Camada milimétrica de areia tratada com cera passa a ser estudada como solução para conservar água no solo agrícola, reduzir evaporação em ambientes áridos e ampliar a produtividade de culturas irrigadas, estratégia que pode redefinir o manejo hídrico em regiões onde cada aplicação de água se tornou um recurso crítico.
Uma película de areia tratada com cera, aplicada diretamente sobre a superfície do solo em espessura milimétrica, vem sendo testada como forma de conter uma das perdas mais caras da agricultura em áreas secas: a água que evapora logo após a irrigação.
Estudos conduzidos por pesquisadores ligados à King Abdullah University of Science and Technology (KAUST) indicam que a técnica, chamada de superhydrophobic sand (SHS), pode reduzir a evaporação, preservar mais umidade na zona das raízes e elevar a produtividade de culturas cultivadas sob calor intenso e baixa disponibilidade hídrica.
Tecnologia de areia super-hidrofóbica contra evaporação
O material é composto por grãos de areia recobertos por uma película nanométrica de parafina, o que torna a cobertura altamente repelente à água.
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Em vez de ser misturada ao perfil do solo, essa areia modificada é distribuída na parte superior do terreno como uma barreira física fina.
A função é simples no conceito e relevante no campo: dificultar a passagem da água do solo para a atmosfera, sobretudo em ambientes onde sol forte, vento seco e baixa umidade do ar aceleram a evaporação superficial.
Resultados de produtividade e economia de água

Nos ensaios de campo relatados em artigo publicado em 2022 na ACS Agricultural Science & Technology, a aplicação do SHS em cobertura de 5 a 10 milímetros foi associada à redução de 56% a 78% na evaporação e ao aumento de 25% a 45% na umidade do solo.
No mesmo trabalho, experimentos multianuais com tomate, cevada e trigo apontaram ganhos de rendimento entre 17% e 73% sob irrigação convencional.
Quando a irrigação usou água salobra com 5.500 ppm de NaCl, os aumentos informados para tomate e cevada ficaram entre 53% e 208%, segundo os autores.
Esses resultados ajudam a explicar por que a tecnologia passou a receber atenção além dos laboratórios.
Em regiões áridas e semiáridas, parte expressiva da água aplicada na lavoura se perde antes de ser aproveitada integralmente pelas plantas.
Ao criar uma camada seca e repelente sobre o terreno, a cobertura super-hidrofóbica diminui essa fuga inicial e favorece a permanência da umidade em profundidades mais úteis ao sistema radicular.
Com isso, a água disponível tende a ser direcionada menos para a atmosfera e mais para processos fisiológicos ligados ao crescimento e à formação da produção.
Experimentos com tomate mostram mudanças fisiológicas
Em outro estudo, publicado na revista Plant-Environment Interactions, a equipe avaliou tomateiros sob irrigação normal e reduzida em câmaras de crescimento.
Nesse experimento, uma camada de 1 centímetro de SHS suprimiu a evaporação e elevou a transpiração das plantas em 78% e 17%, respectivamente, na comparação com solo sem cobertura.
Os pesquisadores também registraram aumento de 33% no rendimento total de frutos, além de avanços de 20% na massa seca total e de 16% no índice de colheita.
Alternativa ao mulch plástico na conservação de água
O interesse pelo método também cresce porque ele tenta cumprir a mesma função dos filmes plásticos de cobertura sem repetir um de seus principais passivos: o descarte.

Os autores do estudo da ACS descrevem o SHS como uma alternativa baseada em material mineral recoberto por cera, em vez de uma película plástica convencional.
Na divulgação institucional da pesquisa, a própria KAUST apresentou a solução como uma resposta para reduzir o consumo de água em fazendas desérticas e aliviar a pressão sobre recursos hídricos em países áridos.
Espessura da camada e desempenho agronômico
A espessura da cobertura aparece como um ponto técnico importante.
O estudo de maior repercussão em produtividade usou principalmente uma camada de 5 milímetros, enquanto trabalhos posteriores passaram a comparar configurações de 5 e 10 milímetros.
Em um artigo publicado em 2025 na HortScience, pesquisadores relataram que, em tomate, o SHS de 5 mm elevou a produção em 27% e o de 10 mm em 40% em relação ao solo descoberto.
Os resultados ficaram próximos aos obtidos com mulches plásticos branco e preto utilizados no mesmo ensaio.
Os autores afirmaram ainda que, considerados em conjunto com os estudos anteriores, os resultados apontam a camada de 10 milímetros como a mais promissora para aumentar a eficiência da irrigação onde a água é fator limitante.
Efeitos no solo e nas comunidades microbianas
Embora a lógica de aplicação pareça direta, os estudos mostram que o efeito não se resume a “tampar” o chão.
No experimento com tomateiros, o grupo observou mudanças em indicadores fisiológicos associados ao uso da água, como maior abertura estomática, aumento da condutância estomática e elevação do índice de clorofila.
Já no trabalho de campo, a equipe relatou que a cobertura não alterou as comunidades microbianas da região solo-raiz-rizosfera, de acordo com análises baseadas em 16S rRNA.
Esse dado é considerado relevante para qualquer tecnologia que permaneça no solo durante o ciclo da cultura.
A visibilidade do SHS também decorre da combinação entre simplicidade operacional e resposta agronômica mensurável.
Em vez de compensar perdas com mais água, a proposta atua exatamente no ponto em que o desperdício começa: a superfície exposta do solo.
Essa mudança de foco faz diferença em sistemas instalados em áreas onde cada lâmina de irrigação pesa no custo de produção e na própria viabilidade econômica da atividade agrícola.
Por isso, o método segue em avaliação para diferentes usos ligados à agricultura e à revegetação em ambientes secos, enquanto pesquisadores buscam definir em quais condições de solo, clima e manejo a cobertura entrega os melhores resultados.

