Empresas brasileiras e estrangeiras ampliam o interesse pelo urânio nacional em meio a uma parceria com a russa Rosatom e à discussão de novas regras para a pesquisa e exploração mineral no Brasil.
O interesse pelo urânio brasileiro está atraindo empresas nacionais e estrangeiras que buscam espaço em um setor estratégico para a produção de energia nuclear. Pelo menos cinco grupos empresariais já desenvolvem projetos, avaliam áreas minerais ou articulam parcerias no Brasil, incluindo uma associação com a estatal russa Rosatom.
A movimentação ocorre enquanto o governo federal discute novas regras para ampliar a participação privada na exploração do minério, atividade que permanece sob monopólio da União, exercido pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB).
Entre os interessados estão o Grupo Diamante, a Atlas Critical Minerals, a Core Energy Minerals, a Brazilian Rare Earths e a Energy Fuels. Os projetos se espalham por diferentes estados e envolvem desde pesquisas geológicas até estudos para recuperar urânio encontrado junto a outros minerais.
-
De 147 milhões para 84 milhões de toneladas: minas da Vale em Carajás perdem 43% e dependem de decisão de Lula sobre cavernas
-
O Brasil tem o maior mineroduto do mundo: são 529 km de extensão, 33 cidades atravessadas e 133 mil toneladas de aço. Como o minério é transportado de forma quase invisível?
-
Vale recebe autorização para construir planta capaz de processar 21,8 milhões de toneladas de minério por ano em Minas Gerais e prevê 3.603 contratações durante as obras
-
Investimento de quase US$ 785 milhões coloca o Pará no radar da mineração global: empresa canadense prepara mina e metalúrgica para processar 10 milhões de toneladas por ano e extrair níquel, paládio, platina, ródio e ouro
As informações foram reunidas em um levantamento da Folha de S.Paulo publicado em 1º de novembro de 2026, com base em registros da Agência Nacional de Mineração (ANM), documentos empresariais e comunicados ao mercado internacional.
A entrada de novos investidores também acompanha os esforços para ampliar a produção nacional de combustível nuclear, utilizado nas usinas de Angra 1 e Angra 2, no Rio de Janeiro.
Grupo brasileiro fecha parceria com a Rosatom para explorar minerais estratégicos
Uma das principais movimentações envolve o Grupo Diamante, que atua no setor de energia e criou a Núcleo Brasil Energia Participações (NBEPar) para desenvolver seus negócios nucleares.
Em 24 de março de 2026, a empresa assinou um acordo com a Uranium One Group, integrante da estatal russa Rosatom, para a criação da Nadina Minerals.

A parceria foi anunciada durante o Nuclear Summit 2026 e prevê o desenvolvimento de projetos de prospecção, mineração e processamento de minerais críticos e estratégicos no território brasileiro.
Segundo o comunicado oficial da Nadina Minerals, a empresa terá sede no Rio de Janeiro e pretende combinar o conhecimento geológico brasileiro com tecnologias e experiência internacional dos parceiros.
A Rosatom participa de atividades ligadas à energia nuclear em diferentes países. Por meio da Uranium One, mantém interesses em projetos minerais e operações de produção de urânio no exterior.
Na estrutura brasileira, dois nomes ligados ao antigo Ministério de Minas e Energia ocupam posições de comando.
Bento Albuquerque, ministro entre 2019 e 2022, preside o conselho da NBEPar. Já Ney Zanella dos Santos, ex-presidente da Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar), comanda a companhia.
O Grupo Diamante também estuda o desenvolvimento de microrreatores nucleares por meio da Terminus, empresa que passou a controlar em 2025.
Atlas e Core Energy Minerals investigam áreas com potencial de urânio
O interesse pelo minério vai além da parceria brasileira com a Rosatom. Outras companhias estão reunindo direitos minerários e realizando trabalhos de pesquisa em diferentes regiões do país.
A Atlas Critical Minerals, que possui sede operacional em Belo Horizonte e ações negociadas na bolsa americana Nasdaq, informou manter uma carteira de 39 processos minerários com potencial de urânio.
As áreas somam aproximadamente 143,7 mil hectares e estão distribuídas por Bahia, Ceará, Goiás, Piauí, Pará e Tocantins.
Em comunicado divulgado ao mercado pela Atlas, a companhia afirmou que está avaliando essas propriedades diante da possibilidade de mudanças na regulamentação brasileira.
Parte dos processos envolve áreas originalmente pesquisadas para minerais como terras raras, cobre, grafita e fosfato.
A australiana Core Energy Minerals segue outro caminho, com projetos de pesquisa mineral em Goiás, Paraíba e Rio Grande do Sul.
Em Amorinópolis, no território goiano, a empresa avalia áreas com potencial para depósitos de urânio. Na Paraíba, as atividades estão concentradas no projeto São José, próximo ao município de São José de Espinharas.
O terceiro empreendimento, chamado Grande, fica no Rio Grande do Sul e abrange aproximadamente 364,5 quilômetros quadrados.
Conforme as informações divulgadas pela Core Energy Minerals sobre seus projetos brasileiros, os trabalhos incluem estudos geológicos e avaliação de formações com características favoráveis à presença do minério. A companhia também desenvolve projetos relacionados a terras raras no país.
Bahia atrai mineradoras interessadas em urânio associado às terras raras
Na Bahia, duas companhias estrangeiras estudam oportunidades ligadas à exploração de minerais que podem conter urânio em sua composição.
A australiana Brazilian Rare Earths (BRE) pretende recuperar o elemento durante o processamento de terras raras extraídas do projeto Monte Alto, localizado na região dos municípios de Ubaíra e Jiquiriçá.

