Em Manacapuru, no Amazonas, quatro alunas de escola pública transformaram a ossada de pirarucu que iria para o lixo em carvão e criaram um biofiltro de pirarucu que limpa cerca de 2 litros de água de rio por hora. O projeto rendeu às estudantes uma menção honrosa nacional.
No Amazonas, quatro estudantes de escola pública transformaram um resíduo do rio em solução para um problema antigo: a falta de água limpa. Em Manacapuru, elas criaram um biofiltro de pirarucu, usando o carvão feito da ossada do peixe que iria para o lixo, como mostrou a Samsung. O projeto rendeu reconhecimento nacional.
Alunas do primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual José Mota, elas conseguiram filtrar cerca de 2 litros de água de rio por hora e receberam menção honrosa no Samsung Solve for Tomorrow, segundo o Portal Manaus Alerta. Tudo a partir de um material que costuma ser descartado.
A ideia nasceu de um problema duplo. A ossada de pirarucu, sobra do preparo do peixe, costuma ser jogada em rios e lixões, causando contaminação. Ao virar carvão ativado, esse resíduo deixa de poluir e passa a limpar a água, num biofiltro de pirarucu de baixo custo.
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A seguir, veja quem são as quatro estudantes, como a ossada de pirarucu vira carvão e depois biofiltro, por que o projeto ganhou menção honrosa nacional e o que essa invenção de escola pública tem a ver com o Brasil.
Quem são as quatro alunas por trás do biofiltro de pirarucu

As protagonistas da história são quatro adolescentes do interior do Amazonas. Lohanya Guimarães, Carla Cristina Gomes, Ursula Ferreira e Carla Bezerra cursam o primeiro ano do ensino médio na Escola Estadual José Mota, em Manacapuru, e decidiram atacar um problema que veem de perto.
O grupo é formado só por meninas, e elas fazem questão de destacar isso. “Me sinto importante e espero inspirar outras meninas a fazerem seus projetos”, disse Carla, uma das integrantes, resumindo o orgulho de representar a ciência feita por mulheres na escola pública.
Para as estudantes, a experiência foi transformadora. “É uma experiência muito nova e incrível”, contou Ursula, outra integrante do time, ao falar sobre a jornada de tirar uma ideia do papel e transformá-la em um protótipo que realmente funciona.
Por trás delas está um professor dedicado. O orientador Galileu da Silva Pires acompanhou o desenvolvimento do biofiltro de pirarucu e conta que o projeto ajudou até a recuperar a estrutura do laboratório da escola, que estava desativado. A ciência voltou a acontecer na prática.
Juntas, elas dividiram as tarefas do projeto. Da pesquisa sobre o carvão aos testes com a água, cada uma das quatro estudantes assumiu parte do trabalho, num esforço coletivo que mostra como a colaboração pode render resultados numa escola pública com poucos recursos.
Como a ossada de pirarucu vira carvão ativado
O ponto de partida é um resíduo abundante na região. O pirarucu é um dos peixes mais consumidos no Amazonas, e a ossada, ou seja, os ossos que sobram depois do preparo, costuma ser descartada sem nenhum uso. Foi justamente esse material que virou matéria-prima.
A transformação passa por um processo específico. Os ossos de pirarucu são tratados e queimados para virar carvão ativado, um tipo de carvão com grande capacidade de reter impurezas. Segundo o orientador do projeto, é “uma estrutura óssea rica em minerais que dá a possibilidade de criar o carvão“.
Esse detalhe é o coração da invenção. Em vez de usar carvão de origem vegetal, que exige a queima de madeira, as estudantes aproveitaram um resíduo animal que seria jogado fora, dando a ele uma função nova e nobre dentro do biofiltro de pirarucu.
O resultado é um material de baixo custo. Como a ossada de pirarucu é praticamente de graça e existe de sobra na região, o carvão produzido a partir dela barateia o filtro, o que é essencial para uma solução pensada para comunidades com pouco dinheiro.
O carvão ativado funciona como uma esponja microscópica. Sua superfície cheia de poros prende partículas e impurezas que passam junto com a água, num processo chamado adsorção. É por isso que esse tipo de carvão é usado em filtros no mundo todo, e agora também no biofiltro de pirarucu.
O biofiltro que limpa 2 litros de água de rio por hora
O desempenho do protótipo impressiona pela simplicidade. Segundo o projeto, o biofiltro de pirarucu já conseguiu filtrar cerca de 2 litros de água por hora, transformando água de rio em água própria para consumo depois de testes feitos em laboratório.
