Programa etíope mobilizou jovens desempregados, remunerou equipes pelo volume de paralelepípedos assentados e transformou a pavimentação urbana em renda, capacitação e capital inicial para pequenos negócios, sem tratar as 400 mil oportunidades como empregos permanentes.
Para enfrentar o desemprego urbano, cidades da Etiópia mobilizaram jovens desempregados para pavimentar ruas pedra por pedra. Entre o início da fase analisada, em 2014, e a publicação do levantamento, em dezembro de 2017, o modelo criou 400 mil oportunidades de trabalho nas cidades participantes.
As informações foram publicadas em 11 de dezembro de 2017 pelo Banco Mundial, instituição internacional de financiamento e conhecimento para o desenvolvimento. A ação fazia parte da fase II do Programa de Desenvolvimento da Governança Local Urbana da Etiópia, identificada pela sigla ULGDP II e cofinanciada pela instituição e pelo governo da Etiópia.
Desemprego urbano levou cidades a escolher obras com mais trabalho manual
O desemprego tinha peso maior nas cidades etíopes. No contexto registrado em 2016, 15% dos domicílios urbanos tinham um adulto desempregado, enquanto a parcela ficava abaixo de 5% nas áreas rurais. Em Adis Abeba, a capital, o número chegava a 23,5% dos domicílios.
-
Cana-de-açúcar entra em ritmo acelerado no interior de São Paulo, exige três turnos durante quase 24 horas e faz usina projetar 3,05 milhões de toneladas após chuvas impulsionarem uma safra que já supera as expectativas em São José do Rio Preto
-
Irã afirma estar perto de fechar com Omã um acordo que redesenha as rotas do estreito por onde passa boa parte do petróleo mundial, e a proposta descarta tanto a rota norte quanto a rota sul
-
Quase R$ 32 milhões estão esquecidos em gavetas pelo Brasil: 3,19 bilhões de moedas de 1 centavo deixaram de ser fabricadas há mais de 20 anos e algumas podem valer até R$ 100
-
Sem deixar toda a obra nas mãos de grandes empreiteiras, programa na Nicarágua organizou moradores para assentar blocos de concreto, pavimentou 410 quilômetros de estradas, formou mais de 280 grupos comunitários e ajudou a criar mais de 9 mil trabalhos temporários
A pressão também vinha de uma população muito jovem. Em 2017, mais de 70% dos cerca de 100 milhões de habitantes tinham menos de 30 anos. A faixa entre 15 e 29 anos já representava mais da metade das pessoas em idade de trabalhar.

Nesse quadro, os municípios escolheram uma forma de construção que dependia mais de pessoas e menos de grandes máquinas. A pavimentação com paralelepípedos assentados à mão permitiu melhorar as vias e direcionar renda a moradores que tinham dificuldade para encontrar trabalho remunerado.
Pagamento por produtividade transformou cada trecho concluído em renda
As cidades não entregavam os projetos de paralelepípedos diretamente a empreiteiras privadas. Elas mobilizavam trabalhadores desempregados para organizar e executar o serviço, com fileiras de pedras colocadas e ajustadas manualmente.
A remuneração não seguia uma diária fixa. Cada participante recebia pela quantidade de trabalho concluída, o que colocou a produção realizada no centro do pagamento. Assim, a obra pública funcionava como uma atividade remunerada ligada ao resultado entregue.
O dinheiro obtido não era apresentado apenas como apoio imediato. A intenção também era formar um capital inicial, uma reserva que pudesse ajudar o trabalhador a começar outra atividade depois da pavimentação.
Cooperativas uniram pavimentação, gestão financeira e acesso a contratos
Os jovens atuavam em cooperativas, grupos nos quais os participantes dividiam responsabilidades e acumulavam experiência prática. Essa organização ajudava a transformar o canteiro de obras em um espaço de aprendizado sobre trabalho coletivo e administração.
O pacote incluía treinamento em gestão financeira e participação em licitações. Licitação é o processo usado pelo poder público para escolher quem fornecerá um serviço ou executará uma obra. Aprender a preparar propostas abria caminho para que os grupos disputassem novos contratos.

Em outra fase do programa, a participação feminina também teve importância especial porque as jovens etíopes enfrentavam condições piores de entrada no mercado de trabalho e de renda. A presença nas obras abria uma possibilidade concreta de remuneração e experiência profissional.
Renda dos paralelepípedos ajudou trabalhadores a abrir outras atividades
Parte dos participantes usou o dinheiro acumulado para iniciar pequenos negócios. Entre os casos observados estavam lojas, fabricação de tijolos, agricultura urbana e condução de táxis de três rodas.
Essas atividades mostram como o pagamento da obra podia funcionar como semente para o trabalho por conta própria. Em cidades com poucas vagas formais, o capital inicial criava condições para começar outra fonte de renda.
Os exemplos têm caráter ilustrativo e não significam que todos os trabalhadores abriram empresas ou alcançaram renda estável. As visitas às cidades participantes encontraram antigos assentadores de paralelepípedos em outras atividades econômicas após os projetos.
Pavimentação urbana melhorou ruas enquanto o dinheiro circulava nas cidades
O ULGDP II não nasceu como um programa de emprego. Seu objetivo inicial era fortalecer a gestão dos governos urbanos e melhorar a infraestrutura e os serviços. As obras de paralelepípedos, porém, viraram o maior item isolado de gasto com infraestrutura em muitas cidades participantes.
Ao colocar as pedras manualmente, os trabalhadores entregavam ruas pavimentadas e recebiam por produção. O mesmo orçamento público atendia, assim, a duas necessidades: melhoria das vias urbanas e criação de renda durante a execução.
O modelo não elimina o desemprego urbano nem garante trabalho permanente. Ele mostra que uma obra pública pode ser planejada para deixar mais do que uma rua pronta, oferecendo experiência, capacitação e capital inicial a quem estava fora do mercado.
A experiência etíope reuniu 400 mil oportunidades de trabalho entre 2014 e dezembro de 2017, pavimentação manual e preparação para pequenos negócios. Seu impacto está na conexão entre infraestrutura urbana e renda local, sem confundir atividade remunerada de obra com emprego permanente.
Cidades brasileiras deveriam usar obras de pavimentação para capacitar e remunerar moradores desempregados? Comente e compartilhe a publicação.
