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Trabalhadores mexem no jardim de uma casa perto do Ibirapuera e esbarram em um “tronco” de quase 2 metros e 2 toneladas, especialistas da USP são chamados e descobrem que a peça é um fóssil de cerca de 300 milhões de anos

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Escrito por Ana Alice Publicado em 27/08/2026 às 19:23
Obra perto do Ibirapuera encontra tronco fossilizado de quase 2 metros e 2 toneladas, com idade estimada em 300 milhões de anos. - Imagem: Ilustrativa
Obra perto do Ibirapuera encontra tronco fossilizado de quase 2 metros e 2 toneladas, com idade estimada em 300 milhões de anos. – Imagem: Ilustrativa
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Uma estrutura encontrada durante uma obra residencial em São Paulo parecia apenas um obstáculo no terreno, mas sua origem, seu peso e sua idade acabaram transformando o caso em uma descoberta científica incomum.

À primeira vista, era apenas uma estrutura pesada que atrapalhava uma obra no jardim de uma residência perto do Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Com quase dois metros e aproximadamente duas toneladas, o objeto poderia ter terminado entre os materiais retirados do terreno.

Uma ligação para a Universidade de São Paulo, porém, mudou completamente o destino daquela peça.

Especialistas do Museu de Geociências da USP foram chamados ao imóvel em julho de 2024 e confirmaram que as duas estruturas encontradas no jardim, uma menor e outra muito maior, eram partes de um tronco fossilizado estimado em cerca de 300 milhões de anos.

O caso ganhou um novo contexto desde então.

O Museu de Geociências, que estava fechado para reformas quando recebeu as peças, foi reinaugurado em 29 de maio de 2025, depois de passar por uma renovação iniciada em 2023.

O espaço voltou a receber visitantes e mantém uma exposição dedicada também aos fósseis, embora as informações públicas consultadas não permitam confirmar com segurança se esse tronco específico já ocupa atualmente uma posição definitiva na mostra.

A história continua chamando atenção por mostrar como um objeto preservado durante centenas de milhões de anos pode permanecer durante décadas em uma propriedade particular sem que sua verdadeira natureza seja conhecida.

Tronco fossilizado foi encontrado em jardim perto do Ibirapuera

Tudo começou quando uma arquiteta que acompanhava a obra percebeu que havia algo incomum no terreno.

Durante os trabalhos, apareceram duas peças que lembravam partes de um tronco.

A maior tinha quase dois metros de altura e pesava aproximadamente duas toneladas, dimensão suficiente para tornar sua retirada um problema para a própria obra.

Em vez de permitir que o material fosse descartado, a arquiteta decidiu procurar o Museu de Geociências da USP.

Uma equipe ligada ao Instituto de Geociências foi até a residência e confirmou a suspeita: a estrutura apresentava características de madeira fossilizada.

A retirada não aconteceu imediatamente.

Por causa do tamanho e do peso, foi necessário planejar uma operação específica para remover as peças sem danificá-las.

Cerca de duas semanas depois do primeiro contato, o material já estava sendo transportado para a USP.

O que até então permanecia praticamente silencioso no jardim de uma casa passaria a fazer parte de um acervo científico.

Tronco fossilizado de cerca de 300 milhões de anos após ser levado ao Museu de Geociências da USP, em São Paulo. Crédito: Miriam Della Posta de Azevedo/USP.
Tronco fossilizado de cerca de 300 milhões de anos após ser levado ao Museu de Geociências da USP, em São Paulo. Crédito: Miriam Della Posta de Azevedo/USP.

Como um tronco pode se transformar em pedra

A aparência de madeira pode provocar estranhamento quando se considera a idade atribuída ao material, mas o processo que preserva estruturas desse tipo é conhecido pela ciência.

Segundo Ideval Souza Costa, geólogo e coordenador do setor educativo do Museu de Geociências, o exemplar passou por um processo chamado petrificação.

Nesse tipo de fossilização, a matéria original da madeira é gradualmente substituída por minerais.

No caso descrito pela equipe da USP, o material foi associado à presença de sílica, substância que, ao penetrar na estrutura do vegetal e substituir seus componentes ao longo do tempo, permite conservar características do antigo tronco.

O resultado pode manter formas e detalhes que lembram madeira mesmo depois de a matéria orgânica original ter sido transformada.

Não é um processo rápido.

