Voluntários de 30 países ergueram no Uruguai a primeira escola pública autossuficiente da América Latina, construída com pneus, garrafas e terra, transformando lixo em arquitetura sustentável.
Em janeiro de 2016, chegaram a Jaureguiberry, uma pequena comunidade costeira no Uruguai, pessoas vindas de 30 países diferentes. Não eram engenheiros contratados por uma construtora. Eram voluntários — estudantes, arquitetos, curiosos e moradores locais que vieram aprender um método de construção que usa como matéria-prima aquilo que o resto do mundo descarta: pneus velhos, garrafas de vidro, latas de alumínio e a própria terra do terreno. Sete semanas depois, estava de pé a primeira escola pública autossuficiente da América Latina.
O lixo que virou paredes
A técnica utilizada na construção chama-se Earthship Biotecture e foi desenvolvida pelo arquiteto americano Michael Reynolds desde os anos 1970, no deserto do Novo México. A ideia central é tão simples que parece improviso: pegar pneus descartados, enchê-los com terra úmida a golpes de marreta até ficarem completamente compactados e empilhá-los em camadas para formar as paredes estruturais do edifício.
Cada pneu preenchido pesa cerca de 130 quilogramas e funciona como um tijolo de alta massa térmica. Empilhados e preenchidos, formam paredes que absorvem calor durante o dia e o liberam lentamente à noite, regulando a temperatura interna sem necessidade de ar-condicionado, aquecedor ou qualquer sistema de climatização.
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O resultado, testado em centenas de construções ao redor do mundo ao longo de cinco décadas, é uma temperatura interna que se mantém estável em torno de 22°C independentemente do clima externo.
As paredes internas completam o sistema. Garrafas de vidro são encaixadas em argamassa formando painéis translúcidos que deixam entrar a luz natural enquanto criam efeito decorativo. Latas de alumínio são inseridas do mesmo modo.

Papelão é usado como isolante em camadas da cobertura. No total, 60% dos materiais utilizados na escola de Jaureguiberry eram reciclados: 2.000 pneus, 5.000 garrafas de vidro, 8.000 latas de alumínio e 2.000 metros quadrados de papelão.
270 metros quadrados erguidos em sete semanas
A escola ocupa 270 metros quadrados e abriga três salas de aula e duas alas de serviço, distribuídas ao longo de um corredor envidraçado voltado para o norte, a orientação que, no hemisfério sul, maximiza a captação de luz solar durante o inverno. Essa escolha não é estética.
É a mesma lógica que um engenheiro aplica ao projetar a posição de janelas em um edifício convencional, adaptada para funcionar sem sistemas mecânicos de climatização.
No verão, tubos convectivos instalados na estrutura captam ar fresco do exterior pelas aberturas inferiores e expulsam o ar quente pelas superiores — circulação cruzada por diferença de temperatura, sem ventilador, sem motor.
No inverno, esses mesmos tubos podem ser fechados, e o corredor envidraçado funciona como uma estufa que aquece o ar antes de circulá-lo pelas salas de aula.
A construção foi realizada por 150 a 200 voluntários de 30 nacionalidades, coordenados pela ONG uruguaia TAGMA — cujo nome vem do grego e significa “algo que se junta de maneira ordenada para formar uma unidade” — em parceria com a equipe de Reynolds.
O projeto recebeu autorização formal do Conselho de Educação Inicial e Primária do Uruguai (CEIP) e foi levantado entre janeiro e março de 2016.
Sem conta de luz, sem conta de água, sem nada de fora
A escola de Jaureguiberry não está conectada à rede elétrica. A eletricidade vem de painéis fotovoltaicos e moinhos de vento instalados na própria edificação, armazenada em baterias. Não há conta de energia a pagar.
A água também não vem de rede pública. A chuva é coletada pelo telhado, conduzida por calhas até uma cisterna com capacidade para 33.000 litros e filtrada antes de uso.
Essa água abastece as pias, alimenta a horta e, depois de tratada, é reaproveitada nas cisternas dos banheiros. A água descartada pelos banheiros passa por tratamento natural em poços construídos com pneus de caminhão e por uma zona úmida no exterior do edifício, sem gerar efluente convencional.
O corredor norte abriga uma horta interna que produz alimentos usando a água cinza tratada como irrigação. A escola cultiva seus próprios vegetais dentro das salas — não como projeto pedagógico opcional, mas como parte do sistema que faz o edifício funcionar.
Cinquenta anos de lixo virando casa
A história por trás desse método começa nos anos 1970, quando Michael Reynolds, recém-formado na Universidade de Cincinnati, se deparou com dois problemas ao mesmo tempo: o volume crescente de pneus e embalagens que os Estados Unidos não sabia como descartar, e a necessidade de criar habitação de baixo custo para populações sem acesso ao mercado convencional.

