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Um modelo de vender barato criado no Brasil ficou tão poderoso que o Carrefour resolveu ensinar os próprios franceses a comprar como brasileiro, e o Atacadão desembarcou em Paris em 2024 sob protestos de moradores que não queriam a loja gigante perto de casa

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 22/05/2026 às 11:58
Atualizado em 22/05/2026 às 12:01
Assista o vídeoO Atacadão, modelo de atacarejo criado no Brasil, virou estratégia global do Carrefour e chegou à Grande Paris em 2024 sob protestos de moradores e políticos.
O Atacadão, modelo de atacarejo criado no Brasil, virou estratégia global do Carrefour e chegou à Grande Paris em 2024 sob protestos de moradores e políticos.
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O Atacadão, rede de atacarejo criada no Brasil, virou peça central da estratégia global do Carrefour. O modelo de vender barato em grande volume ficou tão forte que o grupo francês levou a marca brasileira para a própria França em 2024, onde o Atacadão desembarcou na Grande Paris sob protestos de moradores e políticos locais.

Em 20 de junho de 2024, quinta-feira, o grupo francês Carrefour inaugurou em Aulnay-sous-Bois, na Grande Paris, a cerca de 16 quilômetros do centro da capital, a primeira loja da marca brasileira Atacadão na França. O evento marcou um momento simbólico: o modelo de atacarejo criado e consolidado no Brasil, baseado em vender barato, em grande volume e com estrutura enxuta, voltou ao país de origem do Carrefour para ensinar os próprios franceses a comprar como brasileiro. A inauguração, no entanto, aconteceu sob forte oposição de moradores, sindicatos e políticos locais.

A resistência foi tão grande que o projeto chegou a ser expulso de uma cidade antes de encontrar abrigo em outra. O Atacadão simboliza hoje uma inversão histórica no varejo: uma fórmula nascida em um país emergente sendo exportada para uma economia desenvolvida. O que começou como uma rede regional em Maringá, no Paraná, em 1962, tornou-se peça central da estratégia internacional de um dos maiores grupos varejistas do mundo, presente em diversos continentes com adaptações para cada mercado.

Como o Atacadão saiu de Maringá e conquistou o Brasil

O Atacadão, modelo de atacarejo criado no Brasil, virou estratégia global do Carrefour e chegou à Grande Paris em 2024 sob protestos de moradores e políticos.
A história do Atacadão começou em 1962, em Maringá, no norte do Paraná.

Aos poucos, a rede alcançou cidades vizinhas como Cascavel e Umuarama, além de mercados mais distantes como Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e instalou um armazém de trânsito de mercadorias em São Paulo, o maior centro comercial do país. Em 1991, a empresa foi adquirida pela família Lima e pelos executivos Farid Curi e Herberto Uli Schmeil, que aceleraram sua profissionalização.

No fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, a presença em São Paulo se consolidou, e em 2000 a rede chegou a Pernambuco, expandindo no Nordeste. O Atacadão foi ganhando escala e se tornando referência no modelo conhecido como cash and carry, a venda em grandes volumes a preços baixos, atendendo tanto comerciantes quanto consumidores finais. Esse formato, mais tarde batizado de atacarejo no Brasil, seria justamente o grande trunfo que chamaria a atenção do gigante francês.

A compra pelo Carrefour e a explosão de crescimento

O Atacadão, modelo de atacarejo criado no Brasil, virou estratégia global do Carrefour e chegou à Grande Paris em 2024 sob protestos de moradores e políticos.
Em 2007, o Carrefour adquiriu o Atacadão em uma negociação avaliada em cerca de 2,2 bilhões de reais.

Na época, a rede tinha 34 lojas, sendo 17 apenas no estado de São Paulo. A transação transformou o Carrefour no líder do setor no Brasil e colocou o Atacadão em uma nova fase de crescimento acelerado, que se provaria uma das decisões mais lucrativas do grupo francês nas últimas décadas.

O resultado desse movimento é impressionante. De 34 lojas em 2007, a rede saltou para quase 400 unidades no território nacional. Estima-se que o Atacadão responda por cerca de dois terços do faturamento do Carrefour no Brasil, segundo dados divulgados pela imprensa especializada. Foi essa força avassaladora no mercado brasileiro que levou o grupo a enxergar no modelo de atacarejo não apenas uma operação local, mas um ativo estratégico capaz de ser replicado mundo afora.

O início da expansão internacional do Atacadão

O Atacadão iniciou sua internacionalização em 2010, quando saiu pela primeira vez do mercado brasileiro e abriu operações na Colômbia, seguida no mesmo ano pela Argentina, mostrando que a estratégia inicial estava focada na América do Sul. A aventura colombiana, no entanto, teve vida curta: em 2012, o Carrefour vendeu seus ativos no país para a chilena Cencosud, que acabou fechando as lojas, um detalhe que mostra que nem toda expansão foi tranquila.

O passo decisivo veio em 2012, com a chegada do Atacadão ao Marrocos, mercado que se tornaria um dos casos mais bem-sucedidos do grupo fora do Brasil. Nos anos seguintes, o modelo de atacarejo foi levado a outros países onde o Carrefour já tinha presença, como Tunísia, Egito, Romênia e Espanha, sempre adaptando o conceito de lojas amplas, preços baixos e foco em volume às realidades locais de cada região.

