Trajetória reúne guerra, imigração, trabalho pesado e uma rotina acadêmica improvável dentro de uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos, mostrando como um funcionário da limpeza conciliou sustento familiar, novos idiomas e estudos clássicos até alcançar uma transformação que chamou atenção no campus.
Gac Filipaj chegou aos Estados Unidos sem falar inglês e com pouca estrutura de apoio depois de deixar a antiga Iugoslávia em meio à guerra, iniciando em Nova York uma trajetória marcada por trabalho pesado, estudo constante e responsabilidade familiar.
Em Nova York, o primeiro emprego veio no setor de limpeza da Columbia University, onde ele passou anos cuidando de dormitórios, banheiros e áreas coletivas enquanto aproveitava o benefício educacional oferecido aos funcionários para construir uma nova formação acadêmica.
Segundo um perfil publicado pela Columbia Magazine, revista da própria universidade, foram sete anos dedicados ao aprendizado do inglês e outros 12 anos de estudos acadêmicos, período em que Filipaj trabalhou em tempo integral e continuou enviando dinheiro aos parentes.
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Da guerra na antiga Iugoslávia ao recomeço em Nova York
Antes de se estabelecer nos Estados Unidos, Filipaj havia crescido em uma propriedade agrícola familiar em Montenegro, então parte da Iugoslávia, e cursava Direito em Belgrado, enfrentando longas viagens de trem para realizar provas e retornar ao trabalho no campo.
Com o avanço do conflito no território iugoslavo e a possibilidade de ser convocado para o Exército, ele deixou o país sem concluir o curso, chegando aos Estados Unidos sem dominar o idioma usado no cotidiano, nas escolas e no mercado de trabalho.

No Bronx, onde passou a morar, Filipaj começou a frequentar aulas de inglês ao mesmo tempo que procurava uma fonte estável de renda, pois precisava sustentar a própria vida em Nova York e continuar ajudando os familiares que permaneceram em Montenegro.
Foi então que perguntou a um conhecido qual era a universidade mais reconhecida da cidade e ouviu como resposta o nome da Columbia, decisão que o levou a procurar uma vaga no setor responsável pela limpeza e manutenção das instalações do campus.
Trabalho na limpeza da Columbia University
A contratação ocorreu no início da década de 1990, quando ele passou a executar serviços de limpeza pesada nos dormitórios estudantis e, posteriormente, foi transferido para o Lerner Hall, centro de convivência utilizado diariamente por alunos, professores e funcionários.
Mais do que garantir renda, o emprego oferecia acesso ao benefício educacional destinado aos trabalhadores da universidade, mas a entrada nas disciplinas regulares ainda dependia de uma etapa essencial: alcançar o nível de inglês exigido para acompanhar aulas, leituras e avaliações.
Para cumprir essa exigência, Filipaj frequentou cursos de idioma durante anos, conciliando as aulas com o expediente e com as responsabilidades financeiras assumidas em relação à família, o que tornou o avanço mais lento, porém compatível com as condições concretas de sua rotina.
Somente depois de atingir a proficiência necessária ele passou a cursar matérias em tempo parcial, ingressando na School of General Studies, unidade da Columbia voltada a estudantes com trajetórias não tradicionais que buscam uma formação universitária regular dentro da instituição.
Sete anos para aprender inglês e entrar na universidade
A escolha pelos Estudos Clássicos acrescentou novos desafios ao percurso, porque a área exige contato com língua, literatura, história e pensamento das sociedades grega e romana, além do estudo de latim e grego antigo ao longo da graduação.
Todos os dias, Filipaj assistia às aulas pela manhã e, por volta das 14h, substituía livros e cadernos pelo uniforme azul usado no trabalho, iniciando um turno que normalmente se estendia até aproximadamente 22h30 dentro do próprio campus.

Encerrado o expediente, ele seguia de metrô até o apartamento no Bronx e ainda reservava parte da noite para leituras, exercícios e trabalhos acadêmicos, mantendo uma rotina que combinava deslocamento, esforço físico, estudo avançado e poucas horas livres.
Mesmo com o tempo reduzido, Filipaj frequentava as mesmas disciplinas e aprendia com os mesmos professores dos demais alunos, participando de provas, debates e atividades que exigiam domínio crescente do inglês e familiaridade com textos clássicos de elevada complexidade.
Na School of General Studies, colegas mais jovens passaram a dividir com ele discussões e trabalhos, enquanto professores acompanhavam uma formação construída em ritmo diferente daquele seguido pela maioria dos estudantes que ingressa na universidade logo após concluir o ensino médio.
Latim, grego e Estudos Clássicos após o expediente
Durante boa parte desse percurso, Filipaj não tinha computador em casa e escrevia trabalhos à mão, detalhe que tornava mais demorada uma rotina já limitada pelo emprego em tempo integral e pelas obrigações financeiras mantidas com os parentes em Montenegro.
Esse arranjo prolongou a graduação, mas permitiu que ele avançasse sem abandonar a renda necessária para viver em Nova York, mantendo simultaneamente o vínculo profissional com a universidade e a possibilidade de continuar estudando dentro da mesma instituição.
Entre uma aula e outra, o contraste permanecia visível: depois de discutir textos antigos, filosofia e ética, Filipaj limpava pisos, retirava resíduos e cuidava de banheiros e dependências que seriam usados pelos mesmos estudantes com quem havia compartilhado a sala.
Também fizeram parte de sua formação autores como o filósofo romano Sêneca, cujas reflexões sobre conhecimento, caráter e vida pública despertaram seu interesse e ajudaram a aproximar o conteúdo acadêmico das experiências acumuladas ao longo de anos de trabalho e migração.

À medida que as disciplinas se acumulavam, a relação com a Columbia deixou de ser apenas profissional, pois o funcionário da limpeza passou a integrar também a comunidade acadêmica, sem abandonar as tarefas que haviam aberto sua primeira oportunidade dentro da universidade.
Diploma com honras aos 52 anos
Anos de conciliação entre emprego, idioma e estudos levaram Filipaj ao bacharelado em Estudos Clássicos com honras departamentais, recebido aos 52 anos, depois de um ciclo acadêmico e profissional de aproximadamente 19 anos dentro da Columbia University.
Na cerimônia, o diploma simbolizou a conclusão de uma formação iniciada quando ele ainda aprendia inglês, mas não provocou uma saída imediata do setor de limpeza, onde continuava empregado enquanto avaliava os próximos passos de sua trajetória universitária.
Apesar da graduação, Filipaj pretendia permanecer no trabalho, fazer uma pausa acadêmica e buscar posteriormente estudos de pós-graduação em áreas como clássicos, línguas ou filosofia, mantendo o objetivo de continuar aprendendo dentro da instituição em que havia trabalhado por quase duas décadas.
Depois de alternar por tantos anos livros, aulas, tarefas de manutenção e ajuda financeira à família, ele preservou a ligação com a universidade que havia funcionado simultaneamente como local de trabalho, espaço de aprendizagem e ponto de reconstrução após a guerra.
Quantas pessoas atravessam diariamente escolas e universidades sem imaginar que o local onde trabalham também pode se transformar no ponto de partida para uma formação acadêmica capaz de mudar completamente o rumo de uma vida?
