A hipótese do cone preservado foi cientificamente refutada por estudos da UERJ (Motoki), que reinterpretarou as supostas “bombas vulcânicas” como produtos de intemperismo. O local é, na realidade, uma intrusão subvulcânica erodida, expondo as estruturas internas que se formaram no profundo da Terra há mais de 60 milhões de anos, um fato comprovado pela análise petrológica e geocronológica (Mota/Redalyc).
O nome “Vulcão”, embora geologicamente impreciso para a forma atual, tornou-se a marca cultural que impulsiona o turismo e apoia a conservação do patrimônio. O Maciço do Mendanha é um exemplo fascinante de geopatrimônio, onde o mito popular e a realidade científica coexistem. A geologia ditou a geomorfologia, que, por sua vez, protegeu a biodiversidade local e impulsionou o ecoturismo, provando que o coração exposto de um vulcão é, de longe, mais valioso do que o seu antigo cone.
O que você achou da reclassificação do Maciço do Mendanha? A mudança no status de “vulcão” para “raízes vulcânicas” diminui ou aumenta a importância do local como patrimônio? Deixe sua opinião nos comentários, queremos saber como essa nova perspectiva científica impacta sua visão sobre o famoso vulcão de Nova Iguaçu.


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