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Sem computador, jovem cearense trabalhava das 18h30 às 4h30 em uma hamburgueria, dormia apenas quatro horas, estudava à tarde e mesmo com uma rotina intensa, conseguiu aprovação em duas universidades

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Escrito por Ruth Rodrigues Publicado em 15/08/2026 às 08:24 Atualizado em 15/08/2026 às 08:25
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Marcos Antônio trabalhou até 4h30 durante o ensino médio, fez o Enem em 2023 e conquistou duas aprovações no ensino superior. (Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)
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Marcos Antônio trabalhou até 4h30 durante o ensino médio, fez o Enem em 2023 e conquistou duas aprovações no ensino superior.

Durante parte do ensino médio, Marcos Antônio do Nascimento Gomes saía da escola e seguia diretamente para uma hamburgueria em Fortaleza, onde trabalhava das 18h30 às 4h30. Em alguns períodos, dormia cerca de quatro horas antes de retomar uma rotina que incluía monitoria de Matemática, aulas regulares e preparação para o Enem. Mesmo sob essa carga, concluiu a educação básica em 2023 e terminou aquele ano aprovado em duas instituições de ensino superior.

A trajetória foi relatada pelo Diário do Nordeste em 9 de julho de 2025, quando Marcos tinha 22 anos e já cursava Tecnologia da Informação em uma universidade privada por meio de bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni). Naquele momento, a rotina estava menos extrema, mas ainda havia limitações: sem dinheiro para comprar um notebook, ele acompanhava a graduação principalmente pelo celular.

Duas aprovações deram a Marcos Antônio caminhos diferentes

Quando prestou o Enem, Marcos Antônio tinha interesse principalmente por duas áreas: Matemática e Tecnologia da Informação.

A nota não foi suficiente para ingressar na Universidade Federal do Ceará (UFC) ou na Universidade Estadual do Ceará (Uece), mas abriu outras possibilidades. Ele conseguiu aprovação em Matemática no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), em Caucaia, e também em Tecnologia da Informação em uma instituição privada.

Marcos escolheu TI e começou a graduação no início de 2024. A bolsa de 100% obtida pelo Prouni passou a cobrir os custos do curso, realizado na modalidade de Educação a Distância, com uma sede presencial em Fortaleza.

Segundo contou ao Diário do Nordeste, cada semestre reunia dez disciplinas distribuídas em módulos, o que exigia que ele buscasse também vídeos, cursos e materiais complementares.

Faculdade era acompanhada pelo celular em 2025

Conseguir a bolsa resolveu uma parte importante do problema financeiro, mas não eliminou todas as barreiras. Em julho de 2025, Marcos Antônio ainda não possuía computador próprio. Sem recursos suficientes para comprar um notebook, utilizava o celular para acompanhar as aulas e realizar parte das atividades da graduação.

Naquele período, ele seguia trabalhando por um salário mínimo em um estabelecimento de venda de comida, embora com uma jornada menos desgastante do que aquela enfrentada no ensino médio. Sua organização diária havia mudado. Pela manhã, estudava aproximadamente das 8h às 11h30. Depois de cuidar das atividades de casa, começava o expediente às 14h20 e permanecia no trabalho até as 22h.

Entre os principais marcos da trajetória estavam:

  • aprovação em duas instituições no fim de 2023;
  • bolsa de 100% pelo Prouni para cursar Tecnologia da Informação;
  • trabalho noturno que chegou a terminar às 4h30 da manhã;
  • monitoria de Matemática durante o ensino médio;
  • aulas e atividades escolares também aos sábados;
  • graduação acompanhada pelo celular por falta de notebook em 2025.
Marcos Antônio trabalhou até 4h30 durante o ensino médio, fez o Enem em 2023 e conquistou duas aprovações no ensino superior.
Marcos Antônio trabalhou até 4h30 durante o ensino médio, fez o Enem em 2023 e conquistou duas aprovações no ensino superior. (Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)

Jornada na hamburgueria começava logo depois da escola

A etapa mais pesada ocorreu quando Marcos estava no segundo ano do ensino médio. As aulas na Escola Dr. César Cals iam das 13h às 18h30. Assim que saía da unidade, seguia para uma pequena hamburgueria no bairro Benfica, onde precisava assumir praticamente toda a operação do estabelecimento.

Ele atendia clientes, cuidava dos pedidos de delivery e também ficava responsável pelo caixa. O expediente só terminava às 4h30. Ao Diário do Nordeste, Marcos descreveu aquela fase como exaustiva e contou que quase não dormia. Em determinados dias, a passagem da sala de aula para o trabalho era tão imediata que ele chegava à hamburgueria ainda usando o uniforme escolar.

