Catas Altas registrou PIB per capita de R$ 920.833,97 em 2021, o maior do Brasil naquele ano, segundo o IBGE. O número vem da extração de minério de ferro, que responde por cerca de 90% da economia local. Na série de 2023, o município já não lidera.
O ranking do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística referente a 2021 colocou uma cidade de pouco mais de 5 mil habitantes acima de qualquer outra do país. Catas Altas, na Região Central de Minas Gerais, registrou PIB per capita de R$ 920.833,97 naquele ano, à frente de Canaã dos Carajás, no Pará, e de São Gonçalo do Rio Abaixo, também mineira.
A origem desse número não está na superfície. Cerca de 90% da economia municipal depende da extração de minério de ferro, atividade que gera um Produto Interno Bruto altíssimo distribuído por uma população pequena. É essa divisão que produz o resultado, e é exatamente o que preocupa parte dos moradores.
PIB per capita não é dinheiro na conta de ninguém

Vale desfazer a confusão que o número provoca. PIB per capita é o Produto Interno Bruto, ou seja, a soma de tudo que se produz no município, dividido pelo número de habitantes.
-
Após quase 140 anos no fundo do Atlântico, torre de canhões do USS Monitor foi resgatada a 73 metros e agora vive em tanque de 340 mil litros, recebe correntes elétricas e ainda levará muitos anos até poder secar sem se desfazer
-
Aos 16 anos, ele achou por acaso um livro proibido escondido numa estante e, contrariando o aviso, levou a obra à escola para a menina que amava, sem imaginar que aquele gesto daria início a um romance secreto que atravessaria anos e fronteiras
-
Soldado americano entrou em mina alemã para proteger tesouros medievais no fim da guerra, levou manuscritos com joias ao Texas e décadas depois seus herdeiros receberam US$ 2,75 milhões para devolver as peças
-
Uma moeda canadense de 100 quilos de ouro puro estava exposta em um museu de Berlim até ladrões entrarem de madrugada, levarem a peça em um carrinho e deixarem para trás um mistério que dura desde 2017
Não é renda per capita, e ninguém em Catas Altas recebe R$ 920 mil por ano. O que o indicador mostra é a proporção entre a riqueza gerada no território e a quantidade de gente que vive ali. Como explicou o analista do IBGE Luiz Antonio de Sá, quando um município tem uma indústria muito grande e não é tão dinâmico em população, ele acaba figurando no topo da lista. É a matemática de um denominador pequeno, e não sinal de que a população é rica.
Município saltou do 25º lugar para o primeiro em um ano
A escalada foi abrupta. No levantamento anterior, referente a 2020, Catas Altas ocupava a 25ª posição, e quem liderava era Canaã dos Carajás.
Em 2021 as posições se inverteram. Canaã dos Carajás caiu para segundo, com R$ 894.806,28, e São Gonçalo do Rio Abaixo ficou em terceiro, com R$ 684.168,71. O ranking daquele ano tinha ainda Itatiaiuçu em quarto, com R$ 610.779,65, e Presidente Kennedy, no Espírito Santo, em quinto, com R$ 580.174,17. Das cinco primeiras, três eram mineiras, e todas tinham a indústria extrativa como atividade principal.
Dado é de 2021 e a cidade já não lidera o ranking atual

Aqui está o ponto que exige atenção de quem for citar o número hoje. O levantamento que consagrou Catas Altas foi divulgado em dezembro de 2023 e se refere ao ano de 2021.
Na série mais recente do IBGE, referente a 2023, a liderança mudou. Saquarema, no Rio de Janeiro, passou a registrar o maior PIB per capita do país, com R$ 722.441,52, impulsionada pela atividade ligada ao petróleo, e três dos dez primeiros colocados passaram a ser fluminenses. Catas Altas foi a cidade mais rica do Brasil em um ano específico, e a comparação com países deve vir acompanhada dessa data.
Extração de minério responde por 90% da economia local
A dependência de uma única atividade é quase total. Cerca de 90% da economia municipal vem da extração de minério de ferro, com concessões e complexos de beneficiamento ativos na região serrana.
A operação em escala industrial começou na virada dos anos 1960 para os 1970, quando a mineração chegou com a construção da estrada de ferro e a abertura das minas. Antes disso, a extração já existia ali, mas de forma artesanal. Em números absolutos, o PIB municipal de 2021 se aproximou de R$ 5 bilhões, quantia gerada em um território de aproximadamente 240 quilômetros quadrados.
Moradores temem o fim do minério e discutem o que vem depois
A preocupação com o esgotamento não é hipótese distante, é assunto corrente na cidade. Um morador ouvido no registro publicado pelo canal Boa Sorte Viajante coloca a questão de forma direta: acabando o minério, vai ter que ser turismo.
Existe até uma estimativa que circulava localmente. Antes do rompimento da barragem da Samarco, calculava-se que as reservas durariam cerca de 25 anos, considerando extração de 30 milhões de toneladas por ano. Com a queda da atividade após o desastre, o prazo se esticou. O tempo restante depende inteiramente da velocidade de extração, e é essa indefinição que alimenta o debate sobre novas vocações econômicas, entre elas o turismo sustentável, a cultura local e o agronegócio familiar.
Cidade nasceu em 1703, atraída pelo ouro

