Sem material didático na escola pública, uma professora do Rio Grande do Norte transformou tampinhas, caixas de ovo e papelão em dezenas de jogos para ensinar as quatro operações e frações. Os alunos gostaram tanto que a rebatizaram de “tia dos brinquedos” e o número de jogos não parou de crescer.
Quando faltou material, sobrou criatividade. Inconformada com a ausência de recursos que a ajudassem na alfabetização e no ensino da Matemática, a professora Taziana Pessôa, de 48 anos, resolveu produzir ela mesma os brinquedos de que precisava usando exatamente aquilo que iria para o lixo. Segundo o g1 e o portal Porvir, a iniciativa transformou o dia a dia de uma escola municipal na zona rural da Grande Natal.
O resultado apareceu rápido e em escala. Papéis, plásticos, papelões e tampinhas de garrafa pet viraram caixas decoradas, abecedários, fatias de pizza e cartões ilustrados, todos criados para ensinar brincando. A história ganhou repercussão nacional em abril de 2022 e, poucas semanas depois, o acervo de jogos já era bem maior do que no começo.
A professora que virou “tia dos brinquedos”

imagem: porvir.org
O apelido veio dos próprios alunos, e diz tudo sobre o efeito da iniciativa. “Agora, em todas as turmas, virei a ‘tia dos brinquedos’ e sempre sou questionada sobre quando vou trazer materiais novos. Isso é muito gratificante”, conta a professora.
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A adesão das crianças foi imediata. “Todas as crianças participaram, se interessaram e aprenderam com os brinquedos e materiais. Foi impressionante ver como o ato de aprender brincando conseguiu prender a atenção de todos”, relata Taziana sobre a resposta da turma.
A iniciativa também tem um braço acadêmico. Para personalizar os acessórios, ela contou com o apoio de estudantes do curso de Pedagogia da Universidade Potiguar (UnP), instituição onde a educadora também dá aulas.
Quem é Taziana Pessôa, a educadora por trás da ideia
A protagonista dessa história acumula duas frentes de trabalho. A potiguar Taziana Pessôa, de 48 anos, leciona para a turma do 4º ano na Escola Municipal Deputado Djalma Marinho, em São Gonçalo do Amarante, na Grande Natal.
É justamente essa dupla jornada que explica o projeto. Ela dá aula tanto para crianças da rede pública quanto para futuros professores na universidade, o que a colocou diante de um contraste difícil de ignorar entre teoria e realidade.
O contexto da escola pesa na história. Trata-se de uma unidade em área carente e rural, exatamente o tipo de lugar onde a falta de material didático deixa de ser detalhe e vira obstáculo diário para quem quer ensinar.
O lixo que virou material didático

A matéria-prima do projeto é o que a maioria das pessoas descarta sem pensar. A professora produziu e doou brinquedos e materiais de estudo feitos com itens que iriam para o lixo, transformando descarte em recurso pedagógico.
A lista é longa e reconhecível. Entram tampinhas de garrafa pet, caixas de ovos, papelão, pratos de papelão, palitos de picolé, fita adesiva e encartes de jornal, tudo aquilo que costuma sobrar em qualquer casa.
O resultado final não parece improviso. Esses materiais viraram caixas decoradas, abecedários, fatias de pizza e cartões ilustrados, itens coloridos que passaram a fazer parte da rotina das crianças em sala de aula.
De quase 50 a 70 jogos em poucas semanas

O acervo cresceu tão rápido quanto o entusiasmo da turma. Em abril de 2022, quando a história ganhou destaque nacional, a professora já havia produzido e doado quase 50 brinquedos e materiais de estudo.
Pouco tempo depois, o número tinha aumentado de forma expressiva. Em maio de 2022, o acervo já reunia cerca de 70 jogos pedagógicos, com interfaces e propostas variadas, segundo o registro do portal Porvir.
Esse salto conta uma história por si só. Em questão de semanas, a produção continuou a todo vapor, alimentada tanto pela cobrança carinhosa dos alunos quanto pela percepção de que o método estava, de fato, funcionando.
O que dá para ensinar com uma tampinha de garrafa

A parte mais surpreendente é o alcance pedagógico de materiais tão simples. Os jogos abordam adição, subtração, multiplicação, sequências numéricas e frações, cobrindo boa parte do conteúdo que costuma travar os alunos.
Ou seja, não se trata de passatempo. As quatro operações, base de toda a Matemática escolar, são trabalhadas de forma concreta, com o aluno manipulando objetos em vez de apenas olhar números no quadro.
É aí que a brincadeira vira estratégia. Quando a criança encaixa, separa e conta peças reais, o conceito abstrato ganha corpo e o que era difícil no papel passa a fazer sentido nas mãos.
Fatias de pizza para entender frações
Entre os materiais criados, um deles resume bem a lógica do método. As fatias de pizza feitas com papelão ajudam a visualizar frações, um dos conteúdos que mais geram dificuldade nos primeiros anos.
A escolha não é aleatória. Dividir uma pizza é algo que qualquer criança entende antes mesmo de saber o que é denominador, o que transforma um conceito abstrato em algo familiar e palpável.
O mesmo raciocínio se repete nos outros itens. Abecedários, cartões ilustrados e caixas decoradas seguem a mesma linha, sempre partindo do concreto para chegar ao conteúdo formal da escola.
A turma que travou depois da pandemia

