Cleusa Maria da Silva começou como boia-fria ainda adolescente, trabalhou como empregada doméstica, aprendeu confeitaria por necessidade e abriu em 1997 uma loja de apenas 20 m² em Salto. Anos depois, a Sodiê superou 375 unidades no Brasil, chegou aos Estados Unidos e consolidou expansão pelo sistema de franquias nacionais.
A trajetória de boia-fria de Cleusa Maria da Silva começou antes mesmo de ela imaginar que um dia comandaria uma rede nacional de docerias. Filha de uma família pobre e terceira entre dez irmãos, ela trabalhou na roça ainda adolescente, cortando cana e carpindo soja, saiu do interior, tornou-se empregada doméstica em São Paulo e só entrou na confeitaria quando uma necessidade profissional a colocou diante de uma oportunidade que ela inicialmente não tinha condições financeiras de aceitar.
A história foi detalhada pelo R7 em reportagem publicada em 30 de março de 2026, que relembrou a construção da Sodiê Doces desde a primeira unidade, inaugurada oficialmente em 1997, em Salto, no interior de São Paulo. Segundo a publicação, a empresa cresceu de um espaço de apenas 20 metros quadrados para uma operação com mais de 375 lojas no Brasil e duas unidades nos Estados Unidos, depois de iniciar a expansão por franquias em 2007.
Trabalho como boia-fria começou depois da morte do pai
Cleusa tinha quase 13 anos quando o pai morreu. A mãe ficou responsável por dez filhos pequenos, e o trabalho passou a fazer parte da rotina da família. Eles viviam em dois cômodos nos fundos da casa dos avós, enquanto as crianças acompanhavam a mãe para trabalhar como boias-frias, numa realidade marcada por serviço braçal e poucos recursos.
-
Hospedando cada vez mais gente e elevando a diária em 10,5%, o setor hoteleiro do Brasil cresceu em 2025, num ano em que a taxa de ocupação subiu 2,1% e a receita por quarto disponível avançou quase 13% no país
-
Dois irmãos alemães desembarcaram em Blumenau com uma única máquina de tricô trazida da Europa, começaram tecendo peça por peça dentro de casa em 1880 e fizeram nascer a Hering, que se tornaria a maior empresa têxtil de vestuário da América Latina e viu a enchente engolir o tear no primeiro ano de produção
-
Aos 77 anos, Antônio Fagundes mantém no interior de São Paulo a Fazenda Fama I, dedicada ao cultivo de soja e milho, e vive fora das câmeras a mesma ligação com a terra que o consagrou na TV como o fazendeiro Bruno Mezenga de O Rei do Gado
-
Aos 43 anos, ex-faxineiro que chegou a dormir em igrejas e numa casa em construção precisou trancar Direito por falta de dinheiro, conseguiu emprego limpando um fórum em Minas Gerais e teve o restante da faculdade custeado por juízes até se formar e virar advogado
Foi nesse período que Cleusa cortou cana, capinou plantações de soja e trabalhou exposta ao sol e à chuva. A experiência como boia-fria tornou-se uma das referências mais fortes de sua trajetória, sobretudo porque ela passou a associar aquele ciclo de trabalho pesado à possibilidade de que o mesmo caminho também se repetisse com as próximas gerações da família.
Cleusa saiu sozinha para São Paulo e virou empregada doméstica
A primeira grande ruptura ocorreu quando um tio, vindo de São Paulo, apareceu na família. Depois de ouvir uma conversa sobre a dificuldade de criar tantos filhos, Cleusa pegou o endereço dele e decidiu ir sozinha para a capital paulista. Segundo seu próprio relato, ela se perdeu durante a viagem, mas conseguiu chegar ao destino.
Dois dias depois, já estava trabalhando como empregada doméstica no bairro de Pinheiros. A mudança significou deixar a roça, mas não o trabalho pesado, e também colocou Cleusa pela primeira vez em contato com uma realidade material muito diferente daquela que conhecia em casa, onde até produtos básicos precisavam ser usados com extrema economia.
Trabalho doméstico abriu caminho para voltar a estudar