A história do lugar começa dois séculos e meio antes do minério de ferro. O povoamento teve início em 1703, com a chegada do bandeirante Manuel Dias, e a notícia se espalhou até São Paulo, atraindo as primeiras famílias paulistas.
O que trouxe todo mundo foi o ouro. A igreja matriz é de 1730 e substituiu uma capela menor que já não comportava a população, sinal do crescimento acelerado do arraial. O templo guarda obras de Mestre Ataíde, de Aleijadinho e de Francisco Vieira Servas. Ele nunca foi concluído na parte artística: com a decadência do ouro, as irmandades religiosas deixaram de conseguir contribuir, e a igreja projetada para ser a mais bonita do Brasil ficou pela metade.
Vinho de jabuticaba nasceu de outra crise econômica
Catas Altas já enfrentou antes o esgotamento de um minério, e a resposta daquela vez veio da fruta. Com a queda do ouro, parte da população deixou a cidade e quem ficou passou por dificuldade.
A virada foi puxada por um padre português. O monsenhor Manuel Mendes chegou em 1868 e, diante da decadência, começou a ensinar os moradores a plantar, com destaque para a uva e a fabricação de vinho, levando o nome do lugar a exposições na França e nos Estados Unidos. A cultura se transmitiu entre gerações e hoje se concentra na jabuticaba: são cerca de 10 mil garrafas por ano, produzidas por mais de 60 famílias. É o precedente histórico exato do que a cidade discute agora.
Serra do Caraça tem mais de 80 espécies ameaçadas de extinção
O ativo natural do município é a serra que emoldura a praça central. A Serra do Caraça funciona como corredor ecológico e área de transição entre Cerrado e Mata Atlântica, com o que pesquisadores chamam de mosaico vegetacional.
A particularidade é a hibridação. Segundo especialista ouvido no local, existem ali espécies típicas de Mata Atlântica ocupando áreas de Cerrado e o inverso, e o ponto é tão extremo dos dois biomas que faltam espécies características de ambos. São mais de 80 espécies botânicas ameaçadas de extinção, algumas que não existem em nenhum outro lugar do mundo, concentradas nos topos das montanhas. Ali estão os pontos mais altos da Cadeia do Espinhaço: o Pico do Sol, com 2.072 metros, e o Pico do Inficionado, com 2.068.
Santuário do Caraça guarda livro de 1489 e camas de imperador
A 45 minutos do centro fica o Santuário do Caraça, erguido a partir da compra de uma sesmaria pelo irmão Lourenço de Nossa Senhora, que veio de Diamantina, onde trabalhava com João Fernandes, marido de Chica da Silva. A primeira missa aconteceu em agosto de 1774.
O colégio que funcionou ali formou líderes religiosos, intelectuais, juristas e governantes. A biblioteca preserva parte do acervo salvo de um incêndio em 1968, incluindo um livro de história natural de Plínio, o Velho, de 1489, e a primeira edição de Os Sertões, de Euclides da Cunha, de 1902. Há também um exemplar com anotações manuscritas do imperador, feitas quando ele discordava do autor. O museu exibe as camas onde dormiram Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina durante visita de três dias, ocasião em que ele foi saudado por sete professores em sete idiomas diferentes e respondeu a todas as saudações.
Aqueduto de 1700 custou quinze quilos de ouro
Outro vestígio da era do ouro é o Bicame de Pedra, aqueduto construído por escravizados por volta de 1700. A função era captar a água da Serra do Caraça e conduzi-la até a parte baixa, na localidade de Brumado, onde o ouro era extraído e lavado.
Quatro fazendeiros se juntaram para financiar a obra, que custou cerca de uma arroba de ouro, aproximadamente 15 quilos. Em valores atuais, isso equivale a algo em torno de R$ 11 milhões. A técnica de construção seguiu o modelo dos aquedutos romanos, com quartzito da própria região, transportado em carro de boi e arrastado sobre couro de animal puxado por cavalos.
População pequena convive com fluxo grande de visitantes
O município tem 5.706 habitantes segundo estimativa do IBGE para 2025, distribuídos em cerca de 240 quilômetros quadrados. É gente suficiente para caber em um único bairro de capital.
O turismo já se manifesta como alternativa concreta. Há fluxo de visitantes vindos de Belo Horizonte, a 119 quilômetros, e de municípios vizinhos, tanto para bate-volta quanto para estadias de cerca de três dias. Enquanto o minério sustenta o PIB que colocou a cidade no topo do ranking nacional, é o centro histórico, a serra, as cachoeiras e o vinho de jabuticaba que os moradores apontam como o plano para o dia em que o subsolo se esgotar.
Conta nos comentários: você acha que uma cidade que depende 90% de mineração consegue mesmo se reinventar pelo turismo, ou o buraco na economia é grande demais para isso? E quem mora em município minerador, já sente na prática essa discussão sobre o que virá depois?