O projeto ganhou ainda mais importância pelo momento em que apareceu. Os alunos enfrentavam todos os desafios de aprendizagem acumulados após dois anos de ensino remoto, período em que muita criança perdeu ritmo e conteúdo.
O alcance da iniciativa não é pequeno. A escola atende 313 estudantes nas turmas de 4º e 5º ano, justamente a faixa em que as bases da Matemática precisam estar firmes para o que vem depois.
Nesse cenário, a brincadeira virou ponte. Reconquistar a atenção de crianças desacostumadas com a sala de aula exigia algo mais atrativo do que quadro e giz e os brinquedos entraram exatamente nessa brecha.
“Deixei de ser a professora do quarto ano”
A mudança de identidade em sala de aula foi tão marcante que a própria educadora registrou o momento. “De repente, eu deixei de ser a professora do quarto ano e passei a ser a ‘professora dos brinquedos'”, resumiu Taziana.
A frase mostra o tamanho da virada. O que era um esforço para suprir a falta de material acabou redefinindo a relação dela com toda a escola, não apenas com a sua turma.
E revela o principal indicador de sucesso. Quando os alunos passam a cobrar novidades e perguntar quando vêm os próximos jogos, o interesse deixou de ser um problema algo raro em qualquer sala de aula.
A ideia que nasceu na sala de aula da universidade
Curiosamente, o projeto não começou entre as crianças, mas entre adultos. A iniciativa de Taziana começou na sala de aula universitária, ao sentir que precisava ensinar aos futuros educadores a serem profissionais de excelência, independentemente da realidade que fossem encontrar.
A partir daí, ela mudou o enfoque das próprias aulas. A professora ressignificou para os alunos adultos a ideia da sustentabilidade no trabalho pedagógico, conscientizando os estudantes de Pedagogia sobre como são as salas de aula reais do país.
Os futuros professores viraram parte da solução. Foram os estudantes de Pedagogia da UnP que ajudaram a personalizar os materiais, transformando a teoria da faculdade em objetos que chegaram de fato às mãos das crianças.
A crítica à ideia de “escola perfeita”
Por trás do projeto existe uma provocação direta ao ensino de Pedagogia. “Sinto que às vezes o ensino da Pedagogia pode se prender muito à realidade de uma escola perfeita, em que todos os materiais estão disponíveis a todas as pessoas”, afirma a educadora.
Ela fala com a autoridade de quem vive os dois lados. “Sendo professora de uma escola pública, em uma área carente e ainda rural, sei que essa não é a realidade”, completa Taziana, apontando a distância entre o que se ensina na faculdade e o que se encontra na sala de aula.
É uma crítica construtiva, e não apenas um lamento. Em vez de esperar que o material chegasse, ela transformou a escassez em método e passou essa lição adiante para quem ainda vai entrar na profissão.
Os próximos passos: livros interativos de Matemática
O sucesso da empreitada abriu caminho para novos planos. Com a aceitação das crianças da Escola Municipal Deputado Djalma Marinho, a professora já planejava outros projetos do mesmo gênero, em parceria com atividades de extensão de diferentes cursos de graduação da UnP.
Uma das ideias mira justamente o ponto mais difícil. A proposta envolve a criação de livros interativos para assimilação de conceitos básicos da Matemática, disciplina em que, segundo ela, as crianças sentem mais dificuldade.
O princípio segue o mesmo desde o começo. É por causa dessa dificuldade que ela defende ensinar de forma simples e lúdica, aproximando o conteúdo do universo da criança em vez de exigir que a criança se adapte ao conteúdo.
Por que essa história ainda diz muito sobre a escola pública
Mesmo tendo ganhado as manchetes em 2022, o caso continua atual. A falta de material didático segue sendo realidade em muitas escolas públicas brasileiras, especialmente nas áreas rurais e periféricas, onde o improviso é parte da rotina docente.
A lição que fica vai além do reaproveitamento. O projeto mostra que criatividade pedagógica pode contornar a escassez mas também escancara que ela não deveria ser necessária, já que o esforço saiu do bolso e do tempo livre de uma única professora.
E você, teve uma professora assim na sua vida?
De tampinhas de garrafa a fatias de pizza de papelão, a história da professora Taziana Pessôa mostra que dá para transformar lixo em aprendizado e uma sala travada em uma turma que cobra a próxima brincadeira.
E você, já teve um professor que inventava o próprio material para conseguir ensinar? Acha que aprender brincando funciona mesmo? Conte nos comentários a sua experiência e marque aquele professor que merece esse reconhecimento.
