Com projeções do FMI e câmbio favorecendo a Rússia, o Brasil deixa o grupo das dez maiores economias do mundo em PIB em dólar, vira 11ª economia do mundo e expõe fragilidades estruturais que podem limitar crescimento em competitividade, investimentos, produtividade e peso político na economia global atual
Em 4 de dezembro de 2025, o Brasil foi oficialmente apresentado por relatório da Austin Rating como 11ª economia do mundo em PIB medido em dólar, ultrapassado pela Rússia após uma valorização superior a 39% do rublo neste ano, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional. A mudança o retira do grupo das dez maiores economias globais, o chamado G10 do PIB em dólares.
O rebaixamento no ranking ocorre mesmo com revisão para cima das projeções de crescimento do país em 2025 e após um terceiro trimestre em que o Produto Interno Bruto avançou 0,1% frente ao segundo trimestre, de acordo com dados divulgados pelo IBGE também em 4 de dezembro. O fator decisivo, apontam FMI e Austin Rating, não é uma piora abrupta da atividade, mas o comportamento das taxas de câmbio que reprecificou o valor dos PIBs nacionais em dólares.
Como o câmbio tirou o Brasil do G10 da economia do mundo
No ranking das maiores economias do mundo em dólares, o cálculo do FMI combina projeções de crescimento do PIB real com as tendências das moedas frente ao dólar.
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Em 2025, a forte apreciação do rublo mudou a fotografia.
Segundo o relatório da Austin Rating, a moeda russa acumulou valorização superior a 39% em 2025, apoiada em controles de capitais implementados após as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e por países europeus desde a invasão da Ucrânia em 2022.
Em termos de PIB convertido para dólar, essa alta fez a Rússia ultrapassar não apenas o Brasil, mas também o Canadá, que ocupava a nona colocação em 2024.
Na prática, isso significa que, ao converter o PIB russo para dólares com um câmbio mais valorizado, o tamanho da economia medida na divisa americana cresce mais rapidamente, mesmo que o avanço real da produção não seja tão expressivo.
É esse efeito cambial que empurra o Brasil para a 11ª posição na economia do mundo em 2025, ainda que a economia brasileira tenha mostrado alguma resiliência e valorização do real ao longo do ano.
Brasil fica em 11º lugar e deve permanecer até o fim da década
As projeções de longo prazo do FMI, citadas pela Austin Rating, indicam que o Brasil não deverá ultrapassar novamente Rússia e Canadá até 2030.
No cenário hoje traçado pelo organismo multilateral, o país permanece como 11ª maior economia do mundo em dólar até o fim da década.
O relatório destaca que Brasil, Canadá e Itália não sofreram “derrapagem” econômica súbita entre o início de 2025 e o momento atual.
Pelo contrário, o texto registra valorização do real, melhora nas expectativas de crescimento e redução da distância em relação ao PIB canadense e italiano.
Ainda assim, as mudanças cambiais mais intensas em outras economias, em especial a russa, reorganizaram o ranking em dólares.
Em termos políticos e simbólicos, a saída do grupo das dez maiores economias do mundo ocorre em um momento em que o país tenta reforçar seu papel em fóruns multilaterais e negociações globais.
Mesmo que o impacto econômico direto seja limitado, a perda da posição tende a alimentar o debate interno sobre competitividade, produtividade e dependência do ciclo de commodities.
Crescimento real: Brasil no meio da tabela entre 51 países
Quando a análise migra do câmbio para o crescimento efetivo da atividade, o retrato muda mas continua modesto.
No terceiro trimestre de 2025, o PIB brasileiro cresceu 0,1% em relação ao segundo trimestre. Na lista elaborada pela Austin Rating com 51 países que já divulgaram seus dados, o Brasil aparece na 34ª posição em ritmo de expansão trimestral.
No topo da tabela, o relatório cita Israel, com avanço de 3,0%, seguido por Malásia e Cingapura, ambas com 2,4%, além de Dinamarca, Indonésia e Peru, com resultados entre 2,3% e 1,4%.
Na outra ponta, a Tailândia registrou retração de 0,6% frente ao trimestre anterior, figurando como pior desempenho entre as economias acompanhadas.
Esse quadro reforça que o país não está em recessão, mas cresce pouco em comparação com outras economias emergentes.
Em combinação com o efeito cambial, esse ritmo moderado ajuda a consolidar a posição brasileira fora do grupo das dez maiores economias do mundo em dólares.
O papel do câmbio e dos controles de capitais russos
Um dos pontos centrais do relatório é a explicação para a valorização do rublo.
A Austin Rating atribui o movimento aos controles de capitais adotados pela Rússia após as sanções ocidentais que se seguiram à ofensiva militar na Ucrânia, em 2022.
Ao restringir saídas de recursos, exigir conversão de receitas de exportação em moeda local e impor barreiras a certas operações financeiras, o governo russo sustentou artificialmente a demanda por rublo.
Na contabilidade do FMI, esse câmbio mais forte infla em dólares a participação russa na economia do mundo, mesmo sob ambiente geopolítico conturbado e desafios internos.
Já o Brasil viu o real se valorizar em 2025, mas em intensidade menor.
A própria Austin Rating sublinha que a distância em relação a Canadá e Itália diminuiu, e que as projeções de crescimento para o PIB brasileiro chegaram a ser revisadas para cima pelo FMI em outubro.
Apesar disso, o efeito combinado de controles severos na Rússia e da nova paridade do rublo foi suficiente para reordenar o ranking global.
O que o rebaixamento no ranking sinaliza para o Brasil
Do ponto de vista técnico, estar em 10º ou 11º lugar na economia do mundo, medido por PIB em dólar, não altera sozinho o fluxo de comércio ou a estrutura produtiva. Mas o movimento carrega sinais importantes:
Evidencia a sensibilidade do Brasil ao câmbio na comparação internacional, já que boa parte do PIB em dólar depende da taxa entre real e moeda americana.
Reacende a discussão sobre o quanto o país depende de ciclos externos favoráveis de commodities para subir no ranking.
Expõe a necessidade de crescimento sustentado mais forte para compensar movimentos cambiais em outras jurisdições.
Coloca pressão adicional sobre a agenda de reformas estruturais, produtividade, investimentos e ambiente de negócios, temas que influenciam o crescimento de médio e longo prazo.
Especialistas consultados pela Austin Rating observam que, mesmo sem uma crise aguda, a combinação de crescimento apenas mediano e câmbio relativamente instável limita o ganho de peso do Brasil na economia do mundo, abrindo espaço para que outros emergentes reorganizem as primeiras posições do ranking quando há choques locais em suas moedas.
Diante desse cenário, com o Brasil fora das dez maiores economias do mundo em dólar até pelo menos 2030, você acha que o foco principal para recuperar espaço deve ser câmbio mais competitivo, aceleração do crescimento econômico ou reformas estruturais profundas para ganhar produtividade?

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