Trajetória atravessa pobreza, trabalho precoce, guerra, ferrovia, responsabilidades familiares e uma retomada acadêmica em idade extraordinária, marcada pela adaptação às tecnologias, por desempenho universitário de destaque e pela decisão de continuar estudando quando a vida profissional já havia ficado para trás.
Giuseppe Paternò passou a maior parte da vida longe das salas de aula universitárias, mas manteve vivo o interesse pelos estudos enquanto trabalhava, criava a família e atravessava acontecimentos históricos que adiaram por décadas a possibilidade de ingressar no ensino superior.
Criado em uma família pobre na Sicília, ele começou a trabalhar ainda criança, serviu durante a Segunda Guerra Mundial, construiu carreira nas ferrovias e criou dois filhos antes de realizar, depois dos 90 anos, o projeto acadêmico que havia permanecido adiado durante grande parte da vida.
A trajetória ganhou repercussão internacional quando Paternò concluiu uma graduação em História e Filosofia na Universidade de Palermo aos 96 anos, depois de cumprir disciplinas, trabalhos e avaliações ao lado de estudantes que, em muitos casos, eram mais de sete décadas mais jovens.
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Além de terminar o curso em uma idade excepcional, o ferroviário aposentado obteve as maiores honras acadêmicas e ficou em primeiro lugar na turma, resultado que transformou uma retomada tardia dos estudos em um feito reconhecido além das fronteiras da Itália.
Dois anos depois, longe de encerrar a passagem pela universidade com a primeira formatura, Paternò voltou a ampliar a própria trajetória acadêmica ao receber também um diploma de mestrado em História e Filosofia, aos 98 anos, novamente com desempenho máximo.
Segundo a Reuters, fonte principal desta matéria, o italiano voltou a ser reconhecido naquele momento como o formando universitário mais velho do país, acrescentando um segundo diploma a uma história acadêmica iniciada apenas depois dos 90 anos.
Infância pobre e trabalho ainda menino na Sicília
Muito antes da Universidade de Palermo aparecer em sua rotina, Paternò viveu uma infância marcada por limitações financeiras em uma família numerosa, contexto que restringiu sua formação escolar mesmo enquanto o interesse por livros e aprendizado permanecia presente desde os primeiros anos.
Por causa das dificuldades econômicas da casa, ele começou ainda menino a ajudar o pai no trabalho em uma cervejaria de Palermo, experiência que colocou responsabilidades profissionais na rotina antes que pudesse dedicar longos períodos exclusivamente à própria educação.

Sendo o mais velho de sete irmãos, Paternò cresceu em um ambiente no qual estudar por muitos anos era difícil de conciliar com as necessidades imediatas da família, e a educação acabou permanecendo como uma aspiração que precisaria esperar por melhores condições.
A juventude trouxe novas responsabilidades antes que esse desejo pudesse avançar, fazendo com que o caminho até uma formação universitária se tornasse muito mais longo do que o percorrido pelos colegas com quem ele dividiria uma sala de aula décadas mais tarde.
Segunda Guerra Mundial e carreira como ferroviário
Quando chegou à casa dos 20 anos, outro acontecimento mudou o rumo de sua vida: Paternò ingressou no serviço militar e serviu durante a Segunda Guerra Mundial, período que interrompeu qualquer possibilidade de transformar naquele momento o interesse pelos estudos em uma trajetória acadêmica contínua.
Encerrado o conflito, enquanto a Itália atravessava um amplo processo de reconstrução econômica e social, ele direcionou a rotina para trabalho e família, seguindo um percurso profissional que acabaria ocupando várias décadas antes da tão adiada entrada em uma universidade.
Foi nas ferrovias que Paternò construiu sua principal carreira, ao mesmo tempo em que se casou e criou dois filhos, mantendo o desejo de ampliar a própria formação apesar das responsabilidades que tornavam inviável frequentar regularmente uma instituição de ensino superior.
Mesmo sem chegar à universidade naquela fase, ele não rompeu completamente com os estudos e conseguiu concluir o ensino médio aos 31 anos, resultado obtido enquanto conciliava a formação com uma vida adulta já ocupada por trabalho e compromissos familiares.
Essa conquista, entretanto, não abriu imediatamente as portas do ensino superior, porque casamento, filhos e emprego continuaram exigindo prioridade durante os anos seguintes, deixando a graduação como um objetivo distante enquanto sua carreira ferroviária avançava.
Durante décadas, a universidade permaneceu fora da rotina diária de Paternò, embora o interesse em estudar nunca desaparecesse por completo e reaparecesse mais tarde, quando a aposentadoria finalmente reduziu algumas das obrigações que haviam acompanhado grande parte de sua vida adulta.
Máquina de escrever acompanhou a retomada dos estudos
Depois de se aposentar das ferrovias, Paternò recebeu da mãe uma máquina de escrever manual que acabaria se tornando parte importante da futura rotina acadêmica, mesmo em uma época na qual computadores, internet e ferramentas digitais já dominavam as universidades.
Em vez de abandonar completamente hábitos construídos ao longo de décadas, ele utilizava a máquina para preparar trabalhos da faculdade e mantinha uma rotina baseada principalmente em livros impressos, combinando métodos tradicionais de estudo com as novas exigências do ambiente universitário.
