Esculpida na rocha e habitada desde cerca de 7.000 a.C., Matera atravessou milênios sem virar ruína e segue viva no sul da Itália até hoje.
Pouca gente imagina que, no sul da Itália, existe uma cidade que não foi construída sobre o solo, mas escavada diretamente na rocha, habitada de forma contínua desde cerca de 7.000 a.C. e que funciona até hoje como um organismo urbano vivo. Trata-se de Matera, na região da Basilicata, considerada um dos assentamentos humanos mais antigos do mundo ainda em uso contínuo.
Diferente de sítios arqueológicos abandonados, Matera nunca virou ruína. Ela atravessou milênios sendo adaptada geração após geração, mantendo sua função habitacional, religiosa e produtiva até os dias atuais.
Uma cidade inteira talhada no calcário ao longo de milênios
Os famosos Sassi di Matera — Sasso Caveoso e Sasso Barisano — são conjuntos urbanos formados por casas, ruas, escadarias, igrejas, cisternas e celeiros escavados diretamente em paredões de calcário. Cada “casa” começou como uma gruta simples e, ao longo do tempo, foi sendo ampliada, dividida e conectada a outras estruturas.
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O crescimento da cidade ocorreu de forma vertical e orgânica: muitas vezes, o telhado de uma casa é o chão da casa acima, criando um emaranhado urbano que parece caótico, mas segue uma lógica funcional extremamente eficiente.
Conforto térmico natural sem tecnologia moderna
Um dos aspectos mais impressionantes de Matera é o seu desempenho térmico natural. Mesmo sem aquecimento central ou ar-condicionado, as casas escavadas mantêm temperaturas internas relativamente constantes ao longo do ano, geralmente entre 15 °C e 18 °C.
Isso acontece porque a rocha calcária funciona como um isolante térmico natural. No verão, o calor externo demora a penetrar; no inverno, o frio não invade rapidamente os ambientes. Esse princípio passivo de arquitetura bioclimática só começou a ser valorizado pela engenharia moderna milhares de anos depois.
Um sistema hidráulico invisível e extremamente avançado
Muito antes de encanamentos modernos, Matera já possuía um sistema hidráulico coletivo altamente sofisticado. A cidade foi projetada para captar cada gota de chuva possível. Telhados, escadarias e ruas conduziam a água para cisternas subterrâneas escavadas na rocha, algumas com capacidade para milhares de litros.
Essas cisternas abasteciam famílias inteiras durante longos períodos de seca e permitiram que a cidade sobrevivesse em uma região com recursos hídricos limitados. O sistema era tão eficiente que continuou em uso por séculos.
Da pobreza extrema ao reconhecimento mundial
Apesar de sua engenhosidade, Matera passou por um período dramático no século XX. Até os anos 1950, milhares de pessoas viviam nos Sassi em condições sanitárias precárias, dividindo espaço com animais. O governo italiano chegou a classificar a cidade como “vergonha nacional” e removeu grande parte da população.
O que parecia ser o fim acabou se tornando um ponto de virada. A partir das décadas seguintes, estudos históricos, arquitetônicos e ambientais mostraram que Matera era um patrimônio único da humanidade. Em 1993, os Sassi di Matera foram declarados Patrimônio Mundial da UNESCO.
Cidade viva, habitada e estudada até hoje
Hoje, Matera não é um museu morto. Muitas das casas escavadas voltaram a ser habitadas, outras viraram hotéis, restaurantes, centros culturais e igrejas ainda em funcionamento. A cidade também se tornou um laboratório vivo para arquitetos, engenheiros e urbanistas interessados em soluções sustentáveis de baixo impacto.
Além disso, Matera ganhou projeção internacional ao servir de cenário para filmes históricos e religiosos, reforçando sua imagem de cidade fora do tempo.
Um modelo ancestral que desafia a arquitetura moderna
A existência de Matera desafia a ideia de que conforto, eficiência e sustentabilidade dependem de tecnologia avançada. Por quase 9 mil anos, uma cidade inteira funcionou explorando apenas geologia, clima e conhecimento empírico, criando soluções que muitos projetos contemporâneos ainda tentam replicar.
Mais do que uma curiosidade histórica, Matera é a prova de que algumas das respostas para o futuro da arquitetura já foram descobertas no passado.


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