Formado em filosofia, Marc Tamba Tolno pesquisou energia hidrelétrica pelo celular, mobilizou moradores de Firadou e participou de um projeto comunitário que começou a gerar eletricidade em 2017. Anos depois, a iniciativa recebeu quase US$ 250 mil para uma estrutura mais potente e ampliou os efeitos da energia renovável sobre casas e pequenos negócios de 1.015 moradores na Guiné.
Marc Tamba Tolno não era engenheiro, eletricista nem técnico em geração de energia. Ele havia estudado filosofia em Conacri, capital da Guiné, mas passou horas pesquisando relatórios científicos pelo celular quando percebeu que os painéis solares existentes em Firadou não conseguiam fornecer eletricidade para toda a aldeia.
A história foi publicada em 12 de agosto de 2024 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, agência da ONU voltada ao desenvolvimento. A primeira barragem e sua central começaram a funcionar em 2017, atendendo grande parte dos 1.015 habitantes. Em 2021, uma segunda estrutura mais potente recebeu apoio financeiro e permitiu ampliar o acesso.
O resultado não veio de uma pessoa trabalhando sozinha. Marc reuniu informações, apresentou a ideia e mobilizou moradores, enquanto a comunidade participou com recursos e trabalho. Mais tarde, o projeto recebeu financiamento institucional e a manutenção passou a envolver técnicos locais treinados pelo Ministério da Energia da Guiné.
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Firadou tinha 1.015 moradores e ficava distante da rede elétrica
Firadou está na região florestal da Guiné, em uma área cercada por montanhas e distante dos centros urbanos. O acesso é difícil e exige mais de duas horas por pistas ruins a partir da estrada pavimentada mais próxima.
A distância também aparecia na falta de eletricidade. Antes da geração local, atividades comuns em áreas urbanas eram limitadas na aldeia. Iluminação doméstica, estudo durante a noite, carregamento de celulares e uso de televisão dependiam da disponibilidade de energia.

Marc já havia tentado enfrentar esse problema com painéis solares instalados em Firadou. A geração solar, porém, não era suficiente para abastecer toda a comunidade. Foi nesse ponto que ele começou a procurar outra possibilidade.
Sem formação técnica, Marc passou horas pesquisando energia pelo celular
A formação de Marc estava distante da engenharia. Ele havia estudado filosofia em Conacri e não possuía formação profissional como engenheiro ou eletricista quando começou a estudar formas de aproveitar a água para produzir eletricidade.
O acesso à informação também tinha limitações. Sempre que conseguia conexão com a internet ou ia à cidade, Marc passava horas usando o telefone para consultar materiais e reportagens científicas relacionados ao assunto. Foi assim que reuniu informações para desenvolver sua ideia.
Antes da barragem, Marc precisou convencer os próprios moradores
Ter uma ideia não bastava. Marc precisava conseguir apoio dentro da própria aldeia, inclusive entre moradores mais velhos que inicialmente desconfiavam de uma proposta tão ambiciosa.
A participação comunitária acabou se tornando uma parte essencial do projeto. Marc conseguiu reunir recursos entre os habitantes de Firadou, enquanto jovens da aldeia participaram dos trabalhos necessários para tirar a iniciativa do papel.
A mobilização mostra por que a história vai além do estudo feito pelo celular. A geração de energia nasceu de uma iniciativa pessoal, mas avançou porque a comunidade colocou recursos e trabalho no projeto.
Em 2017, a primeira barragem começou a produzir eletricidade
A primeira grande mudança ocorreu em 2017, quando a barragem e a central elétrica entraram em funcionamento. A partir daquele momento, grande parte dos 1.015 habitantes de Firadou passou a ter acesso à eletricidade.
A estrutura aproveitava a força da água para produzir energia. Em termos simples, a água em movimento fornece a força necessária para que equipamentos da central gerem eletricidade, que então pode ser utilizada pela comunidade.
Dentro das casas, o efeito foi direto. Moradores passaram a conseguir acender lâmpadas, estudar à noite, carregar celulares e assistir televisão com a energia produzida localmente. Pessoas de aldeias vizinhas também passaram a procurar Firadou para utilizar a eletricidade disponível.
Quase US$ 250 mil financiaram uma segunda barragem e uma central mais potente
O projeto ganhou uma nova dimensão em 2021. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, agência da ONU voltada ao desenvolvimento, financiou a construção de uma segunda barragem e de uma central hidrelétrica mais potente com um aporte de quase US$ 250 mil.
Com essa ampliação, todos os moradores passaram a ser beneficiados pela eletricidade. As duas barragens também ficaram inseridas em uma iniciativa ligada à adaptação e à redução dos efeitos das mudanças climáticas na Guiné.

A operação posterior reforçou outra parte importante da história. A manutenção das barragens não ficou apenas nas mãos de Marc. Uma equipe de técnicos locais treinados pelo Ministério da Energia da Guiné passou a cuidar dessa atividade.
Eletricidade levou refrigeração, soldagem, irrigação e piscicultura aos pequenos negócios
A chegada da eletricidade não mudou apenas a iluminação das casas. A disponibilidade de energia abriu espaço para novas atividades econômicas dentro da própria aldeia e permitiu utilizar equipamentos que antes eram difíceis de manter em funcionamento.
Uma moradora investiu em um refrigerador para vender bebidas geladas, enquanto um jovem conseguiu adquirir uma máquina de soldagem. Também foram implantados sistemas de irrigação abastecidos por bombas elétricas, permitindo levar água aos cultivos com equipamentos movidos a eletricidade.
A piscicultura também entrou nessa mudança. A atividade consiste na criação de peixes e passou a aproveitar reservatórios de água ligados ao sistema. Dezenas de pessoas passaram a obter renda com a criação de peixes, ampliando as possibilidades econômicas dentro da comunidade.

A experiência ainda reduziu a dependência local de combustíveis fósseis. Com as duas barragens e os painéis solares que continuaram funcionando, Firadou deixou de depender das antigas lâmpadas a querosene e dos geradores movidos a diesel para obter energia.
A trajetória de Marc Tamba Tolno começou com uma contradição incomum: um homem formado em filosofia e sem formação profissional em engenharia ou eletricidade decidiu estudar geração de energia pelo celular. O que transformou a ideia em realidade, porém, foi a combinação entre conhecimento pesquisado, mobilização dos moradores e apoio técnico e financeiro.
De uma primeira estrutura colocada em funcionamento em 2017 ao investimento de quase US$ 250 mil em 2021, Firadou passou a usar a eletricidade não apenas dentro das casas, mas também em atividades capazes de gerar trabalho e renda.
Se uma comunidade isolada consegue transformar conhecimento, participação dos moradores e recursos locais em infraestrutura, quantas outras poderiam encontrar soluções próprias se tivessem acesso ao apoio técnico e financeiro necessário?