A possibilidade concreta de transformar o antigo interesse em uma graduação surgiu apenas quando Paternò já havia ultrapassado os 90 anos e decidiu se matricular no curso de História e Filosofia da Universidade de Palermo, na própria Sicília.
Sua entrada ocorreu em 2017, quando a diferença de idade em relação a muitos colegas ultrapassava sete décadas, mas a distância geracional não alterou as exigências acadêmicas que ele precisaria cumprir durante disciplinas, avaliações e trabalhos previstos pelo curso.
Longe de representar apenas uma presença simbólica na universidade, a matrícula exigiu participação regular na formação, com leituras, provas, atividades acadêmicas e produção de textos realizados ao longo do curso até que todos os requisitos necessários para a graduação fossem concluídos.
Dentro de casa, livros e anotações ocupavam a rotina de estudos, enquanto a máquina de escrever continuava sendo usada na preparação dos trabalhos, preservando um método familiar mesmo diante de uma universidade cada vez mais dependente de recursos digitais.
Pandemia levou estudante de mais de 90 anos às aulas remotas
Já na reta final da graduação, surgiu um obstáculo inesperado quando a pandemia interrompeu atividades presenciais e obrigou universidades a transferirem aulas e avaliações para plataformas digitais, alterando de maneira brusca a rotina acadêmica que Paternò havia construído desde a matrícula.
Para alguém cuja relação com os estudos havia se formado muitas décadas antes da popularização da internet, a mudança significou adaptar-se às videochamadas, às atividades remotas e aos exames realizados diante de um computador, sem abandonar o curso.
Mesmo diante dessa transformação, a graduação prosseguiu, e Paternò participou das atividades em casa até realizar pela internet o exame oral necessário na etapa final, incorporando recursos tecnológicos que estavam muito distantes daqueles utilizados durante sua juventude escolar.
A Reuters registrou o estudante diante do computador em uma dessas avaliações e relatou que ele reconhecia certo desconforto com as chamadas de vídeo, embora a adaptação necessária não tenha impedido a continuidade dos estudos nem a conclusão das últimas exigências acadêmicas.
Diploma aos 96 anos e primeiro lugar na turma
Quando chegou a formatura, Paternò recebeu o diploma aos 96 anos e a tradicional coroa de louros usada por formandos italianos, enquanto professores, familiares e colegas acompanharam uma cerimônia que encerrava a primeira etapa de sua passagem tardia pela universidade.
O desempenho acadêmico tornou aquele momento ainda mais incomum, pois ele não apenas completou todas as disciplinas previstas como terminou o curso com nota máxima e na primeira colocação da turma, superando colegas que eram várias décadas mais jovens.
Em muitas salas de aula, a diferença entre Paternò e os demais estudantes chegava a aproximadamente 70 anos, contraste que não o impediu de compartilhar avaliações, leituras, atividades e exigências acadêmicas com pessoas pertencentes a gerações muito posteriores à sua.
Ainda assim, a formatura aos 96 anos não se transformou no encerramento de sua experiência universitária, porque o ferroviário aposentado decidiu permanecer ligado à História e à Filosofia e avançar para uma nova etapa de formação acadêmica.
Mestrado aos 98 anos ampliou a trajetória universitária
Em vez de considerar o primeiro diploma suficiente para encerrar um projeto iniciado tão tarde, Paternò continuou estudando na Universidade de Palermo e aprofundou a formação na mesma área, mantendo uma rotina acadêmica que já havia se tornado parte de sua vida.
Dois anos após concluir a graduação, ele recebeu o segundo diploma universitário aos 98 anos, desta vez correspondente ao mestrado em História e Filosofia, prolongando uma trajetória educacional iniciada quando a maioria das pessoas de sua geração já estava aposentada havia décadas.
De acordo com a Reuters, Paternò concluiu também o mestrado com nota máxima e voltou a ser reconhecido como o graduado mais velho da Itália, acrescentando outra conquista acadêmica a uma vida marcada por períodos muito longos distante do ensino superior.
Mesmo depois dessa segunda formação, seus projetos continuavam ligados à leitura e à escrita, e Paternò manifestou o desejo de produzir um romance usando a máquina de escrever que também havia acompanhado parte de sua rotina durante os anos na universidade.
Entre a infância pobre na Sicília e o segundo diploma transcorreram quase dez décadas, período em que ele trabalhou ainda menino, atravessou uma guerra, tornou-se ferroviário, formou uma família, concluiu o ensino médio já adulto e somente muito depois chegou ao ensino superior.
Ao transformar uma oportunidade adiada por décadas em duas formações universitárias conquistadas depois dos 90 anos, Giuseppe Paternò reuniu na mesma trajetória trabalho precoce, guerra, aposentadoria, adaptação tecnológica e desempenho acadêmico máximo em uma fase da vida raramente associada ao início de novos cursos.
Se alguém que passou a maior parte da vida esperando pela oportunidade de estudar conseguiu chegar à universidade depois dos 90 e sair dela com dois diplomas, qual sonho você ainda considera tarde demais para retomar?