O material deverá passar por etapas de beneficiamento em Camaçari, onde a empresa desenvolve sua estrutura de processamento.
Um estudo preliminar da companhia projeta uma produção média de 466 toneladas anuais de concentrado de urânio, conhecido comercialmente como yellowcake, ao longo da operação integrada planejada.
A estimativa chega a 540 toneladas anuais nos cinco primeiros anos de produção estável, conforme os resultados do estudo divulgados pela Brazilian Rare Earths em agosto de 2026.
A empresa prevê realizar novos testes de recuperação do minério na segunda etapa de sua planta-piloto, programada para 2027.
Também na Bahia está o interesse da Energy Fuels, companhia constituída no Canadá e com operações nucleares nos Estados Unidos.
Seu Projeto Bahia envolve depósitos de areias minerais pesadas e monazita, mineral que contém terras raras e pode apresentar urânio associado.
A empresa estuda o aproveitamento dessas matérias-primas como parte da expansão de suas atividades internacionais de minerais estratégicos.
Governo discute novas regras enquanto INB prepara parcerias privadas
O avanço dos projetos ocorre em um momento de mudanças no setor nuclear brasileiro.
A Lei nº 14.514, de dezembro de 2022, ampliou as possibilidades de participação de empresas privadas em atividades de pesquisa e exploração de minérios nucleares, mediante contratos com a INB.
A regulamentação dessas parcerias, entretanto, ainda estava em discussão entre o Ministério de Minas e Energia e a Casa Civil no início de novembro de 2026.
Paralelamente, a INB desenvolve com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a ENBPar o Programa Pró-Urânio, voltado à identificação de modelos de negócios para novas jazidas.
Em agosto, o BNDES selecionou o Consórcio VGLHH para realizar os estudos técnicos, econômicos, jurídicos e ambientais necessários à estruturação das futuras parcerias.
Segundo o comunicado oficial da INB sobre o Pró-Urânio, as propostas deverão ser apresentadas até o segundo trimestre de 2027.
O programa considera áreas minerais em Goiás, Paraíba, Paraná, Tocantins e Bahia. A intenção é ampliar o conhecimento das reservas e criar condições para que novos projetos avancem em conjunto com a estatal.
Atualmente, a INB extrai urânio em Caetité, na Bahia, e realiza etapas de fabricação do combustível nuclear em Resende, no Rio de Janeiro. Parte do processamento ainda depende de serviços contratados no exterior.

Outra iniciativa em desenvolvimento é o projeto de Santa Quitéria, no Ceará, conduzido em parceria com a Galvani para aproveitar depósitos associados de fosfato e urânio.
A previsão da INB é que o empreendimento alcance capacidade de produção de 2.300 toneladas de concentrado de urânio por ano, além de fertilizantes fosfatados, após as etapas necessárias de licenciamento e implantação.
Com os estudos do Pró-Urânio em andamento, a definição dos modelos de parceria será uma das próximas etapas para que a estatal avalie a participação dos grupos privados interessados nas jazidas brasileiras.
