Resgatada do Atlântico em 2002, a torre do USS Monitor permanece em um tanque químico de 340 mil litros, onde correntes elétricas retiram sais do ferro, estabilizam a corrosão e preparam a peça para uma secagem lenta que ainda exigirá muitos anos de conservação arqueológica.
Técnicos drenam um tanque enorme para alcançar uma torre de canhões construída no século XIX. A estrutura ficou quase 140 anos no fundo do Atlântico e agora permanece mergulhada em cerca de 340 mil litros de solução química.
O Office of National Marine Sanctuaries, órgão da NOAA responsável por santuários marinhos nacionais, registrou as etapas desse tratamento. A torre foi retirada do oceano em 2002, mas o resgate representou apenas o começo de uma conservação capaz de atravessar décadas.
Embora pareça resistente, o ferro foi enfraquecido pela água salgada, pela corrosão e pelos depósitos acumulados. Se a torre fosse simplesmente deixada para secar, partes da estrutura poderiam rachar, soltar placas e se desfazer.
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O navio que mudou a guerra naval
O USS Monitor entrou em serviço em 1862 durante a Guerra Civil norte americana. Sua principal inovação era uma torre blindada capaz de girar com os canhões, permitindo mudar a direção dos disparos sem reposicionar todo o navio.
Naquele período, muitas embarcações militares ainda dependiam de cascos de madeira e canhões instalados nas laterais. O Monitor apresentou uma combinação diferente, formada por blindagem de ferro, perfil baixo e armamento concentrado na torre giratória.

O confronto entre navios encouraçados mostrou que as antigas embarcações de madeira estavam se tornando vulneráveis. A partir daquela experiência, a arquitetura naval e as estratégias de combate no mar começaram a mudar.
A trajetória do Monitor, porém, durou poucos meses. No fim de 1862, uma tempestade atingiu o navio próximo ao cabo Hatteras, na Carolina do Norte. A embarcação virou durante o naufrágio, e a torre acabou separada do restante da estrutura.
Como a torre saiu de 73 metros de profundidade
Em 5 de agosto de 2002, uma operação de recuperação conseguiu erguer a torre de aproximadamente 73 metros de profundidade. A estrutura rompeu a superfície do Atlântico pela primeira vez desde o naufrágio ocorrido quase 140 anos antes.
A retirada exigiu extremo cuidado. O objeto carregava sedimentos, concreções e peças arqueológicas em seu interior. Além disso, a torre estava invertida porque o navio virou enquanto afundava.
Depois de içada, a estrutura foi colocada em uma barcaça e transportada até o Mariners’ Museum, em Newport News, no estado da Virginia. O museu recebeu a responsabilidade de conservar a torre e os demais objetos recuperados do USS Monitor.
A instituição mantém um complexo preparado para cuidar de grandes peças arqueológicas de metal. O trabalho com os materiais do Monitor é apresentado como a maior operação mundial de conservação de metais arqueológicos marinhos.
O tanque de 340 mil litros protege o ferro do contato com o ar
A torre passou a ocupar um tanque com 90 mil galões, equivalentes a aproximadamente 340 mil litros. O recipiente recebe uma solução química forte que ajuda a retirar os sais acumulados no ferro.

Em uma etapa realizada em 2016, os técnicos drenavam o tanque no início da semana para acessar a estrutura. Antes do fim de semana, o recipiente voltava a ser preenchido. A solução usada no tratamento não permitia a entrada segura de pessoas enquanto o tanque permanecia cheio.
Durante esses períodos, os conservadores retiraram peças internas frágeis, avaliaram as paredes e renovaram o sistema elétrico. Fotografias e escaneamentos também criaram registros detalhados para acompanhar mudanças, rachaduras e perdas de material ao longo do tratamento.
A equipe ainda preparou o uso experimental de gelo seco para remover depósitos endurecidos. As partículas atingem a superfície e ajudam a soltar concreções, que são camadas formadas por ferrugem, minerais, areia e materiais marinhos acumulados.
Correntes elétricas retiram os sais escondidos no metal
A técnica usada no tanque recebe o nome de redução eletrolítica. Em linguagem simples, trata se de um banho químico auxiliado por uma corrente elétrica de baixa intensidade.
Placas metálicas ficam suspensas ao redor da torre e funcionam como eletrodos. Quando a corrente atravessa o sistema, parte dos sais e dos produtos da corrosão deixa a estrutura e se desloca em direção a essas placas.
Pequenas bolhas de oxigênio e hidrogênio aparecem na superfície. Elas ajudam a desprender concreções, enquanto a eletricidade transforma compostos instáveis da ferrugem em formas mais seguras. O processo também contribui para estabilizar áreas enfraquecidas do ferro.
O Office of National Marine Sanctuaries, órgão da NOAA responsável por santuários marinhos nacionais, detalhou a modernização desse sistema em 2016. A atualização buscava acelerar a retirada dos sais sem colocar a torre em risco.
Por que a conservação pode atravessar gerações
O principal perigo está nos cloretos presos nos poros e nas camadas de corrosão. Essas partículas vieram da água salgada e penetraram no ferro durante quase 140 anos de permanência no Atlântico.
Quando o metal entra em contato com oxigênio e umidade, os cloretos podem alimentar novas reações. A ferrugem cresce dentro da estrutura, ocupa mais espaço e pressiona as camadas externas. Aos poucos, o ferro pode estufar, rachar e perder fragmentos.
Por isso, esvaziar o tanque não significa que a torre esteja pronta para exposição. Os sais precisam atingir níveis seguros, as concreções devem ser retiradas e cada parte do objeto precisa demonstrar estabilidade. A secagem será lenta e cuidadosamente controlada.

Em agosto de 2016, o planejamento ainda mencionava a possibilidade de mais 10 a 15 anos de trabalho. Esse intervalo era uma estimativa feita naquele momento, não uma data final garantida. O estado do metal e os resultados das análises determinam o ritmo real da conservação.
A torre sobreviveu a uma guerra, a um naufrágio e a quase 140 anos no fundo do oceano. Ainda assim, sua preservação depende de um tratamento muito mais delicado do que sua aparência blindada permite imaginar.
Se retirar a torre do oceano foi apenas o começo, onde termina o resgate e começa a responsabilidade de preservar essa história para as próximas gerações?
