BP coloca Bumerangue no centro de seus planos no Brasil e prepara nova perfuração para avaliar sua maior descoberta em 25 anos.
Segundo a Reuters, em reportagem publicada nesta segunda-feira, 21 de setembro de 2026, Gordon Birrell, vice-presidente executivo de upstream da BP, subiu ao palco da ROG.e, no Rio de Janeiro, com uma mensagem clara: a petroleira britânica quer construir um polo relevante de produção de petróleo e gás no Brasil. No centro do plano está Bumerangue, descoberta feita no pré-sal da Bacia de Santos e classificada pela própria companhia como sua maior em 25 anos.
Ainda faltam respostas sobre o tamanho comercial do reservatório e a quantidade de dióxido de carbono presente nos fluidos, mas a BP já prepara a próxima etapa. Um novo poço de avaliação deverá ajudar a mostrar quanto petróleo e gás existe realmente debaixo do Atlântico.
Bumerangue colocou o Brasil no centro dos novos planos da BP
Birrell não tratou o Brasil apenas como mais um mercado dentro do mapa global da companhia. Durante sua participação na ROG.e 2026, ele disse que o país se tornou uma parte “cada vez mais importante” da estratégia futura de exploração e produção da BP.
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A empresa quer transformar essa presença em produção de longo prazo.
A expressão utilizada pelo executivo foi “polo substancial e bem-sucedido”. A ideia é construir no país uma operação capaz de reunir grandes recursos, conhecimento técnico e projetos com vida útil de muitos anos.
Bumerangue é hoje a peça que mais chama atenção nesse desenho.
A descoberta aconteceu em 2025, mas ainda está longe da fase em que plataformas começam a retirar petróleo do fundo do mar. Primeiro, a BP precisa descobrir exatamente o que encontrou.
O primeiro poço atravessou 500 metros de hidrocarbonetos
A perfuração inicial já trouxe dimensões pouco comuns. O poço exploratório 1-BP-13-SPS atravessou uma coluna bruta de hidrocarbonetos estimada em cerca de 500 metros, segundo a BP. O reservatório é formado por rochas carbonáticas do pré-sal e ocupa uma estrutura com área superior a 300 km².
A sonda chegou ali depois de atravessar 2.372 metros de água.
Do nível do mar até o ponto final da perfuração, o poço alcançou 5.855 metros de profundidade. Bumerangue fica a aproximadamente 404 quilômetros do Rio de Janeiro, em uma área distante da costa e cercada pelos desafios típicos das operações em águas profundas.
Foi esse conjunto de resultados que levou a própria BP a classificar a descoberta como a maior feita pela companhia em 25 anos.
Um novo poço terá de mostrar onde o reservatório realmente termina
O primeiro poço provou que há hidrocarbonetos. Agora começa uma tarefa diferente.
Geólogos precisam entender a extensão lateral da acumulação, sua espessura em outros pontos e como as características do reservatório mudam ao longo da estrutura.
Birrell disse nesta segunda-feira que a BP pretende usar tecnologias sísmicas avançadas para decidir onde perfurar o próximo poço de avaliação. A sísmica funciona, de forma simplificada, como uma imagem indireta das camadas do subsolo produzida a partir do comportamento de ondas sonoras.
O executivo não apresentou um novo prazo para essa perfuração durante a ROG.e.
Meses antes, porém, a companhia havia colocado um calendário mais amplo sobre a mesa.
Plano de avaliação prevê três poços até o primeiro semestre de 2027
Em maio de 2026, Felipe Arbelaez, vice-presidente sênior de upstream da BP no Brasil, disse à Reuters que a empresa trabalhava com um programa de três poços de avaliação em Bumerangue.
A previsão apresentada naquele momento era concluir a campanha até o final do primeiro semestre de 2027. A sonda deveria ser mobilizada entre o fim de 2026 e o começo de 2027.
Esses poços não são repetição do primeiro.
Cada perfuração busca uma parte diferente da estrutura. Conforme os resultados aparecem, a empresa consegue melhorar seu modelo geológico e reduzir a margem de dúvida sobre o volume de hidrocarbonetos.
É só depois dessa fase que números mais confiáveis sobre recursos recuperáveis podem começar a ganhar forma.
A BP controla 100% do bloco de Bumerangue
A companhia britânica possui 100% de participação no bloco, enquanto a Pré-Sal Petróleo S.A., a PPSA, atua como gestora do contrato de partilha.
A área entrou no portfólio da BP em dezembro de 2022, durante o primeiro ciclo da Oferta Permanente de Partilha promovido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.
Isso deixa a empresa em uma posição diferente daquela encontrada em grandes projetos brasileiros divididos entre vários sócios.
A BP conduz a exploração e carrega diretamente o risco dessa fase. Se os próximos poços confirmarem um projeto comercial atraente, a companhia também terá uma posição central nas decisões sobre como desenvolver a área.
Antes disso, existe um problema técnico que ainda precisa ser medido com precisão.
O CO₂ elevado é uma das grandes perguntas de Bumerangue
As análises feitas ainda na sonda detectaram níveis elevados de dióxido de carbono, o CO₂, misturado aos fluidos encontrados no reservatório.
Em campos do pré-sal, petróleo, gás natural e CO₂ podem sair juntos do reservatório. Quanto maior a concentração de dióxido de carbono, mais complexo pode ficar o processamento do fluido produzido.
A empresa enviou amostras para análises laboratoriais justamente para conhecer melhor essa composição.
Em apresentação de resultados da BP, Birrell reconheceu o nível elevado detectado inicialmente, mas disse que a companhia não estava excessivamente preocupada naquele estágio. Segundo ele, a indústria possui experiência para trabalhar com reservatórios que apresentam CO₂.