Mesmo trabalhando durante o dia, Cleusa pediu à patroa autorização para sair mais cedo e continuar os estudos. Ela havia concluído apenas até a quarta série e passou a frequentar a escola no período noturno, até finalizar o ensino fundamental.
Mais tarde, conseguiu uma vaga como recepcionista. A mudança de função representou um avanço importante em sua trajetória, porque significou mais autonomia e uma saída gradual de trabalhos marcados pela mesma lógica de esforço físico que havia conhecido desde a época de boia-fria.
Aprender a fazer bolos começou por necessidade, não por planejamento

Já no interior paulista, trabalhando em uma pequena empresa, Cleusa conheceu Dona Rosa, esposa do gerente. Após a morte do marido, Dona Rosa passou a produzir bolos e, em determinado momento, pediu que Cleusa assumisse parte de sua clientela.
A proposta parecia inviável. Cleusa nunca havia feito um bolo e não tinha dinheiro nem para comprar uma batedeira, equipamento que, segundo seu relato, custava aproximadamente metade de seu salário. Mesmo assim, uma emergência fez com que ela aceitasse produzir uma encomenda seguindo instruções de Dona Rosa.
Uma batedeira emprestada mudou o rumo da história

Cleusa passou a noite preparando o bolo, seguindo as orientações recebidas. No dia seguinte, Dona Rosa aprovou o resultado e decidiu ajudá-la a continuar. Apareceu com uma batedeira e permitiu que o pagamento fosse feito quando Cleusa tivesse condições financeiras.
Além do equipamento, Dona Rosa passou a repassar clientes e prometeu comprar bolos para funcionários. Foi a partir desse apoio que Cleusa transformou uma habilidade recém-aprendida em uma fonte complementar de renda, ainda distante do que mais tarde se tornaria a Sodiê.
Durante dois anos, ela conciliou emprego, maternidade e encomendas

A rotina passou a ser exaustiva. Cleusa trabalhava na empresa das sete da manhã às cinco da tarde. No intervalo do almoço, corria para casa para assar bolo, retornava ao emprego e, à noite, preparava recheios e finalizava as encomendas.
As entregas eram feitas de madrugada, enquanto sua mãe ajudava com brigadeiros e recheios. Ao mesmo tempo, Cleusa cuidava do filho pequeno. Ela manteve esse ritmo durante cerca de dois anos, conciliando trabalho formal, produção de bolos, maternidade e tarefas domésticas.
Primeira doceria tinha apenas 20 metros quadrados
O desgaste levou Cleusa a pedir demissão e apostar definitivamente na venda de bolos. Em 1997, ela abriu em Salto, no interior de São Paulo, a primeira loja que daria origem à Sodiê, instalada em um espaço de apenas 20 metros quadrados.
Sem carro, ela carregava os bolos a pé. Assava em casa, levava os produtos até a loja, organizava o balcão, atendia clientes e fechava o caixa. Cleusa relata que passou cinco anos trabalhando sem tirar um único dia de folga, numa fase em que praticamente toda a operação dependia diretamente dela.
Boia-fria virou referência de uma meta que Cleusa queria mudar
Naquele momento, Cleusa não projetava construir uma rede nacional. Seus objetivos eram mais imediatos: oferecer uma vida melhor ao filho, tirar a mãe do trabalho como boia-fria e conquistar uma casa própria.
A primeira casa que construiu tinha dois quartos, sala e cozinha, e levou aproximadamente dez anos para ser concluída. A mãe também deixou o trabalho rural depois que Cleusa a incentivou a aprender a produzir balas de coco, que passaram a ser vendidas junto com os bolos.
Venda de bolo em fatias virou ferramenta de crescimento
Uma das decisões comerciais que ajudaram a ampliar o alcance da loja foi vender os bolos em fatias. Cleusa havia conhecido uma confeitaria em Jundiaí e tentou comprar apenas um pedaço de bolo, mas descobriu que o estabelecimento vendia somente produtos inteiros.
A experiência mostrou a ela que oferecer fatias permitia que clientes experimentassem diferentes sabores antes de comprar um bolo completo. A estratégia transformou o próprio produto em forma de divulgação, porque as pessoas passavam a conhecer a variedade do cardápio e lembrar da marca quando precisavam encomendar bolos para festas.
Experiência ruim também influenciou o modelo da Sodiê
Na mesma visita a Jundiaí, Cleusa recebeu a indicação de um ponto no centro da cidade que revendia os bolos em pedaços. Ela comprou quatro fatias e, ao chegar em casa, descobriu que duas estavam estragadas.
O episódio influenciou outra decisão importante. Cleusa concluiu que terceirizar a revenda poderia comprometer a percepção do consumidor sobre a marca original. Por isso, a Sodiê passou a trabalhar com produção dentro das próprias lojas ou em cozinhas centrais dos franqueados, mantendo também cardápio padronizado e insumos homologados.
Franquias começaram depois de um cliente insistir em abrir uma unidade
A expansão da Sodiê por franquias não fazia parte de um planejamento inicial. Segundo a reportagem, um cliente insistiu durante meses para abrir uma unidade em São Paulo, enquanto Cleusa sequer conhecia o funcionamento do sistema de franchising.
Ela então foi de ônibus até a Associação Brasileira de Franchising, a ABF, fez curso, comprou livros e estudou o modelo. A Sodiê começou oficialmente sua expansão por franquias em 2007 e chegou a 50 unidades franqueadas em 2009, segundo os dados apresentados pelo R7.
Mudança de nome colocou a empresa diante de uma crise
A rede ainda se chamava Sensações quando enfrentou problemas relacionados ao registro da marca, devido à existência da marca Sensação, da Nestlé. Cleusa relata que a empresa já possuía 74 lojas quando foi informada de que precisaria mudar de identidade.
O nome Sodiê surgiu da combinação das sílabas iniciais de Sofia e Diego, filhos de Cleusa. A substituição exigiu trocar fachadas, tapetes e outros elementos da comunicação visual. Segundo a empresária, a companhia passou quase quatro anos em situação financeira negativa enquanto arcava com os custos da mudança, mas continuou operando e posteriormente retomou a expansão.
Rede chegou aos Estados Unidos em 2019

