Cubos porosos de 23 centímetros exploram a evaporação para retirar calor do ambiente; queda de quase 7 °C foi medida perto de uma peça abastecida com água.
Uma parede de cerâmica formada por cubos impressos em 3D está sendo desenvolvida na Áustria como alternativa de baixo consumo energético para amenizar o calor. Em um experimento controlado, pesquisadores mediram uma redução de quase 7 °C nas proximidades de um cubo cheio de água.
Desenvolvida na Universidade Técnica de Graz, conhecida como TU Graz, a solução combina a impressão tridimensional com um princípio físico utilizado há séculos: o resfriamento provocado pela evaporação da água.
O resultado de quase 7 °C, porém, não representa uma redução comprovada da temperatura média de um cômodo inteiro. Segundo a universidade, a medição foi feita na área imediatamente próxima ao cubo durante um teste realizado em um sótão quente.
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Os pesquisadores relataram que o efeito também era perceptível no restante do ambiente. Os dados divulgados, entretanto, não apresentam uma medição equivalente para toda a sala nem demonstram que o sistema já possa substituir aparelhos de ar-condicionado.
Parede de cerâmica transforma água em mecanismo de resfriamento
Os cubos foram desenvolvidos pelo Instituto de Arquitetura e Mídia da TU Graz. Cada peça tem aproximadamente 23 centímetros de lado e é produzida por uma impressora 3D a partir de uma mistura de argila cerâmica.
Depois da impressão, os objetos são queimados em temperaturas relativamente baixas. O objetivo é manter a cerâmica altamente porosa, permitindo que ela absorva e distribua água por sua estrutura.
De acordo com o comunicado publicado pela TU Graz, a água entra nos poros pela ação de forças capilares e se espalha pelas formas internas do cubo. Ao evaporar, ela absorve calor das proximidades e reduz a temperatura do ar ao redor.
A professora associada Milena Stavric explicou que o princípio já aparece há séculos em recipientes de barro e em torres de vento tradicionais. A principal inovação do projeto, segundo ela, está na possibilidade de fabricar geometrias complexas e otimizadas por meio da impressão 3D.
Essas formas aumentam a superfície de contato entre a água e o ar sem exigir grandes volumes de material. Quanto maior a área disponível para a evaporação, maior pode ser a retirada de calor das proximidades.
Geometria interna amplia a superfície de evaporação
A estrutura dos cubos emprega uma geometria conhecida como superfície mínima triplamente periódica, ou TPMS. Ela forma uma rede contínua de curvas e canais no interior da peça.
O formato permite criar uma superfície extensa dentro de um objeto relativamente pequeno. Ao mesmo tempo, reduz a quantidade de argila necessária para formar cada unidade.
A origem técnica do projeto aparece na dissertação de mestrado de Kristijan Ristoski, registrada pela universidade em 7 de novembro de 2024. O trabalho recebeu o título de Clay 3D Printed Triply Periodic Minimal Surface Structures for Energy Efficient Evaporative Cooling.
O registro do estudo no Shape Lab da TU Graz identifica Ristoski como o estudante responsável por investigar estruturas TPMS de argila impressas em 3D para resfriamento evaporativo energeticamente eficiente.
Posteriormente, o pesquisador trabalhou na integração dos cubos e do sistema de abastecimento de água em uma parede demonstrativa.
Durante o teste realizado no sótão da TU Graz, um cubo abastecido com água produziu uma queda de temperatura de quase 7 °C em sua proximidade imediata. Ristoski declarou que a sensação de resfriamento era claramente perceptível em todo o cômodo.
A universidade não divulgou, no material público sobre o projeto, detalhes como duração do experimento, quantidade e posição dos sensores, consumo de água ou redução média registrada em toda a área do sótão.
Parede de demonstração mede dois metros por dois metros
Uma parede independente de argila, com dois metros de altura por dois metros de largura, foi montada no Campus Neue Technik da TU Graz, na rua Stremayrgasse, em Graz.
O protótipo foi apresentado em 29 de julho de 2026. A equipe identificada pela universidade inclui Kristijan Ristoski, Julian Jauk, Robert Scot Mcleod e Milena Stavric.
Além da instalação no campus, a tecnologia foi colocada em exposição no Museu da Percepção, também localizado em Graz. Os visitantes podem observar a estrutura formada pelos módulos cerâmicos e experimentar seu efeito de resfriamento.
Segundo a cobertura publicada pelo portal especializado 3Dnatives, o projeto foi executado em colaboração com o Instituto de Física das Construções, Serviços Prediais e Construção da TU Graz.
O trabalho recebeu financiamento da Austria Wirtschaftsservice, empresa pública austríaca de promoção econômica, dentro de um programa voltado ao desenvolvimento de provas de conceito.
A existência da parede demonstrativa não significa que a tecnologia já esteja disponível como produto comercial. A própria universidade convida planejadores e empresas interessados nas possíveis aplicações a entrar em contato com a equipe, indicando que o sistema continua em desenvolvimento.
Pesquisadores testam fungos, serragem e sedimentos
A equipe também experimenta maneiras de aumentar a porosidade dos cubos. Uma das abordagens envolve adicionar culturas de fungos e serragem à mistura de argila.
O micélio, rede formada pelos filamentos dos fungos, cresce dentro do material antes da etapa de queima. Quando a peça é levada ao forno, tanto o micélio quanto a serragem são queimados.
O processo deixa uma rede de micro e macroporos na cerâmica. A expectativa mencionada pelos pesquisadores é que esses espaços facilitem a distribuição da água e ampliem o desempenho do resfriamento evaporativo.
Isso não significa que permaneçam fungos vivos dentro da parede terminada. O material orgânico é eliminado durante a queima e sua função é ajudar na formação dos poros internos.
Outra possibilidade estudada é o aproveitamento de sedimentos retirados do lago Neusiedl. O lago raso precisa ser dragado regularmente para retardar seu assoreamento, e grande parte do material removido era descartada sem aproveitamento.
A equipe avalia se esses sedimentos podem ser incorporados a novas misturas para impressão 3D. Trata-se de uma possibilidade investigada, não de uma confirmação de que os cubos responsáveis pela queda de quase 7 °C tenham sido fabricados com material do lago.
Tecnologia ainda está em fase de prova de conceito
Os pesquisadores apontam possíveis usos em residências, escritórios, escolas, áreas públicas e locais de espera. A proposta é fornecer algum resfriamento onde árvores e outras soluções urbanas não sejam suficientes para amenizar o calor.
A tecnologia utiliza água como elemento essencial. Portanto, afirmações de que a parede funciona permanentemente sem recursos adicionais precisam considerar a necessidade de abastecimento e reposição da água perdida durante a evaporação.
Também não foram apresentados dados públicos sobre custo de fabricação, consumo de água por hora, manutenção, durabilidade ou desempenho contínuo em edifícios ocupados.
A queda de quase 7 °C deve ser entendida como resultado de uma configuração experimental específica e medida perto de um cubo cheio de água. Ainda não foi demonstrado que uma parede completa possa reduzir nessa mesma proporção a temperatura média de qualquer ambiente.
O projeto mostra, contudo, que a combinação entre argila porosa, geometrias complexas e fabricação digital pode transformar um princípio antigo de resfriamento em um componente arquitetônico moderno. A próxima etapa dependerá de testes mais amplos que determinem sua eficiência, consumo de recursos e viabilidade de aplicação fora dos espaços demonstrativos.

