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Telhas fabricadas por volta de 1939 e resgatadas de uma fazenda vizinha cobrem três lados da casa, quase dispensam manutenção, melhoram o isolamento térmico e enfrentam o inverno rigoroso da Noruega sem problema

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 30/07/2026 às 16:12
Telhas fabricadas por volta de 1939 e resgatadas de uma fazenda revestem casa na Noruega, quase sem manutenção e com ganho de isolamento térmico.
Telhas fabricadas por volta de 1939 e resgatadas de uma fazenda revestem casa na Noruega, quase sem manutenção e com ganho de isolamento térmico.
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Em Stokka, região de lago a poucos quilômetros de Stavanger, uma família norueguesa ergueu a própria casa sobre o terreno onde o avô cultivava flores. As telhas fabricadas há mais de oito décadas em uma propriedade rural próxima viraram o revestimento externo, e a reutilização guiou cada escolha do projeto.

As telhas fabricadas por volta de 1939 em uma fazenda das redondezas não foram parar em um depósito de entulho. Elas revestem hoje três lados de uma casa nova construída em Stokka, região de lago situada a cerca de três quilômetros do centro de Stavanger, na Noruega, onde Karen Mauritzen Midbøe passou a infância e herdou o terreno em que o avô mantinha uma horta e cultivava flores. A história foi publicada pela revista britânica Grand Designs, em reportagem com fotografias de Lise Bjelland para a A Design Features.

Karen e Anders decidiram construir ali a casa da família, que inclui três filhos pequenos, de oito, dez e doze anos. A escolha do terreno também teve razão prática, já que a distância permite ir de bicicleta até os locais de trabalho do casal. O projeto ficou a cargo do escritório Haga e Grov AS, e a execução com a empreiteira Slyk & Espevik. A meta declarada era simples de enunciar e difícil de cumprir: que cada aspecto da construção carregasse uma referência ao passado.

Carta branca para os arquitetos e apenas duas exigências

Os proprietários já conheciam o trabalho do escritório por outros projetos familiares, e essa familiaridade encurtou a discussão. Em vez de chegar com uma lista de imposições, o casal preferiu deixar a experiência dos arquitetos trabalhar solta, estabelecendo pouquíssimas diretrizes. Karen resumiu o briefing em duas linhas: quatro quartos e espaço para uma mesa comprida na sala de jantar.

O processo teve momentos de tensão, como quase todo projeto residencial. Nas reuniões, os moradores apontaram detalhes que pensavam em cortar do desenho. A cada vez, ouviram dos arquitetos os motivos técnicos por trás daquelas soluções e acabaram mantendo o que pretendiam eliminar. Em retrospecto, o casal avalia que essa foi uma das melhores decisões da obra. O resultado é uma casa que trabalha com poucos materiais, mas com forte identidade: pinho e concreto no interior, e telhado cerâmico envolvendo o exterior em três faces.

As telhas fabricadas na década de 1930 que viraram fachada

IMAGEM: Lise Bjelland/A Design Features
IMAGEM: Lise Bjelland/A Design Features

O revestimento cerâmico nas paredes externas não partiu dos moradores. Foi ideia do arquiteto, e a proposta de reaproveitamento agradou de imediato à família, já que a sustentabilidade era o eixo do projeto desde o começo. As peças foram recuperadas de uma fazenda próxima e são conhecidas na região pelo nome de Sandnes panner, um tipo comum no sul da Noruega.

Do ponto de vista prático, as telhas fabricadas há tanto tempo entregam duas vantagens que raramente aparecem juntas. A primeira é a manutenção, que os moradores descrevem como pouca ou nenhuma. A segunda é o desempenho térmico, já que a camada cerâmica contribui para melhorar as qualidades térmicas da casa. Material com quase um século de uso anterior, aplicado em uma construção nova, sem passar por linha de produção nenhuma.

Há um detalhe cronológico que merece atenção. A reportagem da Grand Designs descreve o material como tendo quase cem anos, mas informa que a criação das peças ocorreu em torno de 1939, o que as situa na casa dos oitenta e poucos anos. A diferença não altera o princípio do reaproveitamento, mas ajuda a dimensionar com precisão o que está pregado na fachada.

Pinho, concreto e uma paleta de verdes que se repete

IMAGEM: Lise Bjelland/A Design Features
IMAGEM: Lise Bjelland/A Design Features

O interior segue a mesma lógica de economia de materiais. Todo o mobiliário fixo, com exceção da escada interna, saiu de uma marcenaria local, a Austoll Tre & Design, conforme explicou o arquiteto Rune Grov à publicação britânica. Janelas e portas são de madeira, e o acabamento interno usa MDF pintado.

A cor escolhida foi o verde, e a decisão não foi estética por acaso. Ela dá continuidade à ligação com a natureza que orienta o conjunto. Armários, molduras e portas aparecem em tons diferentes do sistema de cores naturais NCS, o que cria uma sensação de unidade ao percorrer os cômodos. A repetição controlada da mesma família de cores costura ambientes que, de outra forma, ficariam soltos entre si.

A escada interna recebeu tratamento à parte. Cada degrau foi construído para ficar suspenso, apoiado em uma parede ou em um poste de madeira, e a peça funciona também como poço de luz, levando claridade para o miolo do edifício.