Reynolds passou décadas testando materiais no deserto de Taos, no Novo México, construindo uma comunidade experimental que hoje serve de laboratório permanente.
Em cinquenta anos, construiu cerca de 2.000 edificações em diferentes países, incluindo abrigos emergenciais no Haiti após o terremoto de 2010 e uma escola na Ilha de Páscoa com garrafas e latas coletadas pelos próprios moradores locais.
A escola do Uruguai representou um passo específico: a primeira vez que o método foi aplicado em uma escola pública aprovada por um sistema nacional de educação na América Latina. A autorização do governo uruguaio não foi simbólica. Implicou verificação técnica da estrutura, validação dos sistemas de água e energia e aprovação para uso contínuo por crianças da comunidade. Atualmente a escola atende 45 alunos da região de Jaureguiberry, uma comunidade de cerca de 500 habitantes.
O que a técnica exige e o que ela não resolve
O método Earthship não é universal. A compactação dos pneus com marreta é fisicamente exigente e lenta — cada pneu pode levar 20 a 30 minutos para ser preenchido corretamente.
O número de voluntários disponíveis foi determinante para que a escola fosse concluída em sete semanas. Em projetos menores, o tempo de construção é muito maior por pessoa.

A técnica funciona especialmente bem em climas com grandes variações térmicas entre dia e noite, onde a massa térmica das paredes tem mais trabalho a fazer. Em climas tropicais úmidos, como boa parte do Brasil, o comportamento térmico é diferente e exige adaptações no projeto.
Reynolds reconhece a necessidade de ajuste regional e recomenda que cada projeto seja adaptado às condições climáticas locais, incluindo orientação solar, regime de chuvas e temperatura média do solo.
Pneus usados também levantam questões quanto à composição química. Pesquisas indicam que pneus compactados com terra e revestidos com argamassa não liberam substâncias tóxicas em condições normais, mas o debate técnico ainda existe e varia conforme o tipo de pneu e o revestimento utilizado.
A conta que não existe mais
O custo total da escola de Jaureguiberry foi de 300.000 dólares — um valor que inclui o deslocamento e hospedagem da equipe de Reynolds, materiais tradicionais que compõem os 40% não reciclados da obra, e toda a infraestrutura de energia e captação de água.
Dividido pelos 270 metros quadrados, representa um custo por metro quadrado compatível com construção convencional de padrão similar.
A diferença está no que acontece depois da entrega. Uma escola convencional de mesmo porte pagaria mensalmente contas de eletricidade, água tratada e manutenção de sistemas de climatização. A escola de Jaureguiberry não paga nenhuma dessas contas.
O custo operacional mensal é próximo de zero — e esse cálculo muda completamente a equação econômica de longo prazo para comunidades que não têm infraestrutura urbana confiável.

O material que virou parede ainda seria lixo se não fosse o projeto. Os 2.000 pneus usados na construção — que representam apenas uma fração dos bilhões que o mundo descarta todo ano sem destino — estão agora dentro de uma edificação onde crianças de uma comunidade de 500 habitantes aprendem. E a escola ainda não pagou uma única conta de luz desde que abriu as portas.


A ideia é de um arquiteto e vocês fazem uma machete dessa. Vcs foram totalmente desrespeitosos com a classe, que já sofre por não ter trabalho suficiente já que o povo insiste em fazer o ra sozinho e nem sabe pra quê serve um arquiteto. Desserviço. Nunca mais acesso um link sequer de vocês.
Falta de respeito para com os arquitetos. Como se o custo de projeto arquitetônico e acompanhamento de obra, que gira em 3%, no máximo, fosse tal que coibisse a execução de alguma obra. E por tratar-se claramente de obra feita em mutirão, entidades e profissionais teriam participado de bom grado, gratuitamente. Não reconhecem aí na Petróleo e Gás a importância de técnicos habilitados? Não valorizam a contribuição de engenheiros e arquitetos na melhor resolução de problemas? Pensaram que; se houvesse arquitetos cooperando no mutirão, poderiam criar soluções mais inteligentes, econômicas e racionais? **** e constrangedor o texto já na primeira frase. Terá tudo um profissional habilitado por detrás dele? Parece que não. E o inacreditável nisto tudo; tudo decorreu do trabalho de um arquiteto, desde o desenvolvimento da tecnologia, até conclusão da obra. Inacreditável.