O 5º Relatório de Transparência Salarial revela que o número de mulheres no mercado de trabalho brasileiro cresceu 11%, com destaque para mulheres negras que tiveram avanço de 29%, saltando de 3,2 milhões para 4,2 milhões de ocupadas. Mas a desigualdade salarial de 21,3% entre homens e mulheres persiste, e os setores que mais contratam, como alimentação, vigilância e manutenção, estão entre os que oferecem remuneração mais baixa no mercado.
O número de mulheres trabalhando no Brasil cresceu 11% segundo o 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado nesta segunda-feira (28). A notícia parece positiva, e em parte é: mais de 1 milhão de mulheres negras entraram no mercado de trabalho, a contratação de mulheres indígenas subiu de 8,2% para 11,2% e a de mulheres vítimas de violência doméstica avançou de 5,5% para 10,5%. Os números mostram que o país está empregando mais mulheres do que antes em praticamente todas as categorias.
O problema aparece quando se olha para onde essas mulheres estão sendo contratadas e quanto ganham. Os setores que lideram a empregabilidade feminina são serviços de alimentação (17,8%), vigilância e segurança (16,2%), manutenção e reparação de equipamentos (13,6%) e serviços para edifícios e paisagismo (13,1%). Embora o crescimento seja relevante, a concentração em atividades de prestação de serviços com remuneração média mais baixa ajuda a explicar por que a desigualdade salarial entre homens e mulheres permanece em 21,3%, um número que praticamente não se moveu apesar do aumento nas contratações.
Os setores que mais contratam mulheres no Brasil e o que isso revela
Segundo informações divulgadas pelo portal NSC, o setor de serviços de alimentação lidera as contratações femininas com 17,8% do total de postos de trabalho. Bares, restaurantes e serviços de catering mantêm-se como os maiores empregadores de mulheres, impulsionados pela retomada do consumo presencial e pela capilaridade do segmento. Na sequência, atividades de vigilância e segurança respondem por 16,2%, um avanço significativo em um setor que até recentemente era dominado quase exclusivamente por homens.
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Os serviços de reparação e manutenção de equipamentos (13,6%) e serviços para edifícios e paisagismo (13,1%) completam a lista dos quatro maiores empregadores. A composição setorial sugere que o crescimento da empregabilidade feminina está concentrado em áreas de prestação de serviços, o que é positivo pela geração de vagas, mas preocupante pela remuneração média que esses setores oferecem. A questão não é apenas quantas mulheres trabalham, mas em que condições e com qual salário.
A desigualdade salarial de 21,3% que não cede
Apesar do avanço de 11% na empregabilidade, a desigualdade salarial entre homens e mulheres permanece em 21,3%. Na prática, isso significa que para cada R$ 100 que um homem recebe, uma mulher na mesma função ganha R$ 78,70, uma diferença que se acumula ao longo de meses e anos e que afeta diretamente a capacidade de poupança, investimento e qualidade de vida das trabalhadoras.
A disparidade não é uniforme pelo país. Os estados com menor desigualdade são Acre, Piauí, Distrito Federal, Ceará, Pernambuco, Alagoas e Amapá, onde a diferença salarial é relativamente menor. Na outra ponta, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Paraná registram os maiores níveis de disparidade na remuneração, com mulheres recebendo até 29% menos que homens em funções equivalentes. A concentração da desigualdade em estados do Sul e Sudeste, regiões com maior renda média, indica que o problema se agrava justamente onde os salários são mais altos.
O crescimento de 29% na empregabilidade de mulheres negras
O dado mais expressivo do relatório é o crescimento de 29% na empregabilidade de mulheres negras, incluindo pretas e pardas, que saltaram de 3,2 milhões para 4,2 milhões de ocupadas. O avanço representa mais de 1 milhão de mulheres negras que entraram no mercado de trabalho no período analisado, um número que reflete tanto a ampliação de políticas de inclusão quanto a demanda por mão de obra em setores que expandiram suas operações.
A contratação de mulheres indígenas também cresceu, passando de 8,2% em 2023 para 11,2% em 2025. Mulheres vítimas de violência doméstica tiveram avanço de 5,5% para 10,5%, com 7% dos estabelecimentos afirmando contratar mulheres nessa situação. Os números mostram que o mercado de trabalho está se tornando mais diverso, embora a desigualdade salarial persista como obstáculo que transforma a conquista do emprego em uma vitória incompleta.
O impacto da Lei de Igualdade Salarial nas empresas brasileiras
A Lei nº 14.611, sancionada em julho de 2023, reforçou a igualdade salarial entre homens e mulheres e provocou mudanças mensuráveis nas políticas internas das empresas. A jornada flexível subiu de 40,6% para 53,9% dos estabelecimentos, o auxílio-creche avançou de 22,9% para 38,4% e as licenças-maternidade e paternidade estendidas passaram de 20% para 29,9%. Os planos de cargos e salários saltaram de 55,5% para 66,8%.
Os avanços nas políticas internas são significativos porque atacam barreiras estruturais que mantêm a desigualdade. O auxílio-creche, por exemplo, é um dos fatores que mais influencia a permanência de mulheres no mercado de trabalho, já que a responsabilidade pelo cuidado dos filhos recai desproporcionalmente sobre elas. A jornada flexível permite conciliar trabalho e vida pessoal sem abrir mão da carreira. Mas os dados mostram que, mesmo com essas melhorias, a diferença salarial de 21,3% persiste, indicando que políticas internas sozinhas não resolvem um problema que tem raízes culturais e estruturais profundas.
O que os números dizem sobre o futuro do trabalho feminino no Brasil
O relatório desenha um cenário de avanço real, porém insuficiente. Mais mulheres trabalham, mais mulheres negras e indígenas estão empregadas, mais empresas oferecem creche e jornada flexível, mas a diferença salarial de 21,3% demonstra que quantidade de vagas não é sinônimo de igualdade de condições. Enquanto as mulheres estiverem concentradas em setores de remuneração mais baixa e ganhando menos que homens nas mesmas funções, o crescimento de 11% será uma meia vitória.
O desafio para os próximos anos é transformar o aumento da empregabilidade em igualdade efetiva de remuneração. Isso exige não apenas fiscalização das leis existentes, mas também acesso a qualificação que permita às mulheres ocupar posições em setores de maior remuneração, como tecnologia, engenharia e finanças, onde a presença feminina ainda é minoritária. O Brasil avançou em contratar mulheres: falta avançar em pagá-las de forma justa.
Você sente a desigualdade salarial no seu dia a dia ou acredita que a diferença entre homens e mulheres no mercado de trabalho está diminuindo? Conte nos comentários em qual setor você trabalha e se percebe diferença de tratamento ou remuneração entre colegas.
