Um dos rios mais importantes dos Estados Unidos virou palco de uma queda de braço que pode deixar o Arizona sem água. O negociador que representa o estado nas conversas do rio Colorado bateu o pé: o Arizona não vai abrir mão da segurança hídrica em troca de nada. Os sete estados furaram o prazo e deixaram o Arizona sob risco de perder até 77% da água do rio que abastece 40 milhões de pessoas.
O impasse expõe uma disputa que se arrasta e ameaça o abastecimento de boa parte do oeste americano. Tom Buschatzke, o negociador e diretor do Departamento de Recursos Hídricos do Arizona, afirmou que seu estado não pode ser obrigado a sacrificar a própria segurança hídrica enquanto recebe praticamente nada em troca, conforme declaração oficial do órgão. A fala resume a tensão de negociações que travaram e colocaram o Arizona numa posição especialmente vulnerável.
A raiz do conflito está na incapacidade dos estados de chegarem a um acordo dentro do prazo. Os sete estados que dependem do rio Colorado não conseguiram fechar um novo plano de partilha da água, e a falta de consenso pode levar o governo federal a impor suas próprias regras de realocação para os próximos dez anos, com cortes de até 77% para o Arizona. Nenhum outro estado enfrenta uma redução tão severa no chamado cenário “sem acordo”, o que explica por que o Arizona reage com tanta firmeza.
O rio que sustenta o oeste americano

Para entender a gravidade da disputa, é preciso saber o peso do rio Colorado. Ele é uma das mais importantes fontes de água dos Estados Unidos, abastecendo cerca de 40 milhões de pessoas em sete estados, além de sustentar a agricultura e a geração de energia hidrelétrica em toda a região. É a espinha dorsal hídrica de boa parte do oeste e do sudoeste americano.
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O problema é que esse recurso vital está encolhendo. O sudoeste dos Estados Unidos vive uma seca prolongada que vem reduzindo o volume do rio e ameaçando os reservatórios que dele dependem, como os lagos Powell e Mead, os dois maiores do sistema. Especialistas alertam que os níveis desses lagos podem cair a ponto de comprometer a geração de energia das turbinas hidrelétricas, num cenário que deixou de ser hipótese distante para virar risco concreto nos próximos anos.
Por que o prazo estourou
A negociação atual tem prazo e origem bem definidos. As regras que hoje governam a partilha da água do rio Colorado datam de 2007, quando os estados firmaram um acordo válido por 19 anos, com a participação do governo federal. Esse acordo expira no fim de 2026, e é justamente por isso que os estados precisavam desenhar novas regras a tempo.
O calendário, porém, não foi cumprido. O Bureau de Reclamação dos Estados Unidos deu aos estados até novembro de 2025 para apresentar um acordo atualizado e, diante do fracasso, chegou a divulgar em janeiro um conjunto de cinco planos alternativos, que provocaram forte reação, especialmente no Arizona. Uma reunião na Casa Branca em janeiro, com a presença da governadora do Arizona, Katie Hobbs, e de governadores dos outros estados, não produziu avanço. Um novo prazo, de 14 de fevereiro, também passou sem que os sete estados chegassem a um entendimento.
A divisão entre Alto e Baixo Colorado
O cerne do impasse está numa divisão histórica entre dois blocos de estados. De um lado estão os estados do Baixo Colorado, Arizona, Califórnia e Nevada; de outro, os do Alto Colorado, formados por Colorado, Utah, Novo México e Wyoming. Cada grupo defende uma visão diferente sobre quem deve arcar com os cortes no consumo de água.
As propostas de cada lado esbarram na resistência do outro. Os estados do Baixo Colorado apresentaram, em maio, um plano para distribuir as reduções entre si ao longo de três anos, com cortes voluntários e possível compensação federal, mas os estados do Alto Colorado rejeitaram a proposta, argumentando que ela não reflete a realidade do degelo que alimenta o rio. Os estados do Alto Colorado sustentam ainda que não são obrigados a liberar tanta água quanto o Baixo Colorado gostaria, com base em um pacto que remonta a 1922, revelando o quanto a disputa é também jurídica.
A posição irredutível do Arizona

Diante do risco de sair como o grande perdedor, o Arizona endureceu o discurso. O estado seria o mais penalizado no cenário sem acordo, com cortes que podem chegar a 77% de sua fatia do rio, enquanto Nevada perderia apenas 6% e os outros cinco estados não sofreriam alteração. É uma assimetria que o Arizona considera injusta e insustentável.
Foi nesse contexto que o negociador do estado traçou sua linha vermelha. Buschatzke afirmou que as negociações podem estar num impasse lamentável, mas não chegaram ao fim, desde que os parceiros do Alto Colorado aceitem a realidade de que o Arizona não pode ser chamado a sacrificar sua segurança hídrica sem receber praticamente nada em troca. Ainda assim, ele fez questão de reforçar o compromisso do estado com o diálogo, resumindo numa frase o princípio que defende: todos os que se beneficiam da fartura do rio Colorado precisam dividir a responsabilidade de preservar a saúde do rio.
O que pode destravar o impasse
Apesar do tom duro, os envolvidos sinalizam que a porta da negociação continua aberta. Os líderes estaduais afirmaram que permanecerão à mesa, e um fator pesa a favor de novas rodadas de conversa: o desejo de evitar que a disputa acabe nos tribunais, um caminho demorado e imprevisível que ninguém parece querer trilhar. A ameaça de uma decisão judicial funciona, paradoxalmente, como incentivo ao acordo.
Buschatzke apontou ainda um possível caminho para o desbloqueio. Segundo ele, os governadores dos sete estados do rio poderiam se envolver mais diretamente nas tratativas, e talvez essa seja a melhor esperança de que as coisas avancem nesse nível mais alto de decisão. Enquanto o impasse persiste, congressistas republicanos do Arizona também pressionaram o secretário do Interior a retirar o rascunho dos planos federais de corte, alegando que eles reduziriam de forma desproporcional a fatia do estado. A conta do tempo, porém, corre contra todos: com o acordo atual expirando no fim de 2026, cada mês sem consenso aproxima o oeste americano de uma solução imposta de cima, que pode desagradar a todos os lados.
E você, acha que estados que dependem de um mesmo rio deveriam dividir igualmente os sacrifícios em tempos de escassez, ou quem consome mais deveria cortar mais? Conte aqui nos comentários a sua opinião sobre essa disputa pela água.