Isso não torna o problema irrelevante.
Muito CO₂ pode mudar a engenharia e a conta do projeto
Saber que existe petróleo não basta para transformar uma descoberta em campo produtor.
A composição dos fluidos pode exigir equipamentos adicionais para separar o CO₂, comprimi-lo e encontrar uma solução segura para seu destino. Em projetos offshore, cada etapa acrescentada significa máquinas, energia, espaço na unidade de produção e dinheiro.
Por isso as amostras retiradas do poço são tão importantes quanto o tamanho aparente da estrutura.
Birrell disse agora na ROG.e que a companhia pretende aproveitar a experiência desenvolvida no Brasil com reservatórios de alto teor de CO₂.
O país já enfrentou esse problema em outras descobertas do pré-sal.
Em Bumerangue, a resposta virá da combinação entre laboratório, sísmica e novos poços.
A BP encontrou o reservatório longe do ponto mais alto da estrutura
Segundo a BP, o primeiro poço foi perfurado aproximadamente 500 metros abaixo da parte mais alta da estrutura geológica. Mesmo nesse ponto, encontrou a coluna de hidrocarbonetos de cerca de 500 metros.
Para os geólogos, isso aumenta o interesse sobre o que pode existir em outras partes da acumulação.
Mas não permite simplesmente multiplicar a área do reservatório pela espessura encontrada e anunciar uma quantidade de barris.
Porosidade das rochas, saturação de petróleo, pressão, composição dos fluidos e continuidade do reservatório entram na conta. Algumas dessas respostas exigem justamente as perfurações que ainda serão feitas.
Bumerangue continua sendo uma descoberta em avaliação.
Brasil oferece exatamente o tipo de projeto que a BP procura
No palco da ROG.e, Birrell explicou por que a empresa está olhando com tanta atenção para o país.
Ele citou recursos capazes de sustentar projetos durante muitos anos, mão de obra especializada, parcerias e acesso ao mercado internacional pelo Atlântico. Também mencionou instituições e regras capazes de suportar empreendimentos que exigem grandes investimentos e levam anos entre a descoberta e a produção.
O pré-sal reúne boa parte dessas características.
Uma descoberta offshore pode exigir bilhões de dólares antes do primeiro barril chegar à superfície. É preciso perfurar, confirmar o reservatório, projetar poços produtores, contratar sistemas submarinos e instalar uma unidade capaz de processar petróleo e gás no mar.
Bumerangue ainda está muito antes desse ponto. A BP, porém, já fala em construir um polo.
A descoberta surgiu em um momento de retomada da exploração global
O interesse por Bumerangue também aparece dentro de uma mudança maior na estratégia de grandes petroleiras.
Após anos em que parte da indústria direcionou mais capital para transição energética e reduziu o entusiasmo por novas fronteiras petrolíferas, companhias como a própria BP voltaram a destacar crescimento da exploração e produção.
Quando anunciou Bumerangue em agosto de 2025, a empresa informou que aquela havia sido sua décima descoberta do ano.
No mesmo comunicado, a BP dizia buscar crescimento de sua produção global de upstream para algo entre 2,3 milhões e 2,5 milhões de barris de óleo equivalente por dia em 2030.
Uma descoberta grande em Santos pode ajudar nessa estratégia, desde que sobreviva às próximas etapas técnicas e econômicas.
Bumerangue está dentro da bacia que domina a produção brasileira
A Bacia de Santos concentra grandes campos do pré-sal brasileiro. Em julho de 2026, o país produziu 3,728 milhões de barris de petróleo por dia, segundo dados consolidados da ANP, além de 173,72 milhões de metros cúbicos diários de gás natural.
Búzios, também no pré-sal de Santos, sozinho produziu mais de 1,1 milhão de barris de petróleo por dia naquele mês.
Bumerangue não pode ser colocado na mesma escala enquanto não houver avaliação suficiente.
Mas é nesse ambiente geológico, cercado por décadas de aprendizado técnico, fornecedores especializados e operações de águas profundas, que a BP tenta transformar uma descoberta em sua futura base de produção brasileira.
Ainda não existe plataforma, produção ou decisão final de investimento
O tamanho das estruturas encontradas pode fazer Bumerangue parecer um projeto muito mais avançado do que realmente é.
Ainda não existe decisão final de investimento para desenvolver o campo. Também não foi anunciada uma plataforma de produção, capacidade diária definitiva ou data para o primeiro óleo.
Essas decisões dependem do que os próximos poços mostrarem e de quanto custará produzir os hidrocarbonetos encontrados.
A presença de CO₂ entra nessa conta. A produtividade dos poços também. Depois vêm preços esperados do petróleo, impostos, equipamentos, logística e cronograma.
Uma descoberta pode ser geologicamente enorme e ainda enfrentar anos de trabalho antes de produzir comercialmente.
O próximo poço pode definir o tamanho da aposta brasileira da BP
A primeira perfuração abriu uma estrutura de mais de 300 km² e encontrou 500 metros de hidrocarbonetos. O laboratório trouxe novas perguntas sobre CO₂. Agora a sísmica precisa indicar onde a sonda deve voltar a furar.
É nessa próxima etapa que o discurso feito por Gordon Birrell no Rio começa a encontrar a geologia.
A BP quer um polo substancial de petróleo e gás no Brasil. Bumerangue é hoje sua principal aposta para chegar lá, mas serão os próximos poços que dirão se a maior descoberta da companhia em 25 anos também poderá virar um dos grandes projetos produtores do pré-sal.