O funcionamento segue a lógica dos filtros de carvão. A água suja passa pelo carvão ativado feito da ossada, que retém impurezas e parte dos contaminantes, deixando o líquido mais limpo na saída. É um princípio conhecido, aplicado a um material inédito.
O ritmo de 2 litros por hora pode parecer modesto, mas faz diferença. Para uma família sem acesso a água tratada, ter alguns litros limpos ao longo do dia já ajuda a beber, cozinhar e reduzir o risco de doenças ligadas à água contaminada.
Vale lembrar que se trata de um protótipo. O biofiltro de pirarucu ainda pode ganhar escala e eficiência, mas já provou o conceito: dá para usar um resíduo local e barato para melhorar a qualidade da água consumida por quem mais precisa.
Antes de chegar a esse número, veio muito teste. As estudantes analisaram a água em laboratório para checar se o filtro realmente reduzia a sujeira e deixava o líquido mais seguro, ajustando o biofiltro de pirarucu até alcançar um resultado consistente.
Por que usar osso de pirarucu em vez de carvão comum?
A resposta une economia e meio ambiente. O carvão ativado tradicional costuma vir de fontes vegetais, o que envolve corte de árvores e custo maior. Já a ossada de pirarucu é um resíduo que sobra de graça, sem exigir nenhum desmatamento.
Há também a vantagem técnica. Por ser uma estrutura óssea rica em minerais, o osso de pirarucu se mostrou capaz de gerar um carvão com boa capacidade de filtragem, segundo o que as estudantes observaram nos testes do biofiltro de pirarucu.
O uso do resíduo resolve dois problemas de uma vez. Ao aproveitar a ossada, o projeto evita que esses ossos sejam jogados em rios e lixões, onde causam contaminação, e ainda transforma esse descarte em uma ferramenta para limpar a água.
Por fim, há o fator disponibilidade. Em uma região onde o pirarucu é parte da alimentação, a ossada está sempre à mão, o que torna o carvão feito dela uma opção prática e sustentável para produzir filtros em escola pública e em comunidades ribeirinhas.
Aproveitar o osso ainda tem apelo ambiental duplo. Além de evitar o corte de árvores para fazer carvão vegetal, o projeto tira da natureza um resíduo que poluiria os rios. Assim, o biofiltro de pirarucu ataca dois problemas com uma mesma solução barata.
Água limpa na seca: o problema que o projeto resolve
O contexto amazônico ajuda a entender a urgência. Durante os períodos de seca, o nível dos rios cai muito, e comunidades que dependem deles ficam ainda mais isoladas, com dificuldade de conseguir água de qualidade para o dia a dia.
O orientador do projeto descreve bem a situação. “O rio seca, então o transporte para, e isso afeta a alimentação e a qualidade de vida nessas comunidades”, explicou Galileu Pires, mostrando como a falta de água limpa vai muito além da sede.
É nesse cenário que o biofiltro de pirarucu faz sentido. Um filtro barato, feito com material local, permite que famílias tratem a própria água de rio em casa, sem depender de sistemas caros ou de transporte que a seca interrompe.
A solução também é adaptada à realidade das estudantes. Elas conhecem de perto a rotina das comunidades ribeirinhas, e isso ajudou a pensar um biofiltro simples de montar e de usar, voltado justamente para quem vive longe das redes de tratamento de água.
A relação dos ribeirinhos com o rio é de dependência total. É dele que vem a água para beber, cozinhar e se lavar, mas nem sempre ela chega limpa. Um filtro caseiro e barato como esse dá a essas famílias uma camada extra de segurança no consumo do dia a dia.
Nesses lugares, cada litro conta. Ferver a água nem sempre é possível e comprar água engarrafada pesa no orçamento de quem tem pouco. Por isso, um biofiltro de pirarucu que trata a água do próprio rio, a baixo custo, resolve uma necessidade bem concreta.
A menção honrosa no Solve for Tomorrow Brasil
O reconhecimento veio de uma das maiores competições estudantis do país. O projeto das quatro estudantes de Manacapuru recebeu menção honrosa no Solve for Tomorrow Brasil, programa que estimula alunos de escola pública a resolver problemas reais com ciência e tecnologia.
O prêmio valoriza o impacto da ideia. A menção honrosa foi concedida pelo potencial transformador do protótipo, ou seja, pela capacidade do biofiltro de pirarucu de melhorar a vida de comunidades que sofrem com a falta de água limpa.
