Na ROG.e 2026, no Rio de Janeiro, duas diretoras da Petrobras detalharam o roteiro que falta cumprir na Bacia da Foz do Amazonas antes de abrir os poços Manga, Crotalus e a extensão do Morpho: terminar a perfuração atual, tirar a amostra do óleo do fundo do mar e só depois, um poço de cada vez, repetir a operação inteira três vezes
A Petrobras vai perfurar três novos poços na Bacia da Foz do Amazonas a partir de janeiro de 2027. A informação é da Reuters, que citou a diretora de Exploração e Produção da estatal, Sylvia Anjos, na ROG.e 2026, no Rio de Janeiro.
O plano, segundo ela, é perfurar um poço atrás do outro. Nenhuma frente aberta ao mesmo tempo, até o fim de 2027.
O poço que a Petrobras ainda não terminou de furar
Antes de janeiro, falta terminar o poço que já está na água. Sylvia Anjos afirmou que a campanha do Morpho segue em andamento, com cerca de 200 metros até alcançar o núcleo do reservatório.
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O Morpho fica no bloco FZA-M-59, a 175 km da costa do Oiapoque, no Amapá, com lâmina d’água de 2.886 metros, segundo a Agência Petrobras. É nesse mesmo bloco que os três poços novos vão entrar, como esta redação já contou.
Eles já têm nome, segundo a Reuters: Manga, Crotalus e PAD Morpho.
Por que janeiro, e não um mês antes
O Ibama autorizou os três poços novos em 3 de setembro de 2026, decisão já coberta por esta redação. A perfuração deles, mostra a Reuters, só começa depois que o Morpho terminar.
A campanha é sequencial, segundo a Reuters: um poço de cada vez, nunca dois ao mesmo tempo. É essa regra, não a data da autorização, que empurra o início para janeiro de 2027.
Um problema em qualquer um dos três poços, explica a regra do Ibama, atrasa os dois seguintes. Não existe frente rodando em paralelo dentro do mesmo bloco.
O óleo já está a caminho do Rio de Janeiro
Enquanto a perfuração do Morpho não termina, a amostra do óleo já percorreu o caminho inverso, segundo a Reuters. Ela foi levada do Amapá até o Rio de Janeiro, para análise.
“Talvez seja o melhor óleo, em qualidade, que nós temos”, afirmou Renata Baruzzi, diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação, também na ROG.e 2026.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, confirmou qualidade “muito boa” do óleo. Mas avisou que a amostra ainda é pequena.
Falta fechar o volume de gás associado ao petróleo do poço, disse ela. Nenhuma das duas diretoras deu um número de barris.
Nenhuma declarou percentual de viabilidade comercial. A Petrobras trata o resultado, por enquanto, como indicativo de qualidade, não como confirmação de reserva.
R$ 3,3 bilhões pelos quatro poços juntos
A conta dos quatro poços do bloco FZA-M-59 soma R$ 3,3 bilhões, segundo um levantamento sobre os custos do projeto. É o Morpho mais os três que vêm a seguir.
Só o Morpho já consumiu R$ 842,8 milhões, segundo o mesmo levantamento. O valor cobre sonda, serviço de perfuração e logística até o fundo do mar.
Dá para comparar o tamanho: o Morpho sozinho já consumiu cerca de um quarto do valor reservado para os quatro poços juntos (R$ 842,8 milhões de R$ 3,3 bilhões, conta desta redação).
“Foi uma licença muito difícil”, diz a diretora da Petrobras
Sylvia Anjos chamou o resultado do Morpho de “uma grata surpresa”, contou na ROG.e 2026. Mas foi direta sobre o caminho até ali.
“As licenças têm sido demoradas”, disse ela. “Conseguimos a licença, foi uma licença muito difícil.”
Ela também deu um número para o calendário maior. O ciclo exploratório completo de uma área como a Foz do Amazonas pode levar cerca de dez anos, afirmou.
É o tempo entre a primeira sonda e a produção valer a pena. Isso ajuda a explicar por que a Petrobras já fala em 2027 para poços de avaliação.
O Morpho foi anunciado pouco mais de um mês antes da fala na ROG.e 2026. Os dez anos, na conta de Sylvia Anjos, contam da primeira sonda que entrou na área, não da confirmação do óleo em agosto, disse ela.
O relógio, mostra essa conta, já corre há mais tempo do que o público percebeu.
Quinze poços e US$ 2,5 bilhões: o tamanho do plano na Margem Equatorial
Os quatro poços do bloco FZA-M-59 fazem parte de um plano maior, já coberto por esta redação: US$ 2,5 bilhões, informa a Petrobras, para perfurar 15 poços em toda a Margem Equatorial, do Amapá ao Rio Grande do Norte.
O Congresso já discute os royalties antes de qualquer poço produzir
Nenhum poço da Foz do Amazonas produz óleo ainda. Mas o dinheiro que ele pode gerar já tem projeto de lei tramitando em Brasília, informa a Câmara dos Deputados.
O PL 2.396/2025, do deputado Eduardo Velloso (União-AC), propõe um fundo com 25% dos royalties para os estados do Norte. Outros 25% iriam para um fundo dos municípios da região, diz o texto do projeto.
A verba seria dividida em 50% para saúde, 30% para educação e 20% para segurança pública, diz o projeto. Entre os sete estados do Norte, não só o Amapá.
A discussão nasce cedo por um motivo simples. A distribuição de royalties do petróleo brasileiro segue a regra de onde fica o poço, mostra a legislação em vigor, e a Foz do Amazonas está em águas federais, longe da costa de qualquer estado.
Sem produção confirmada, o debate ainda é hipotético. Mas o projeto já circula no Congresso enquanto a Petrobras ainda discute, na ROG.e 2026, se o Morpho vai virar campo comercial algum dia.
O que muda para o Amapá enquanto o calendário corre
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, é do próprio Amapá. Em nota à imprensa de 14 de agosto de 2026, depois de ser informado por Magda Chambriard sobre a descoberta do Morpho, ele comemorou.

“Esse é o Amapá gigante que a gente quer”, disse na nota, “protagonista de um Brasil que cresce com desenvolvimento, preservação e oportunidades para a nossa população.”
A nota não menciona prazo algum. E o prazo é justamente o que Sylvia Anjos declarou na ROG.e 2026, mais de um mês depois: entre a primeira sonda e a produção valer a pena, o ciclo pode levar uma década inteira.
Enquanto isso, o Amapá segue como ponto de apoio logístico da operação. O Oiapoque fica mais perto da Foz do Amazonas do que qualquer outra cidade brasileira, mas o estado ainda não tem receita de royalties para mostrar.
Janeiro de 2027 marca o início de mais três poços de avaliação, explica a Reuters, não o início da produção, e essa diferença muda tudo. O calendário para o Amapá ver algum resultado prático é bem mais longo do que essa única data sugere.
A autorização de setembro de 2026, já contada por esta redação, levou meses para sair, disse Sylvia Anjos. Não há razão para esperar que o resto do processo, da avaliação à produção, seja rápido.
Por enquanto, registram as fontes consultadas, o que existe de concreto é a fila de três poços até o fim de 2027, o óleo em análise no Rio de Janeiro e um debate sobre royalties sem receita real para dividir ainda.
