No km 108 da BR-230, entre Medicilândia e Uruará, no Pará, máquinas fizeram aterro com pedra e barro em um ponto crítico que afundou no inverno. Em junho, o governo assinou edital de R$ 1 bilhão para asfaltar 125 km, mas em outro trecho.
Quem passa pela obra pergunta a mesma coisa, e a resposta que circula na região virou anedota. Um viajante teria perguntado a um morador encostado em um poste se o asfalto da Transamazônica finalmente sairia, e ouviu que outro homem ali perto havia chegado à região com 18 anos, já estava com 50, e continuava sem ver asfalto nenhum.
A cena foi contada em registro publicado pelo canal Terraama, gravado no km 108 da BR-230, entre Medicilândia e Uruará, no sudoeste do Pará. O que as máquinas fazem ali não é pavimentação, é obra emergencial de aterro em pontos que afundaram no período chuvoso, e as próprias equipes precisam explicar isso a quem para para perguntar.
Obra no km 108 é aterro de emergência, não pavimentação

O ponto crítico fica no km 108, no sentido Medicilândia para Uruará. O trecho estava tão rebaixado que caminhões enfrentavam dificuldade para subir, e um deles precisou ser puxado por outro veículo.
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A sequência executada ali é a padrão para esse tipo de recuperação. Primeiro veio o aterro com rachão, pedra de maior granulometria usada para dar sustentação à base. Depois entrou o aterro com barro, espalhado e nivelado por motoniveladora e compactado por rolos. A etapa seguinte prevista é o solo brita, mistura de solo com agregado que melhora a capacidade de suporte da pista. Nenhuma dessas fases é asfalto.
Trabalhador da obra confirma que é só manutenção de pontos críticos
A definição mais direta do que está sendo feito veio de um trabalhador ouvido no local. Segundo ele, não se trata de obra nova: são apenas três frentes de manutenção nos pontos críticos que o inverno abriu.
O registro mostra o efeito prático dessa limitação. Um dos pontos mais problemáticos já havia sido tratado no km 98, outro estava em execução no km 108, e uma terceira frente atuava perto do km 140. São intervenções isoladas em quilômetros específicos, e não um pacote contínuo de pavimentação ao longo da rodovia.
Governo assinou edital de R$ 1 bilhão, mas para o trecho vizinho

Aqui está a informação que dimensiona a frustração dos moradores. Em 10 de junho de 2026, o Ministério dos Transportes assinou o aviso de edital para a pavimentação de 124,95 quilômetros da BR-230 no Pará, com investimento estimado em cerca de R$ 1 bilhão.
O trecho contemplado, porém, não é o do vídeo. O edital cobre o segmento entre Uruará, Placas e Rurópolis, que já possui licença ambiental, condição que permitiu destravar o processo licitatório. O trecho entre Medicilândia e Uruará, onde estão as obras emergenciais, ficou de fora. O ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou na ocasião que o governo pretende obter o licenciamento ambiental desse segmento restante ainda em 2026 e licitá-lo no mesmo ano.
Medicilândia é a capital nacional do cacau e escoa tudo por essa estrada
O município é reconhecido como capital nacional do cacau, e as imagens aéreas do trecho mostram por quê. O que parece mata fechada dos dois lados da rodovia é, na maior parte, roça de cacau em sistema sombreado.
A dependência da estrada é total. Toda a produção da região sai por ali, junto com o abastecimento que entra. Os cinco municípios beneficiados pelo pacote de pavimentação anunciado em junho, Altamira, Medicilândia, Uruará, Placas e Rurópolis, somam cerca de 267 mil habitantes, e a BR-230 é a via que os liga.
Barro vermelho vira pista escorregadia depois da água

O material da região tem uma característica que aparece com destaque no registro. O barro vermelho de Medicilândia fica extremamente liso quando molhado, a ponto de o autor do vídeo avisar que quem passar de moto em cima dele corre risco de queda.
Isso cria um paradoxo operacional na obra. Um caminhão-pipa precisa umedecer o material para que a compactação funcione, já que solo seco demais não atinge a densidade necessária. Ao mesmo tempo, é justamente a água que deixa a superfície escorregadia. A janela entre o barro seco demais e o barro liso demais é o que define a qualidade do serviço, e é por isso que o pipa trabalha junto com o rolo o tempo todo.
Km 98 está sendo alargado a oito quilômetros da cidade
A segunda frente visitada fica no km 98, a oito quilômetros de Medicilândia. Ali o serviço é diferente: em vez de aterro, o que acontece é reabertura e alargamento da pista.
O trecho era descrito como bem fechado, com vegetação nas duas laterais e barrancos altos. Escavadeiras limpam as margens, carregadeiras enchem caçambas com o entulho e uma motoniveladora acerta o traçado. Durante a filmagem, uma pedra grande desabou do barranco no meio da estrada, e a pista ficou tão estreita durante o serviço que carros e caminhões precisavam esperar espaço para passar entre as máquinas.
Rodovia tem 4.260 quilômetros e segue com trechos sem pavimento
A BR-230 é a terceira rodovia mais longa do Brasil, com 4.260 quilômetros. Ela liga Cabedelo, na Paraíba, a Lábrea, no Amazonas, atravessando o país no sentido leste-oeste.
Boa parte da extensão na Amazônia continua sem pavimentação. Em setembro de 2022, o governo concluiu a restauração de 33,3 quilômetros já asfaltados no norte do Tocantins, entre Aguiarnópolis e Trevo de Nazaré, mas muitos segmentos amazônicos permanecem inteiramente sem asfalto. A rodovia foi aberta durante o regime militar, no início dos anos 1970, o que dá a medida do tempo que a promessa de conclusão acumula.
Assembleia estadual cobra pavimentação nos mesmos trechos
A pressão política pelo asfalto não é nova nem restrita aos moradores. Deputados estaduais do Pará solicitaram formalmente ao governo federal, por meio do DNIT, investimentos em pavimentação asfáltica e sinalização exatamente nos segmentos citados no vídeo.
Os pedidos incluem os trechos entre Placas e Uruará, Rurópolis e Placas, e Uruará a Medicilândia, além da ligação de Rurópolis ao distrito de Miritituba, onde as BR-163 e BR-230 correm paralelas. A região é tratada como corredor logístico relevante também para o escoamento de grãos vindos do Mato Grosso com destino a portos no Pará.
Pergunta sobre o asfalto se repete a cada obra emergencial
O padrão descrito no registro se repete sempre que máquinas aparecem na pista. Motoristas param, veem o movimento de caçambas e escavadeiras e presumem que a pavimentação finalmente começou.
Não começou. O que existe naquele quilômetro é aterro sobre aterro, feito para que a estrada atravesse o próximo período chuvoso sem afundar de novo. A anedota do homem que chegou com 18 anos e está com 50 sintetiza essa distância entre o que aparece na estrada e o que a população espera ver. Com o edital assinado para o trecho vizinho e o licenciamento do segmento de Medicilândia ainda pendente, a expectativa segue exatamente onde estava: no aguardo.
Conta nos comentários: quem mora ou já rodou pela Transamazônica sabe dizer se essas obras emergenciais aguentam mais de um inverno, ou tudo afunda de novo na primeira chuva forte? E na sua região, existe alguma estrada que promete asfalto há décadas e continua no barro?