O professor de Português e coordenador do pré-vestibular da Escola César Cals, Gerlylson Rubens, conhecido como Geh Rubens, relatou ter encontrado o estudante trabalhando de madrugada ainda com a farda da escola.

Monitoria ocupava também as manhãs de Marcos Antônio

A rotina ficou ainda mais intensa quando Marcos Antônio passou a atuar como monitor de Matemática. Ele precisava chegar à escola por volta das 8h para a monitoria, almoçava e permanecia na unidade para as aulas regulares da tarde. Às 18h30, começava o deslocamento para mais uma noite de trabalho. A segunda-feira, quando a hamburgueria não funcionava para ele, era seu principal dia de descanso.

Mesmo assim, Marcos não abandonava os aulões realizados aos sábados. A escola funcionava com atividades de segunda a sábado, e a preparação adicional acabou desempenhando papel importante quando ele começou a considerar seriamente o ensino superior.

Escola pública ajudou a transformar vontade em caminho possível

Marcos passou toda a educação básica na rede pública de Fortaleza. No ensino fundamental, estudou na Escola Municipal Frei Lauro Schwarte, no bairro Farias Brito. Depois, ingressou na Escola Dr. César Cals, também localizada no bairro.

Foi justamente na segunda unidade que recebeu orientação sobre caminhos como Enem, Sisu, Prouni e oportunidades acadêmicas.

Segundo Geh Rubens declarou ao Diário do Nordeste, a trajetória de Marcos chamava atenção não por ele ser o aluno com a maior nota ou apresentar desempenho considerado excepcional, mas porque representava um estudante comum da escola pública que conseguiu avançar por meio de persistência e orientação.

Em 2023, a Escola César Cals teve mais de 100 estudantes aprovados para o ensino superior por caminhos que incluíram Sisu e Prouni.

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Separação dos pais mudou a estrutura familiar aos 14 anos

As dificuldades financeiras ganharam força depois de uma mudança importante na família. Marcos contou que tinha 14 anos quando seus pais se separaram. Até então, vivia com os dois e seis irmãos no Parque Araxá, em Fortaleza.

Depois, sua mãe enfrentou problemas de saúde mental e decidiu retornar ao interior para realizar tratamento junto aos próprios pais, em Monsenhor Tabosa. Os irmãos passaram a morar em diferentes residências, e Marcos permaneceu em Fortaleza. A necessidade de trabalhar começou a ganhar maior peso nessa fase.

No primeiro ano do ensino médio, ele já ajudava em uma lanchonete pertencente à tia, nas proximidades da Avenida Bezerra de Menezes. Mais tarde, migrou para a hamburgueria e passou a enfrentar a jornada noturna que marcou sua passagem pela escola.

Interesse por Matemática abriu caminho para a tecnologia

A vontade de continuar estudando, porém, vinha de antes das dificuldades do ensino médio. Marcos contou ao Diário do Nordeste que começou a se interessar mais pelos estudos por volta do quinto ano, especialmente por Matemática. Durante algum tempo, imaginou seguir uma formação nessa área.

Posteriormente, a tecnologia passou a dividir espaço com os números. Foi essa combinação que o levou a prestar o Enem pensando em Matemática e TI.

Na graduação, relatava interesse especial por temas ligados à análise de redes e às relações com redes sociais. Apesar das dificuldades materiais, seu plano naquela época já ultrapassava a simples conclusão do curso.

Marcos Antônio sonhava em abrir a própria empresa

No retrato publicado em julho de 2025, Marcos Antônio dizia que pretendia terminar a graduação, se aprofundar em Tecnologia da Informação e, no futuro, abrir seu próprio negócio. A situação ainda estava longe da estabilidade financeira.

Ele continuava trabalhando por um salário mínimo e tentando juntar recursos para comprar um computador, equipamento fundamental para alguém matriculado justamente em um curso de TI. Ainda assim, a realidade era bastante diferente daquela enfrentada poucos anos antes, quando alternava monitoria pela manhã, aulas à tarde e trabalho até a madrugada.

A conquista de Marcos não eliminou os obstáculos acumulados no caminho, mas alterou as possibilidades disponíveis. Em 2023, o estudante que muitas vezes chegava ao trabalho ainda uniformizado conseguiu terminar o ensino médio, fazer o Enem e receber duas aprovações.

Dois anos depois, segundo o Diário do Nordeste, seguia trabalhando e estudando pelo celular, agora com uma bolsa integral e um objetivo definido: transformar a formação em Tecnologia da Informação em uma nova etapa profissional.

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Ruth Rodrigues

Formada em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), atua como redatora e divulgadora científica.

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