Imagem feita do espaço destaca um encontro incomum entre gelo, água e relevo na Patagônia argentina, em uma paisagem marcada por contraste de cores, dinâmica glacial e transformações ambientais acompanhadas por cientistas e instituições internacionais.
Uma fotografia feita por um astronauta da Estação Espacial Internacional mostra o ponto em que o glaciar Perito Moreno encosta no Lago Argentino e no Brazo Rico, no sudoeste da província de Santa Cruz, na Argentina.
O registro foi feito durante a Expedição 64 da ISS.
Na imagem, a frente do glaciar aparece junto à Península de Magallanes, faixa de terra que separa o corpo principal do lago do Brazo Rico e marca o ponto de contato entre gelo, água e relevo.
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Perito Moreno, Lago Argentino e o registro feito do espaço
A área fotografada fica no Parque Nacional Los Glaciares, unidade de conservação criada em 1937 e reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial em 1981.
Segundo dados oficiais da Argentina, o parque preserva mais de 726 mil hectares no sudoeste de Santa Cruz e integra uma das áreas glaciais mais extensas fora das regiões polares.
Nesse sistema, o Lago Argentino ocupa posição central.
O Instituto Geográfico Nacional da Argentina informa que ele tem 1.435 quilômetros quadrados, o que o coloca como o maior lago inteiramente situado em território argentino.
A coloração azulada e turquesa observada em vários trechos do lago está associada à chamada farinha glacial, formada por partículas finas de rocha produzidas pela erosão do gelo.
Em lagos de origem glacial, esse material permanece em suspensão e altera a dispersão da luz na água.

Brazo Rico e a diferença de cor na água
Apesar da aparência alongada e do aspecto mais escuro em imagens aéreas e orbitais, o Brazo Rico é uma parte do próprio Lago Argentino.
A impressão de que se trata de um rio está ligada ao isolamento periódico dessa área quando o glaciar avança em direção à Península de Magallanes e reduz a comunicação com o restante do lago.
Além disso, estudos sobre a dinâmica do Lago Argentino mostram que a concentração de sedimentos em suspensão varia entre diferentes setores do sistema.
Essa diferença ajuda a explicar o contraste de tonalidade entre o Brazo Rico e outras partes do lago visíveis na fotografia feita do espaço.
O ciclo de bloqueio e ruptura do glaciar Perito Moreno
Em intervalos irregulares, a língua do Perito Moreno alcança a Península de Magallanes e forma uma barragem natural de gelo.
Quando isso ocorre, o nível da água no Brazo Rico pode subir até cerca de 30 metros acima do restante do Lago Argentino, até que a pressão acumulada rompe a barreira.
Esse processo é um dos mais conhecidos da área e vem sendo documentado há décadas em registros científicos e institucionais sobre o glaciar.
A ruptura não ocorre em datas fixas, mas o padrão de bloqueio e colapso periódico faz do local um caso recorrente de estudo sobre interação entre gelo, relevo e circulação de água.
O Perito Moreno tem cerca de 30 quilômetros de extensão, e sua frente se eleva mais de 60 metros acima da superfície do lago.

A massa de gelo deságua em dois setores principais do Lago Argentino, um voltado ao Canal de los Témpanos e outro ao Brazo Rico, o que explica a importância da posição da frente glacial para o comportamento hidrológico da região.
Perito Moreno e os sinais recentes de recuo
Por muito tempo, o Perito Moreno foi tratado em estudos e materiais de divulgação como uma exceção entre os grandes glaciares patagônicos, porque sua frente permaneceu relativamente estável enquanto outras geleiras da região apresentavam recuo mais evidente.
Essa condição ajudou a consolidar a imagem do glaciar como um caso incomum no contexto do aquecimento observado nas últimas décadas.
Dados mais recentes, porém, indicam mudança nesse quadro.
Estudo publicado em 2025 na revista Communications Earth & Environment identificou aceleração no rebaixamento da superfície do Perito Moreno, com a taxa média passando de 0,34 metro por ano entre 2000 e 2019 para 5,5 metros por ano entre 2019 e 2024, além de recuo de mais de 800 metros em alguns trechos desde 2019.
Com isso, a fotografia feita da órbita terrestre reúne mais do que três feições naturais no mesmo enquadramento.
A imagem permite observar, em um único setor do parque, o contato entre a frente glacial, o maior lago inteiramente argentino e um braço lacustre cujo comportamento muda quando o avanço do gelo altera a circulação da água.


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