Drones sobrevoam o confinamento a 15 metros de altura, capturam imagens dos bovinos e uma IA extrai medidas corporais sem contato. O sistema identifica o ponto exato em que o animal para de converter ração em peso de forma eficiente.
Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma tecnologia que promete revolucionar a pecuária de corte no país: um sistema que usa drones e inteligência artificial para determinar, com precisão inédita, o momento ideal para o abate de cada lote de bovinos em confinamento, sem a necessidade de prender, estressar ou sequer tocar nos animais.
O estudo foi publicado pelo projeto Semear Digital, vinculado à Embrapa Agricultura Digital, em Campinas (SP), na revista científica Computers and Electronics in Agriculture, uma das mais respeitadas do mundo na área de tecnologia aplicada ao agronegócio.
O problema que a pecuária vivia há décadas

Segundo o pesquisador Jayme Barbedo, da Embrapa Agricultura Digital, o modelo tradicional de pesagem apresenta falhas sérias: exige manejo intensivo, expõe os animais a riscos de contusões e ainda sofre com avarias frequentes nas balanças. Na prática, conforme detalhou o estudo, os confinamentos chegavam a ficar mais de uma semana sem medir o ritmo de ganho de peso do rebanho, tomando decisões com base em estimativas e não em dados reais.
-
Luciano Hang critica cotas na pesca da tainha em SC e reação expõe impasse que deixou pescadores parados: “Não é fácil”
-
Meio milhão de litros de água doce arrancados do mar por dia, 300 toneladas de ração e 84 ventiladores que renovam todo o ar a cada 60 segundos mantêm 16.000 animais vivos e até engordando dentro do Becrux rumo à Indonésia
-
Mesmo depois de a China ultrapassar a Rússia em volume de fertilizantes vendidos ao Brasil em 2025, pela primeira vez na história, Rússia segue como parceira estratégica e fechou com Brasília um novo plano de cooperação no agronegócio com foco no insumo
-
Inovação desenvolvida por pesquisadores em Mato Grosso converte cinza vegetal em fertilizante sustentável e pode revolucionar o agronegócio ao unir economia circular, redução de desperdícios e aproveitamento inteligente de resíduos agrícolas
Esse atraso tem um custo alto. De acordo com o pesquisador Everton Tetila, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e coordenador da pesquisa, a diferença de apenas um dia no momento do abate pode representar prejuízo significativo nos custos de ração e de manejo, especialmente em lotes numerosos.
Como funciona o sistema de drones com IA
O sistema foi testado na Fazenda Campanário, em Laguna Carapã, no Mato Grosso do Sul, acompanhando um lote de 110 animais da raça Nelore ao longo de 112 dias de confinamento.
Segundo o BeefPoint, drones realizaram voos regulares sobre o confinamento a diferentes alturas, sendo 15 metros de altitude a distância considerada ideal para capturar imagens sem causar estresse nos animais. “Os animais nem percebiam que estavam sendo pesados”, afirmou Eduardo da Silva Alves, analista de rastreabilidade da fazenda.
A partir das imagens aéreas, conforme descrito pelo Portal Campo Vivo, modelos de inteligência artificial identificam cada boi individualmente, recortam e segmentam automaticamente o corpo do animal e extraem medidas corporais como comprimento e largura. O algoritmo ainda descarta automaticamente animais deitados ou em ângulo desfavorável, garantindo uma média mais precisa do ganho de peso do lote.
O “ponto de inflexão”: o segredo que vale milhões

O conceito central da descoberta, segundo o pesquisador Tetila ao Portal Campo Vivo, é o chamado “ponto de inflexão”: o momento em que o animal atinge sua taxa máxima de ganho de peso e, a partir daí, passa a converter alimento em peso de forma cada vez menos eficiente.
“O animal ganha pouco peso no início, em sua fase de adaptação, depois entra em uma fase de ganho acelerado e, no final, ocorre uma desaceleração que deixa de ser vantajosa economicamente”, explicou Tetila, conforme reportado pelo BeefPoint. Identificar esse ponto com exatidão é o que o sistema agora consegue fazer de forma automatizada e contínua, sem interromper a rotina do confinamento.
Economia de R$ 2 milhões em uma única fazenda
Os resultados práticos são expressivos. De acordo com o BeefPoint, o sistema identificou que os animais testados estavam prontos para o abate até uma semana antes do que os métodos tradicionais indicariam. Só nesse lote de 110 cabeças, a economia estimada com ração chegou a R$ 15 mil.
Como a Fazenda Campanário possui aproximadamente 14,6 mil bovinos confinados, segundo o BeefPoint, o ganho de eficiência poderia alcançar R$ 2 milhões caso o sistema fosse aplicado a todo o rebanho. Jefferson de Andrade Parra, gerente de pecuária da fazenda, classificou a solução como “fantástica” e afirmou que nunca havia visto drones serem utilizados para esse fim.
O impacto que pode chegar ao supermercado
A lógica é direta: menos dias de ração desnecessária significa menor custo de produção. E menor custo de produção abre caminho para preços mais competitivos ao longo de toda a cadeia. Conforme declarou o pesquisador Tetila ao Portal Campo Vivo, “se você consegue identificar o momento ideal de abate, é possível diminuir os custos de produção e até contribuir para a redução do preço da carne”.
O mesmo sistema ainda tem potencial para detectar comportamento alimentar anômalo e situações de estresse no rebanho, como disputas entre animais que resultam em lesões e queda de desempenho.
Ainda falta um parceiro comercial
Apesar dos resultados promissores, o projeto ainda não chegou ao mercado. Segundo Barbedo, conforme publicado pelo Portal Campo Vivo, “estamos próximos de um protótipo funcional, mas ainda é necessário um parceiro para transformar isso em um produto comercial”. Os próximos passos incluem adaptar o modelo para outras raças além do Nelore, como Angus e Brahman, e validar o sistema em escala comercial ampla.
A tecnologia que pode mudar o preço da carne no Brasil já existe. O que falta agora é o passo final para colocá-la em prática nas fazendas do país.

Seja o primeiro a reagir!