Vidro na linha do telhado e um jardim de inverno no sótão

IMAGEM: Lise Bjelland/A Design Features
IMAGEM: Lise Bjelland/A Design Features

Entre as soluções que os arquitetos entregaram além do pedido inicial está a relação da casa com o terreno e com a luz. Existe um terraço ajardinado rebaixado ao redor das janelas do porão, e o térreo se abre para o jardim. No sótão, uma inserção de vidro acompanha a linha do telhado em uma das laterais e segue por toda a cobertura, criando um jardim de inverno no ponto mais alto da casa.

No pavimento dos quartos, cada dormitório dá para uma varanda compartilhada que percorre toda a extensão da construção, ligando os ambientes ao jardim lá embaixo. Na cozinha, uma janela alongada se estende por toda a bancada e enquadra a garagem de madeira. A estrutura de concreto que aparece nessa vista tem suportes verticais preparados para receber trepadeiras. Quando a vegetação subir, o concreto some atrás do verde.

A luz que entra pela escadaria ganha reforço na sala de estar através de luminárias pendentes conhecidas como ninhos de vespa, produzidas localmente pela Stavanger Metallkunst e usadas originalmente pelo avô de Karen. O desenho atravessou décadas e voltou ao mesmo terreno, agora sobre um sofá laranja.

Aquecimento geotérmico e vidros triplos contra o frio

O conforto térmico em um inverno rigoroso não se resolve só com telha. A casa combina aquecimento geotérmico e um fogão a lenha, e a esquadria foi especificada com critério: todas as janelas que podem ser abertas levam vidros duplos, enquanto as janelas fixas receberam vidros triplos.

A diferença entre os dois padrões faz sentido construtivo. Onde há batente móvel, existe folga e mecanismo, e a exigência é diferente do que ocorre em um pano de vidro selado. Aplicar o vidro triplo apenas onde ele rende mais evita gasto sem retorno. Somado ao ganho térmico do revestimento cerâmico e ao isolamento acústico obtido com painéis perfurados de pinho no teto da sala de estar, o pacote fecha a casa contra o clima do sul norueguês.

O porão de concreto onde as crianças jogam bola

Com três filhos em casa, o projeto precisou responder ao barulho e ao desgaste. A resposta veio no porão, onde uma sala de jogos infantil foi executada em concreto justamente para aguentar bola dentro de casa sem que paredes e teto sofram. A porta de entrada principal dá acesso a um amplo closet, onde ficam casacos e sapatos, resolvendo a bagunça logo na chegada.

O mesmo pavimento traz uma porta de correr que divide a sala de estar em dois ambientes menores, além de um banheiro deixado inacabado, pronto para receber acabamento se a família precisar. No térreo, grandes portas de correr inundam o espaço de luz e trazem o jardim para dentro, e armários embutidos fazem o papel de divisórias. Na cozinha, outra porta de correr embutida na parede segura o ruído do preparo das refeições.

Um jardim dividido em zonas e pensado para as abelhas

Do lado de fora, o terreno foi organizado em zonas de uso, com espaço para futebol e trampolins, e manutenção descomplicada. As refeições ao ar livre acontecem no terraço, posicionado perto da cozinha para encurtar o trajeto. O galpão recebe um telhado verde de sedum, ainda em construção, que completa a conexão do conjunto com a paisagem.

A escolha das plantas passou por consultoria. A família contratou um jardineiro para definir as perenes adequadas às condições locais de cultivo, de modo a garantir pontos de cor em épocas diferentes do ano. A prioridade declarada por Karen à Grand Designs, porém, não foi a floração, e sim que o jardim fosse amigo das abelhas, o que amarra a paisagem ao mesmo princípio de reaproveitamento e respeito ao lugar que rege o restante da obra. A lembrança do avô e do gosto dele por flores atravessa essa decisão.

Luminárias resgatadas de um antigo asilo e dois anos de obra

O gesto de dar segunda vida a objetos não parou nas telhas. O casal lavou e pintou luminárias Luxo recuperadas de um antigo asilo e transformou as peças em luminárias de leitura nos quartos, que dividem dois banheiros grandes. Uma área de trabalho aberta, feita em MDF pintado com desenho perfurado, espelha o teto da sala de estar e serve para lição de casa e trabalho remoto.

O sótão, alcançado pela escada aberta, reúne sala de estar, escritório e o jardim de inverno sob o vidro. O prazo total foi de dois anos, sendo um ano de projeto e planejamento e outro de execução, com a maior parte do interior em madeira feita à mão. Na avaliação da moradora, arquiteto e empreiteiros conduziram o processo sem sobressaltos, e a família se diz muito satisfeita com o resultado.

Uma casa que só revelou suas qualidades depois da mudança

O balanço feito por Karen aponta para algo que planta baixa nenhuma antecipa. Morando ali, a família passou a perceber qualidades do projeto que não estavam claras no momento da mudança. A conclusão registrada pela Grand Designs é categórica: construiriam tudo de novo.

O que sustenta esse balanço não é um material caro nem uma tecnologia inédita. É a soma de decisões pequenas e coerentes entre si, desde as telhas fabricadas em uma fazenda vizinha até as luminárias do avô penduradas na sala. Reutilização, nesse caso, não foi um detalhe de acabamento, foi o método da obra inteira.

E aí, telha velha na fachada de casa nova funciona ou é frescura de arquiteto? Você moraria em uma casa revestida com material recuperado de outra construção? Conta nos comentários o que faria diferente nesse projeto.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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