Travessia de milhares de quilômetros por vários países africanos colocou um jovem diante de fronteiras, detenções e dificuldades financeiras enquanto perseguia um objetivo acadêmico no exterior, em uma jornada marcada por bicicleta usada, ajuda inesperada no caminho e uma oportunidade universitária decisiva.
Sem condições financeiras de comprar uma passagem aérea da Guiné para o Egito, Mamadou Safaiou Barry decidiu transformar uma bicicleta usada em seu meio de transporte e seguir por terra até a universidade onde sonhava estudar.
Aos 25 anos, ele percorreu cerca de 4 mil quilômetros pela África Ocidental durante aproximadamente quatro meses, atravessou seis países depois de deixar sua terra natal, enfrentou detenções no caminho e chegou ao Chade antes de receber ajuda.
Poucos dias após desembarcar no Cairo, o estudante conseguiu uma bolsa integral na Universidade Al-Azhar, instituição que havia motivado toda a jornada e que se tornaria o destino acadêmico de uma viagem marcada por obstáculos sucessivos.
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O objetivo de Barry era estudar teologia islâmica em uma instituição reconhecida internacionalmente, mas havia uma barreira elementar antes mesmo de qualquer processo acadêmico, porque ele não tinha recursos suficientes para pagar o deslocamento até o Egito.
Em vez de abandonar o plano, desenhou a rota africana em um caderno e partiu em uma bicicleta de montanha de segunda mão, levando poucos objetos para uma travessia que passaria por diferentes regiões do continente.
Segundo a Reuters, que acompanhou a trajetória do estudante e o entrevistou, Barry carregava basicamente uma muda de roupa, uma lanterna e uma chave de fenda, itens mínimos para uma viagem de milhares de quilômetros.
Mamadou Barry percorreu cerca de 4 mil quilômetros de bicicleta
Durante o percurso, ele pedalava aproximadamente 100 quilômetros por dia em determinados trechos e avançava por áreas de floresta, deserto e regiões afetadas por conflitos e instabilidade política, mantendo o objetivo de alcançar o destino universitário.

Depois de deixar a Guiné, sua rota passou por Mali, Burkina Faso, Togo, Benin e Níger até alcançar N’Djamena, capital do Chade, completando uma sequência de seis países atravessados depois da partida original naquela longa jornada.
A distância acumulada da jornada de bicicleta foi estimada em cerca de 4 mil quilômetros, enquanto o deslocamento completo até o Cairo acabaria exigindo uma mudança de planos antes da etapa final prevista para a viagem.
Entre os momentos mais delicados da travessia estiveram as passagens por Burkina Faso e Togo, onde Barry relatou ter sido detido três vezes ao longo da jornada, duas em território burquinense e uma no território togolês.
Estudante foi detido três vezes durante a viagem pela África
Nessa última ocasião, afirmou ter permanecido nove dias sob custódia antes de ser liberado mediante o pagamento de 35 mil francos CFA, quantia equivalente a cerca de 56 dólares na época e que consumiu seus recursos restantes.
Sem dinheiro suficiente para seguir com tranquilidade e viajando sozinho, o estudante também relatou que, em determinados momentos, preferia dormir em áreas afastadas das cidades por receio de perder a bicicleta ou sofrer algum tipo de violência.
A bicicleta representava mais do que um meio de transporte durante a travessia, pois era a peça essencial para continuar avançando em direção ao destino acadêmico e atravessar as fronteiras previstas no trajeto que havia planejado.
Mesmo diante dessas dificuldades, Barry continuou pedalando até chegar ao Chade, onde N’Djamena se tornou um ponto decisivo porque a rota originalmente planejada esbarrava na situação de conflito no Sudão, país situado no caminho terrestre para o Egito.
Prosseguir de bicicleta por aquela região significaria entrar em uma área marcada por confrontos armados, razão pela qual a etapa seguinte da viagem dependeria de uma alternativa capaz de evitar a travessia do território sudanês.
Foi justamente no Chade que a história tomou outro rumo, depois que a trajetória do estudante começou a circular publicamente e chamou a atenção de um benfeitor local, que conheceu o caso pela internet naquele momento.
Ajuda recebida no Chade mudou a rota até o Egito
A ajuda recebida permitiu que Barry deixasse a bicicleta temporariamente de lado e embarcasse em um voo direto para o Egito, evitando a passagem pelo Sudão e tornando possível completar a etapa que ainda faltava.
Até chegar a N’Djamena, no entanto, Barry havia passado aproximadamente quatro meses avançando pela África Ocidental e acumulado milhares de quilômetros desde a Guiné, cruzando diferentes fronteiras nacionais sobre uma bicicleta usada antes de receber apoio.
Quando desembarcou no Cairo, a principal incerteza ainda não estava resolvida, porque Barry havia viajado com a intenção de conseguir uma oportunidade na Universidade Al-Azhar, mas não havia iniciado a jornada com uma bolsa garantida.
A chegada ao Egito representava o acesso físico à instituição que buscava, sem significar uma confirmação automática de permanência, situação que mudou poucos dias depois, quando Barry conseguiu uma bolsa integral para estudar na Al-Azhar.
Bolsa integral na Universidade Al-Azhar veio após a travessia
Sediada no Cairo, a Universidade Al-Azhar é reconhecida como um dos centros históricos mais antigos e importantes de ensino islâmico sunita e recebe estudantes de diferentes países, especialmente interessados em estudos islâmicos e língua árabe.
Era justamente o prestígio da instituição que havia levado Barry a escolher o Cairo como destino, apesar da distância entre o Egito e sua cidade de origem na Guiné e da impossibilidade inicial de pagar uma passagem convencional.
Desde o início, a viagem estava vinculada a um objetivo específico de formação acadêmica, já que Barry pretendia estudar teologia islâmica e, após concluir a formação, retornar à Guiné para atuar profissionalmente na área religiosa.
Esse propósito permaneceu depois da concessão da bolsa, e o estudante afirmou, já instalado no Egito, que pretendia voltar ao país de origem quando terminasse os estudos para ensinar localmente tudo aquilo que havia aprendido.
Jornada reuniu milhares de quilômetros, seis países e três detenções
Entre a saída da Guiné e a chegada ao Cairo, a trajetória reuniu cerca de 4 mil quilômetros de bicicleta, aproximadamente quatro meses de estrada, seis países atravessados após a partida, três detenções e jornadas de até 100 quilômetros por dia.
O último trecho só se tornou possível quando um desconhecido tomou conhecimento da história no Chade e financiou sua ida de avião ao Egito, permitindo que a jornada chegasse ao destino universitário sem passar pelo Sudão.
A bolsa integral veio depois dessa sequência de deslocamentos e obstáculos, quando Barry finalmente conseguiu apresentar sua história e seu objetivo acadêmico no Cairo, transformando a busca por acesso à universidade em uma oportunidade concreta de formação.
De uma bicicleta usada e poucos objetos carregados pela África até uma vaga financiada em uma instituição secular de ensino, quantas pessoas estariam dispostas a atravessar milhares de quilômetros para tentar alcançar a universidade em que desejam estudar?