Para que uma estrutura vegetal atravesse uma escala de tempo medida em milhões de anos, são necessárias condições que dificultem sua decomposição e favoreçam sua mineralização.

A estimativa divulgada pela Agência Universitária de Notícias da USP em 2024 apontava idade aproximada de 300 milhões de anos para o exemplar.

A equipe também trabalhava com a possibilidade de que a peça fosse originária da região de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, hipótese que ainda dependia de análises especializadas.

Fóssil encontrado em São Paulo pode ter vindo do Rio Grande do Sul

Encontrar uma peça desse tamanho em um jardim paulistano não significa que a árvore tenha vivido exatamente onde hoje está o bairro próximo ao Ibirapuera.

A própria avaliação inicial dos responsáveis pelo Museu indicava uma possível procedência do Rio Grande do Sul.

Isso significa que o fóssil pode ter sido transportado para São Paulo em algum momento muito posterior à sua formação e colocado na propriedade antes que seu valor científico fosse reconhecido.

A documentação disponível sobre o caso, entretanto, não informa com segurança quando a peça chegou à residência, quem a levou para São Paulo ou durante quanto tempo permaneceu naquele jardim.

Também não havia, na divulgação inicial, uma identificação paleobotânica definitiva capaz de apontar com precisão a espécie ou o grupo vegetal ao qual o tronco pertenceu.

Essas respostas dependem de análises especializadas.

Por isso, o tamanho, a idade aproximada e o processo de fossilização estão entre os elementos divulgados pela USP, enquanto a origem precisa e a identificação botânica permaneciam como pontos a serem aprofundados.

Peça de duas toneladas quase foi perdida durante a obra

O peso do fóssil criou outro desafio.

Segundo Miriam Della Posta de Azevedo, chefe técnica do Museu de Geociências, havia necessidade de retirar rapidamente a estrutura porque a empreiteira precisava continuar a obra no imóvel.

Sem uma solução para o transporte, o material poderia ter sido perdido.

A oportunidade surgiu porque o Museu havia obtido recursos de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) destinado à revitalização de espaços científico-culturais.

Como a incorporação do fóssil ao acervo estava relacionada ao projeto de exposição, uma parcela do recurso pôde ser utilizada para contratar a empresa responsável pela retirada e pelo transporte.

“Se não houvesse essa verba a gente teria perdido um patrimônio desse”, afirmou Miriam à Agência Universitária de Notícias da USP.

A operação permitiu levar tanto a peça maior quanto o fragmento menor para o Museu.

Reforma do Museu de Geociências mudou o destino do fóssil

Quando o fóssil chegou à universidade, em 2024, o Museu de Geociências ainda estava fechado.

As visitas haviam sido suspensas em setembro de 2023 para uma reforma no prédio, construído na década de 1970 e afetado, entre outros problemas, por infiltrações.

Na reportagem publicada em outubro de 2024, a previsão era preparar posteriormente um espaço para incorporar o tronco à exposição.

Essa parte da história teve pelo menos um desdobramento confirmado: o museu foi oficialmente reinaugurado em maio de 2025.

A renovação ampliou a estrutura e reorganizou a apresentação do acervo com uma proposta voltada a explicar a história da Terra ao público geral.

Atualmente, o próprio Museu informa que mantém coleções de minerais, rochas, meteoritos e fósseis e que está novamente aberto para visitação gratuita, de terça-feira a sábado.

Não foi localizada, porém, uma atualização institucional que detalhe a posição atual daquele tronco de duas toneladas dentro da exposição.

Fóssil passou de um jardim particular para o acervo da USP

Para Ideval Souza Costa, levar a peça para uma instituição pública também muda a função que ela pode cumprir.

“Na casa da pessoa, a amostra estava calada; aqui ela se comunica com a sociedade”, afirmou o geólogo na época da aquisição.

A frase resume uma diferença importante entre um objeto preservado em uma propriedade particular e uma peça incorporada a um acervo científico.

No museu, o material pode ser documentado, comparado com outros fósseis, analisado por pesquisadores e utilizado em atividades de divulgação científica.

A USP já possui outros fósseis vegetais em seu acervo.

Em exposições anteriores, por exemplo, a universidade apresentou ao público exemplares capazes de ajudar a explicar a evolução das plantas e ambientes que existiram milhões de anos antes dos ecossistemas atuais.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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