Projeto Castor tentou armazenar gás no Mediterrâneo, disparou terremotos e deixou uma conta pública que já passa de 1.600 milhões de euros.
Um projeto para guardar gás sob o Mediterrâneo acabou associado a mais de 1.000 terremotos e virou uma conta pública que já passa de 1.600 milhões de euros na Espanha. O chamado Projeto Castor, instalado diante das costas de Castellón e Tarragona, foi pensado para reduzir a dependência de gás natural, mas acabou paralisado depois que uma injeção de gás em 2013 foi ligada a uma onda de tremores.
O que parecia uma solução estratégica virou um culebrón de indenizações, decisões judiciais e custos que continuam subindo. Por trás do impacto dos terremotos, há uma pergunta que ainda incomoda: como uma infraestrutura que nunca funcionou segue pesando no bolso de tanta gente?
O que era o Projeto Castor e por que ele foi aprovado
O Projeto Castor foi concebido como um grande armazenamento submarino de gás em um antigo campo petrolífero no Mediterrâneo, em frente a Tarragona e Castellón. A ideia era criar uma espécie de reserva para momentos de alta demanda, reforçando a segurança energética.
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Formalmente, o megaprojeto foi aprovado em 2007 e iniciado em 2008. A concessão ficou com a Escal UGS, cujo principal acionista era a ACS, com 66%. O orçamento inicial era de 500 milhões de euros, mas a história tomou outro rumo.
A estrutura que nunca chegou a operar de verdade
O plano incluía armazenar aproximadamente 1,3 milhão de metros cúbicos de GNL e reunia uma plataforma marítima, um gasoduto de 30,3 quilômetros e uma planta terrestre em Vinaròs, em Castellón. A instalação ficava a cerca de 1.700 metros de profundidade.
Só que, na prática, o Castor nunca saiu do papel como operação regular. Ele chegou à fase de colocação em marcha, mas parou ali. E o motivo tem nome e deixou marca no mapa.
Quando os terremotos começaram e por que isso virou um ponto sem retorno
Para funcionar, o armazenamento precisava do chamado “gás colchão”, um gás base para manter a pressão. Em 2013, foi feita uma injeção para esse objetivo e, segundo as apurações mencionadas no caso, a atividade foi ligada a microseísmos em Castellón entre junho e setembro daquele ano, com movimentação da falha de Amposta e de outra falha inferior.
Os números cresceram com o tempo. Primeiro se falou em cerca de 350 tremores, depois em mais de 500. Mais tarde, um estudo publicado na Geophysical Journal International elevou a estimativa para mais de 1.000 movimentos de terra, ou seja, mais de 1.000 terremotos na contabilidade final.
A maioria foi leve, mas houve um registro que virou símbolo do risco. O maior terremoto citado alcançou magnitude 4,3 na escala Richter. E, a partir daí, a tolerância política e social para seguir em frente desmoronou.
A decisão de parar e o desgaste que veio junto
Com os terremotos ganhando repercussão, o então ministro da Indústria, José Manuel Soria, ordenou a paralisação do projeto. A pressão não veio só pelos tremores: também se discutiam rentabilidade e impacto ambiental.
Além disso, o cenário energético mudou. O sistema espanhol evoluiu para uma lógica mais flexível, baseada em importações de GNL e regaseificadoras, o que reduziu o argumento de necessidade urgente do Castor. Mesmo assim, a conta não parou junto com as obras.
Como os terremotos viraram uma fatura paga por todos
Com o projeto fracassado, entrou em cena o contrato de concessão e a previsão de compensação à adjudicatária. Em outubro de 2014, foi aprovada por real decreto-lei uma indenização de 1.350 milhões de euros.
O mecanismo foi desenhado pelo sistema gasista: bancos adiantaram o montante à Enagás, e o valor foi sendo imputado na fatura do gás dos consumidores. Na prática, os terremotos ficaram para trás, mas a cobrança ficou no presente.
Em 2017, esse mecanismo foi parcialmente anulado pelo Tribunal Constitucional, o que paralisou pagamentos às financeiras. A dívida, com juros, acabou assumida pelo Estado e o custo passou a recair sobre os contribuintes. O caso passou a ser apontado como um exemplo de “socialização de perdas”.
Litígios, devoluções e a conta que continua crescendo
A disputa judicial seguiu com novas decisões. Entre os episódios citados, a Audiencia Nacional obrigou a Escal UGS a devolver aos consumidores de gás 209,7 milhões de euros de “retribuição financeira” relativos a 2014, 2016 e 2017.
E veio outra etapa que abre novas despesas: o desmantelamento do armazenamento submarino. Na primavera do ano passado, a ministra para a Transição Ecológica e o Reto Demográfico, Sara Aagesen, anunciou a desmontagem, e o processo foi adjudicado à Enagás em 2024.
O capítulo mais recente citado no caso é de fevereiro de 2026, quando o Tribunal Supremo reconheceu novas compensações pelos trabalhos de desmantelamento e por serviços de operação e manutenção. O valor indicado foi de 255 milhões de euros, com mais custos ainda previstos até o fechamento definitivo.
Resultado: o montante já supera os 1.600 milhões de euros e continua subindo, mesmo com tentativas de reduzir perdas vendendo parte de equipamentos. E isso para uma infraestrutura nascida há quase 20 anos que nunca chegou a funcionar.
Você acha que projetos desse porte deveriam ter freios mais duros antes de virar risco de terremotos e conta pública?


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