A internacionalização começou em 2019, quando a Sodiê abriu sua primeira unidade fora do Brasil, em Orlando, nos Estados Unidos. A expansão levou uma empresa surgida numa pequena loja no interior paulista para outro mercado, mantendo o modelo de franquias adotado anos antes.
Na época das informações citadas pela reportagem do R7, a rede possuía mais de 375 lojas no Brasil e duas unidades nos Estados Unidos. A dimensão alcançada contrasta diretamente com a primeira doceria de 20 metros quadrados onde Cleusa carregava pessoalmente os bolos e realizava diferentes funções.
Reconhecimentos vieram décadas depois da primeira loja
Em 2024, Cleusa foi escolhida vencedora do programa Empreendedor do Ano Brasil, promovido pela EY. No mesmo período, a Sodiê também recebeu o reconhecimento de Franquia do Ano no prêmio As Melhores Franquias do Brasil, organizado pela revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios.
Em 2025, a Associação Brasileira de Franchising concedeu à Sodiê o prêmio de Franqueador do Ano. Os reconhecimentos chegaram quase três décadas depois da abertura daquela primeira loja de 20 metros quadrados em Salto, reforçando a dimensão da transformação empresarial ocorrida desde 1997.
Da roça a uma rede com centenas de lojas
A história de Cleusa Maria da Silva reúne etapas muito diferentes: trabalho como boia-fria, emprego doméstico, retorno aos estudos, atuação como recepcionista, produção artesanal de bolos e, finalmente, construção de uma rede de franquias. Cada mudança ocorreu em momentos distintos, sem que houvesse desde o início um plano estruturado para criar uma empresa desse tamanho.
A Sodiê nasceu oficialmente em 1997, iniciou as franquias em 2007 e chegou ao exterior em 2019. A trajetória da antiga boia-fria mostra como uma atividade que começou como complemento de renda acabou se transformando em uma operação com centenas de unidades. Para você, qual parte dessa história mais impressiona: a saída da roça, o começo sem dinheiro para comprar uma batedeira ou a expansão internacional? Deixe sua opinião nos comentários.
