1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Tijolos feitos de raízes de cogumelo crescem sozinhos em apenas 5 dias dentro de um molde, resistem ao fogo, isolam o calor e no final da vida útil podem ser jogados no jardim porque se decompõem naturalmente
Tempo de leitura 4 min de leitura Comentários 0 comentários

Tijolos feitos de raízes de cogumelo crescem sozinhos em apenas 5 dias dentro de um molde, resistem ao fogo, isolam o calor e no final da vida útil podem ser jogados no jardim porque se decompõem naturalmente

Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 22/04/2026 às 19:00
Atualizado em 22/04/2026 às 19:06
Tijolos de micélio de cogumelo com textura orgânica natural
Tijolos feitos de micélio de cogumelo sobre mesa — material orgânico que cresce sozinho em moldes.
  • Reação
2 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

O micélio é a rede de raízes invisíveis que todo cogumelo tem debaixo da terra e quando essa rede cresce dentro de um molde com serragem, ela endurece e vira um bloco resistente que pode substituir o isopor e até o tijolo

Quando você vê um cogumelo no chão da floresta, está vendo apenas a ponta do iceberg. Debaixo da terra existe uma rede enorme de filamentos brancos chamada micélio. Essa rede pode se espalhar por metros, às vezes por hectares inteiros.

É o micélio que decompõe matéria orgânica, transporta nutrientes e mantém o ecossistema funcionando.

A empresa americana Ecovative Design, fundada por Eben Bayer em 2007, descobriu algo surpreendente sobre essa rede de raízes.

Quando o micélio cresce dentro de um molde preenchido com serragem ou palha de milho, ele se espalha, preenche todos os espaços e endurece.

Em apenas 5 dias, o bloco está pronto.

Depois de seco em forno, vira um material leve, resistente ao fogo, isolante térmico e 100% biodegradável.

Como funciona o processo: do esporo ao tijolo em uma semana

O processo começa com resíduos agrícolas: serragem, palha de milho, cascas de arroz.

Esse material é esterilizado e colocado dentro de moldes do formato desejado.

Esporos de cogumelo são adicionados à mistura.

Em ambiente controlado, com temperatura e umidade ideais, o micélio começa a crescer.

Os filamentos se espalham por toda a serragem, grudando as partículas umas nas outras como uma cola biológica natural.

Depois de 5 a 7 dias, o bloco é retirado do molde e colocado em forno a baixa temperatura para matar o organismo vivo e secar o material.

O resultado é um bloco rígido, leve e com propriedades surpreendentes.

Raízes brancas de micélio crescendo em substrato orgânico
Micélio crescendo como raízes brancas através do substrato orgânico em bandeja de laboratório.

Resiste ao fogo e isola como isopor, mas não polui como ele

O isopor é um dos materiais mais usados em embalagens e isolamento térmico.

Mas é feito de petróleo, leva 500 anos para se decompor e polui oceanos.

O bloco de micélio tem propriedades térmicas parecidas com as do isopor.

Isola o calor, absorve impactos e é leve.

Mas quando descartado, se decompõe em semanas no solo.

Pode ser literalmente jogado no jardim e vira adubo.

Além disso, o micélio seco é naturalmente resistente ao fogo.

Diferente do isopor, que derrete e libera gases tóxicos, o bloco de cogumelo carboniza lentamente sem propagar chamas.

A Dell e a IKEA já usam embalagens de micélio

A Dell foi uma das primeiras grandes empresas a adotar embalagens de micélio para proteger computadores durante o transporte.

A IKEA também testou o material como substituto do isopor nas caixas de seus móveis.

O custo ainda é mais alto que o do isopor convencional, mas a diferença vem caindo com o aumento da escala de produção.

A Ecovative já produz o material em fábricas nos Estados Unidos e licencia a tecnologia para outros países.

Da embalagem ao tijolo: o próximo passo é construir casas

Se o micélio funciona como embalagem, por que não como material de construção?

Em 2014, o escritório de arquitetura The Living construiu uma torre de tijolos de micélio no MoMA PS1, em Nova York.

A torre Hy-Fi tinha 12 metros de altura e era feita inteiramente de blocos cultivados com micélio.

Quando a exposição acabou, a torre foi desmontada e os blocos foram compostados.

Voltaram à terra. Zero resíduo.

Pesquisadores da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, estão desenvolvendo micélio que pode se autoreparar.

Se uma parede de micélio rachar, basta adicionar nutrientes e umidade para que o fungo cresça novamente e feche a fissura.

As limitações que ainda precisam ser resolvidas

O micélio não tem resistência estrutural para suportar o peso de andares.

Precisa ser combinado com estruturas de madeira ou aço, assim como o hempcrete e outros biomateriais.

A durabilidade de longo prazo ainda está sendo estudada.

Em ambientes muito úmidos, há risco de reativação do fungo se o processo de secagem não for completo.

Mas como isolante térmico, absorvedor de impacto e substituto do isopor, o micélio já é viável.

Um material que cresce sozinho, não precisa de fábrica poluente e vira adubo no final da vida.

Se alguém dissesse isso 20 anos atrás, ninguém acreditaria. Hoje, a Dell manda seu computador embalado nele.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Flavia Marinho

Flavia Marinho é Engenheira pós-graduada, com vasta experiência na indústria de construção naval onshore e offshore. Nos últimos anos, tem se dedicado a escrever artigos para sites de notícias nas áreas militar, segurança, indústria, petróleo e gás, energia, construção naval, geopolítica, empregos e cursos. Entre em contato com flaviacamil@gmail.com ou WhatsApp +55 21 973996379 para correções, sugestão de pauta, divulgação de vagas de emprego ou proposta de publicidade em nosso portal.

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x