Chegar à final já era uma conquista. O programa reúne projetos de todo o Brasil, e ver uma escola pública do interior do Amazonas se destacar entre tantos mostra a força da ciência feita longe dos grandes centros, com poucos recursos.
Coordenado por uma organização educacional, o Solve for Tomorrow chega à sua 12ª edição incentivando a abordagem que une ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Para as estudantes, o prêmio é também um empurrão para continuar estudando e inventando.
Reconhecimentos assim têm efeito duradouro. Além do prestígio, eles colocam a escola pública, as alunas e o professor no mapa, atraem apoio e mostram a outros jovens que vale a pena investir em ciência. Um prêmio nacional muda a forma como uma turma inteira enxerga o próprio potencial.
Duas comunidades de Manacapuru vão receber o sistema
O projeto não parou na bancada do laboratório. A ideia é levar o biofiltro de pirarucu para o mundo real, e duas comunidades de Manacapuru estão previstas para receber o sistema e testá-lo no dia a dia.
Uma das instalações será em uma escola. Levar o filtro para outro ambiente de ensino amplia o alcance da invenção e ainda serve de exemplo para mais estudantes, que podem ver de perto como a ciência resolve problemas concretos da comunidade.
A outra irá para uma casa na zona rural. Nesse caso, uma família que enfrenta dificuldade de acesso à água limpa poderá usar o biofiltro feito de carvão de ossada, testando na prática se a solução funciona fora do laboratório.
Esse passo é fundamental para o futuro do projeto. Só o uso real vai mostrar quanto o biofiltro de pirarucu aguenta, com que frequência precisa de manutenção e como pode ser melhorado, transformando um protótipo premiado em uma ferramenta de verdade.
Levar a invenção para fora do laboratório é o que separa uma boa ideia de uma solução real. Nas duas comunidades, o biofiltro de pirarucu será usado por pessoas comuns, no dia a dia, e é esse retorno que vai dizer se ele está pronto para crescer.
O que isso tem a ver com o Brasil
A história toca em um problema que é de todo o país. Milhões de brasileiros ainda não têm acesso a água tratada, e boa parte deles vive em áreas rurais e ribeirinhas, longe das redes de saneamento, exatamente o público que o biofiltro de pirarucu quer atender.
Os números do saneamento reforçam a urgência. Boa parte da população amazônica ainda depende diretamente dos rios, sem tratamento adequado, o que aumenta o risco de doenças transmitidas pela água. Soluções locais e baratas ganham peso justamente onde o poder público demora a chegar.
O projeto também mostra o valor da ciência na escola pública. Quando alunos ganham espaço, orientação e um laboratório funcionando, eles conseguem criar soluções relevantes, provando que talento e criatividade existem em qualquer lugar do Brasil.
Há ainda a lição sobre reaproveitamento. Transformar a ossada de pirarucu, um resíduo do pescado, em carvão para tratar água é um exemplo de economia circular que outras regiões podem adaptar, usando os resíduos que sobram por perto.
No caso do pirarucu, a matéria-prima é farta. O peixe é um dos pilares da pesca no Amazonas, o que significa muita ossada disponível o ano inteiro. Em vez de virar problema nos rios, esse resíduo pode alimentar a produção de carvão e de filtros de água de baixo custo.
Por fim, fica o exemplo de protagonismo jovem. Ver quatro estudantes de Manacapuru atacarem um problema real com uma invenção barata é um lembrete de que a solução para muitos desafios do Brasil pode vir da própria comunidade, com apoio à educação.
E você, imaginava que osso de peixe podia limpar água de rio?
A trajetória das quatro estudantes de Manacapuru mostra como a criatividade pode transformar lixo em solução. Com o carvão feito da ossada de pirarucu, elas criaram um biofiltro de pirarucu capaz de limpar cerca de 2 litros de água de rio por hora e conquistaram menção honrosa nacional.
Mais do que um prêmio, o projeto tem propósito claro. Ao unir reaproveitamento de resíduo, água limpa e ciência feita em escola pública, as alunas mostraram que dá para enfrentar a falta de saneamento com ideias simples, baratas e adaptadas à realidade local.
E você, imaginava que a ossada de pirarucu que iria para o lixo podia virar carvão e limpar água de rio? Acha que projetos assim, nascidos na escola pública, deveriam receber mais apoio no Brasil? Conta aqui nos comentários a sua opinião e compartilhe para dar visibilidade a essas jovens inventoras.
