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Pecuaristas que mantêm lotação moderada e adubação no pasto guardam 162 toneladas de carbono por hectare no solo, contra 102 no pasto degradado, mostra experimento da Embrapa no interior paulista

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 20/10/2026 às 06:30 Atualizado em 20/10/2026 às 08:20
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Pecuaristas que recuperam pasto degradado com adubação moderada e uma quantidade equilibrada de gado podem guardar no solo 162 toneladas de carbono por hectare, contra 102 toneladas da pastagem abandonada, mostram experimentos de longa duração da Embrapa no interior paulista divulgados pela Agência FAPESP em 19 de outubro

Para muito produtor rural, falar em carbono parece assunto distante da rotina da fazenda. Os resultados de uma pesquisa da Embrapa mostram, porém, que o manejo do pasto mexe diretamente com a quantidade de carbono guardada debaixo do capim.

Segundo a Agência FAPESP, experimentos conduzidos no interior paulista compararam pastagens degradadas com áreas recuperadas sob diferentes níveis de adubação, irrigação e lotação de animais.

A conclusão chama atenção pelo que não esperava. O sistema que mais acumulou carbono não foi o que recebeu mais adubo nem o que teve mais gado por hectare, e sim o de intensificação moderada.

Carbono no primeiro metro do solo subiu de 102 para 162 toneladas por hectare

Na área de intensificação moderada, o estoque de carbono no primeiro metro do solo passou de 102 para 162 toneladas por hectare entre 2011 e 2020, conforme o coordenador do projeto, o físico Ladislau Martin Neto.

Isso representa um acréscimo médio de aproximadamente 2 toneladas de carbono por hectare ao ano em relação ao estoque da pastagem degradada, segundo o pesquisador da Embrapa Instrumentação.

Além disso, as análises mostraram que parte importante desse carbono adicional veio da própria forrageira cultivada na pastagem, o capim que alimenta os animais.

Pastagem degradada com gado em sistema tradicional de produção, comparada no experimento da Embrapa no interior paulista
Sistema tradicional de produção, com área de pastagem degradada (foto: Rolando Pasquini Neto)

Fórmula vencedora usa capim adaptado e gado nelore

A pesquisadora Patrícia Perondi Anchão Oliveira, que lidera o experimento de campo, explica que o modelo com mais carbono não exige tecnologia inacessível para o produtor brasileiro.

Pelo contrário, ele combina capins adaptados ao clima do país com gado de origem indiana, como o nelore. “Esse já é um caso de sucesso na pecuária brasileira”, afirmou a pesquisadora à Agência FAPESP.

Segundo ela, trata-se de um sistema amplamente adotado pelos pecuaristas. O que muda o resultado é o manejo correto do solo, com correção da acidez, adubação e lotação equilibrada.

Mais adubo e mais gado não significaram mais carbono

Outro estudo, publicado na revista Soil & Tillage Research, comparou combinações de adubação nitrogenada, irrigação e lotação. Na pastagem degradada, o estoque foi de cerca de 102 toneladas por hectare no primeiro metro.

No sistema de alta lotação sem irrigação, o número chegou a 139 toneladas. Já a área com 200 quilos de nitrogênio por hectare ao ano e lotação moderada atingiu as 162 toneladas.

O resultado mais curioso veio da intensificação máxima. Com irrigação, alta adubação e muito gado, o estoque ficou em 111 toneladas, sem aumento significativo em relação à pastagem degradada.

“O equilíbrio parece ser o mais importante”, resumiu Martin Neto. Ou seja, empurrar a produção ao limite não garante um solo mais rico em carbono.

Pastejo pesado tira do capim a força para rebrotar

Há uma explicação biológica plausível, segundo a reportagem. Quando a pressão de pastejo é muito alta, os animais removem uma parcela maior da biomassa e reduzem a capacidade de recuperação das plantas.

Com lotação moderada, por outro lado, a forrageira recompõe mais rápido a parte aérea e as raízes. Dessa forma, aumenta a quantidade de carbono que entra no solo ao longo do tempo.

Para comprovar isso, os pesquisadores analisaram a assinatura isotópica do carbono, que permite separar o que é herança da vegetação original do que foi incorporado depois pelo capim.

Nos primeiros 30 centímetros, os lotes com lotação moderada somaram 52 toneladas de carbono por hectare, contra 37 toneladas no sistema de alta lotação.

Pasto manejado guarda 148 toneladas ligadas aos minerais

A equipe também quis saber como esse carbono está armazenado. Depois de mais de duas décadas de manejo, a pastagem tinha 148 toneladas por hectare de matéria orgânica associada aos minerais do solo, contra 92 na área degradada.

Essa forma de carbono é importante porque tende a ficar mais tempo no solo. Segundo Martin Neto, a associação da matéria orgânica com o componente mineral é um dos mecanismos que mais seguram o carbono.

As análises em escala nanométrica foram feitas na Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, porque o equipamento ainda não existe na América do Sul, de acordo com a Agência FAPESP.

Solo bem manejado retém 250% mais nutrientes na superfície

O ganho não é só climático. Na camada de até 5 centímetros, a capacidade de troca catiônica da pastagem bem manejada foi cerca de 250% maior que a da degradada.

Esse indicador mede, de forma simplificada, quanto o solo consegue segurar nutrientes como cálcio, magnésio e potássio, deixando-os disponíveis para as plantas.

“A matéria orgânica é a vida do solo”, diz Martin Neto. Segundo ele, aumentar a matéria orgânica significa melhorar a retenção de nutrientes e favorecer a produtividade.

Medição mais barata pode abrir caminho para crédito de carbono

Segundo o pesquisador, os resultados publicados na revista Geoderma abrem a perspectiva de remunerar produtores pelo carbono adicional guardado no solo, por meio da venda de créditos de carbono.

Para isso, é preciso medir com confiança quanto carbono entrou e permanece na terra. Por isso, a pesquisa também validou um método mais simples e barato, baseado em espectroscopia no infravermelho próximo.

O estudo usou 576 amostras de um consórcio de pastagem com feijão-guandu, sendo 480 para calibração e 96 para validação do método.

País tem cerca de 50 milhões de hectares para recuperar

A Agência FAPESP cita uma área potencial de recuperação de cerca de 50 milhões de hectares no Brasil. Num cenário hipotético de 2 toneladas por hectare ao ano durante dez anos, seria cerca de 1 bilhão de toneladas de carbono.

O próprio texto ressalta que essa conta é uma extrapolação teórica, não uma previsão. Mesmo assim, ela dá a dimensão do que está em jogo quando se fala em pasto degradado.

Vejo nesse resultado uma mensagem simples para quem cria gado. Recuperar o pasto com equilíbrio, como mostra a experiência do sítio que saiu de pastagem degradada no interior de São Paulo, pode render mais do que só capim.

Se o carbono guardado no pasto virasse dinheiro, você mudaria a lotação de gado na sua propriedade?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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