Por que o Marrocos virou o grande caso de sucesso

O Atacadão, modelo de atacarejo criado no Brasil, virou estratégia global do Carrefour e chegou à Grande Paris em 2024 sob protestos de moradores e políticos.
O Marrocos reúne características muito favoráveis ao modelo do Atacadão: ampla população urbana, crescimento de uma classe média sensível ao custo de vida e forte atenção ao preço.

O atacarejo ocupa exatamente o espaço entre o atacado tradicional, voltado a comerciantes e a grandes volumes, e o supermercado comum, mais conveniente, porém com preços maiores. Ao manter estrutura simples e preços agressivos, mas abrir as portas ao consumidor final, o formato amplia enormemente o mercado potencial.

No mercado marroquino, a operação é tocada pela franquia LabelVie, que opera lojas da marca em diferentes cidades do país. Em outubro de 2025, o grupo inaugurou sua 20ª loja Atacadão no Marrocos, na cidade de Essaouira, com presença nos maiores polos urbanos e econômicos, como Casablanca, Rabat, Marrakech e Tânger. O sucesso marroquino provou que o conceito brasileiro tinha viabilidade muito além das fronteiras nacionais, abrindo caminho para a ambição mais ousada do grupo: a própria Europa.

A chegada à França sob protestos de moradores

A entrada do Atacadão na França foi tudo, menos tranquila. A primeira cidade escolhida foi Sevran, na Grande Paris, mas em março de 2023 o Carrefour desistiu do projeto após o prefeito local criar um abaixo-assinado contra a instalação da loja, chamando a ideia de desastrosa. O grupo então migrou para a vizinha Aulnay-sous-Bois, onde o prefeito abraçou a proposta, mas onde a oposição também se organizou.

Um manifesto local classificou a loja como projeto miserabilista, criticando a substituição de prateleiras por paletes, a menor diversidade de produtos e o prejuízo a quem usa transporte público, já que o modelo prioriza grandes volumes. O abaixo-assinado, liderado pelo professor Mehdi Chtioui, do partido de esquerda França Insubmissa, reuniu apenas 650 das mil assinaturas pretendidas. Apesar dos protestos, a inauguração ocorreu, com investimento de cerca de 10 milhões de euros, entre 120 e 130 funcionários e a presença do CEO do Carrefour, Alexandre Bompard. Segundo o jornal Le Parisien, vários moradores elogiaram o modelo e saíram da loja com diversos pacotes de produtos.

O modelo brasileiro como estratégia global do Carrefour

O grande aprendizado do Carrefour foi perceber que o maior ativo não era apenas a marca Atacadão, mas a lógica operacional do atacarejo desenvolvida e escalada no Brasil. Em vez de depender só de abrir lojas com o nome Atacadão em todos os países, o grupo passou a adaptar o formato para outros mercados, mesmo quando usa bandeiras diferentes. Na Europa, os principais focos dessa estratégia são França, Espanha e Romênia, com lojas de grande volume, preço agressivo e estruturas mais eficientes.

O modelo funciona especialmente bem em países com grande parcela da população de renda mais apertada e alta sensibilidade a preço. Para essas famílias, pequenas diferenças no valor de itens básicos como arroz, óleo, carne e produtos de higiene fazem impacto real no orçamento mensal. Se o consumidor percebe economia relevante, aceita se deslocar mais, comprar em ambiente menos sofisticado e levar volumes maiores. Foi essa lógica que o Atacadão exportou, transformando um formato popular brasileiro em ferramenta de competição internacional.

Até onde a marca brasileira pode chegar

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As oportunidades de crescimento ainda são grandes, sobretudo em mercados africanos e latino-americanos, regiões onde o varejo moderno tem baixa penetração, a renda média está em expansão e o consumidor já demonstra sensibilidade a preço. Esses fatores representam campo aberto para o formato de atacarejo nas próximas décadas, e a estrutura do Atacadão está bem posicionada para ocupá-lo, segundo analistas do setor.

A questão central que define o horizonte da rede vai além do número de unidades ou do faturamento. O Atacadão pode continuar sendo uma grande rede de varejo alimentar ou pode se consolidar como referência global de como vender com escala, eficiência e preço baixo. Essa definição depende das escolhas dos próximos anos, mas o simbolismo já está dado: um modelo criado no interior do Paraná hoje desafia o varejo popular em vários países, incluindo a própria França, berço do Carrefour.

A trajetória do Atacadão, de uma loja em Maringá em 1962 à inauguração na Grande Paris em 2024, é uma das histórias mais simbólicas do varejo mundial recente. Ela mostra como uma fórmula simples, vender barato em grande volume, pode nascer em um país emergente e virar produto de exportação para economias ricas. Os protestos na França revelam que essa expansão não é isenta de tensões, mas também confirmam o peso de uma marca que deixou de ser apenas brasileira para se tornar global.

Você costuma comprar no Atacadão ou em outras redes de atacarejo? Acredita que esse modelo brasileiro de vender barato realmente tem futuro em países ricos como a França, ou os protestos têm razão de existir? Deixe seu comentário, conte sua experiência de compra nesse formato e compartilhe a matéria com quem se interessa por varejo, economia e negócios brasileiros que ganharam o mundo.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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