Fenômeno extremo ocorre quando a anomalia no Pacífico supera 2°C e pode ampliar estiagens, tempestades, ondas de calor, problemas no abastecimento, impactos agrícolas e riscos à saúde em diferentes regiões brasileiras durante episódios mais intensos
O Super El Niño é a forma mais extrema do fenômeno de aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Enquanto um El Niño tradicional é caracterizado por temperaturas pelo menos 0,5°C acima da média durante cinco períodos consecutivos de três meses na região Niño 3.4, a classificação extrema ocorre quando a anomalia supera 2°C.
Esse aquecimento mais intenso pode ampliar impactos climáticos no Brasil, com efeitos diferentes entre as regiões.
Entre os riscos apontados estão estiagens prolongadas, chuvas severas, ondas de calor, redução do nível dos rios, prejuízos à agricultura, problemas no abastecimento de água e aumento da pressão sobre serviços de saúde.
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A região Niño 3.4 fica no Pacífico equatorial central e é utilizada como referência para acompanhar a intensidade do fenômeno.
Uma anomalia acima de 2°C em relação à média histórica de longo prazo coloca o episódio no patamar associado aos eventos mais extremos.
Aquecimento do Pacífico não age sozinho sobre os eventos extremos
Uma nota técnica produzida pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz ressalta que o El Niño não deve ser tratado como causa isolada dos eventos climáticos extremos.
O documento aponta outros fatores capazes de agravar os impactos, entre eles o aquecimento global, o aquecimento do Oceano Atlântico Tropical Norte e Sul, a degradação do uso do solo, o desmatamento, a urbanização desordenada e deficiências nos serviços de saneamento.
Essa combinação ajuda a explicar por que os efeitos associados ao fenômeno podem atingir áreas diferentes de formas distintas.
Na maior parte do Brasil, um dos riscos apontados é o prolongamento de períodos de estiagem. No Sul, o quadro pode envolver aumento de tempestades e volumes elevados de chuva.
Nas regiões atingidas pela seca, a redução do nível dos rios pode prejudicar o transporte hidroviário. A falta prolongada de chuva também eleva os riscos de queimadas e incêndios florestais, piora a qualidade do ar e pode pressionar o abastecimento hídrico.
Já episódios de chuva intensa podem provocar enxurradas, inundações e deslizamentos de terra. Os impactos também podem alcançar a produção agrícola, com perdas capazes de interferir na qualidade dos produtos e nos preços pagos pelo consumidor.
Ondas de calor e agricultura estão entre os pontos de atenção
Outro efeito associado a um Super El Niño é a ocorrência de períodos de calor intenso. Ondas de calor, caracterizadas por temperaturas acima da média histórica, elevam o risco de desidratação e podem aumentar a procura por atendimento devido ao desconforto térmico.
A fauna também pode ser afetada pelo calor extremo. Na agricultura e na pecuária, as temperaturas elevadas e as alterações no regime de chuvas podem resultar em perda de qualidade e aumento de preços.
No Sul, o excesso de chuva pode gerar problemas adicionais para determinadas culturas. O material aponta arroz e café entre os produtos que podem sofrer impactos capazes de chegar ao consumidor na forma de preços maiores ou pior qualidade.
Os efeitos, portanto, não se limitam à temperatura do oceano. Podem atingir infraestrutura urbana, transporte, abastecimento de água, saúde pública e produção de alimentos.
Três episódios ultrapassaram o patamar extremo nas últimas quatro décadas
Nos últimos 40 anos, três episódios são citados como Super El Niño: 1982-1983, 1997-1998 e 2014-2016. Todos ultrapassaram o patamar de 2°C de anomalia no Pacífico.
O episódio de 1982-1983 chegou a um pico de 2,5°C. No Brasil, foi associado ao aumento das chuvas no Sul e a secas severas nas regiões Norte e Nordeste. Blumenau, em Santa Catarina, permaneceu submersa durante semanas.
Entre 1997 e 1998, o pico chegou a 2,4°C. Segundo os pesquisadores Gilvan de Oliveira e Prakki Satyamurty, do CPTEC e do Inpe, o fenômeno elevou as temperaturas do Sudeste entre 1°C e 4°C durante o inverno. O período também registrou excesso de chuva no Sul e seca no Norte e Nordeste.
O episódio de 2014-2016 também alcançou 2,4°C. Houve forte estiagem na Amazônia, recordes de temperaturas elevadas em grande parte do país e chuvas intensas que afetaram mais de 322 mil pessoas na região Sul.
Foi o último El Niño citado no material a ultrapassar oficialmente o limiar de 2°C no Pacífico Tropical Central e Oriental.
O El Niño de 2023-2024, apesar dos impactos registrados no Brasil, não atingiu esse patamar. O aumento informado foi de 1,4°C, classificado como moderado.
Durante o período, ocorreram graves enchentes no Rio Grande do Sul, enquanto rios da Amazônia chegaram a níveis mínimos históricos.
A diferença entre os episódios mostra por que a intensidade do aquecimento do Pacífico é um dos indicadores acompanhados na avaliação do fenômeno, embora os impactos registrados em cada região também dependam de outros fatores ambientais e territoriais.
Esta matéria foi produzida a partir de informações apresentadas em nota técnica da Fiocruz e de dados e materiais atribuídos à NASA, ao Inmet, ao CPTEC/Inpe e ao ND Mais.
