De um lado, o sonho da Índia de virar potência marítima; do outro, um dos últimos povos isolados da Terra e uma floresta intocada. Ex-almirante da Marinha e hoje governador do arquipélago, Devendra Kumar Joshi promete erguer em três anos o porto e o aeroporto de um projeto de US$ 9 bilhões numa ilha remota perto do Estreito de Malaca, para desafiar o cerco da China no Índico, apesar dos indígenas shompen que vivem na floresta ameaçada.
O megaprojeto está sendo erguido em um dos pontos mais estratégicos e sensíveis do planeta. Na Ilha de Grande Nicobar, o ponto mais ao sul do arquipélago indiano de Andaman e Nicobar, tratores já derrubam floresta tropical virgem para dar lugar a um porto, um aeroporto e uma nova cidade, segundo reportagem da agência AFP replicada por veículos internacionais. A obra é a aposta da Índia para ter presença naval muito mais perto do Sudeste Asiático do que seu território continental permite.
A motivação por trás do projeto bilionário é essencialmente geopolítica. A ilha fica na entrada do Estreito de Malaca, uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo, por onde passa até 30% de todo o comércio global, e o objetivo declarado é rivalizar com os investimentos da China no Oceano Índico. Para o governo indiano, trata-se de uma questão de importância estratégica, de defesa e nacional, capaz de transformar a região em um grande polo de conectividade marítima e aérea, como afirmou o próprio primeiro-ministro Narendra Modi.
O arquipélago como “porta-aviões inafundável”

A posição geográfica do arquipélago é o que o torna tão cobiçado. As ilhas de Andaman e Nicobar formam uma cadeia que se estende por cerca de 800 quilômetros no Oceano Índico, funcionando como uma espécie de sentinela avançada da Índia diante do Sudeste Asiático. Grande Nicobar, especificamente, está a poucas centenas de quilômetros da Indonésia, muito mais perto de Malaca do que qualquer ponto da Índia continental.
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Essa vantagem estratégica não passou despercebida ao longo da história. “A Ilha de Grande Nicobar é como o porta-aviões inafundável da Índia”, resumiu Nitin Gokhale, um especialista em segurança baseado em Nova Délhi, sintetizando o valor militar da posição. Ao longo dos séculos, das medievais dinastias Chola aos britânicos, diferentes potências estacionaram navios de guerra ali, reconhecendo a importância de controlar aquele pedaço de terra no meio de uma rota comercial vital.
O gigante que Joshi promete erguer
À frente da ambição está o governador do arquipélago, o ex-almirante Devendra Kumar Joshi, que detalhou o cronograma da obra. Segundo ele, a primeira fase do projeto, orçada em US$ 4 bilhões, deve ficar pronta em três anos e inclui a construção de um porto na Baía de Galathea e de um aeroporto em Campbell Bay. É a etapa inicial de um plano muito mais amplo.
As dimensões pretendidas para a estrutura são colossais. Quando concluído, o porto de contêineres deverá movimentar mais de 20 milhões de TEUs, a unidade que mede a capacidade de carga, o que o colocaria entre os três maiores portos da Índia, segundo Joshi. Ele afirma que, no longo prazo, a instalação pode competir para se tornar o principal centro de manuseio de contêineres de toda a região do Indo-Pacífico, rivalizando com Singapura e com o Porto Klang, da Malásia. Além do porto, o plano prevê dois novos aeroportos e a ampliação de pistas antigas para faixas de três quilômetros, capazes de receber aviões cargueiros pesados.
A face militar, em segredo
Por trás da fachada comercial, há uma dimensão militar que o governo mantém em grande parte sob sigilo. As autoridades falam abertamente da transformação econômica, mas os movimentos de defesa são discretos. Ainda assim, alguns detalhes vieram à tona e revelam a natureza dupla do empreendimento.
As pistas de pouso são um exemplo claro dessa ambiguidade. Segundo Joshi, todas as novas pistas serão de uso duplo, militar e comercial, e uma delas, já modernizada na ilha de Car Nicobar, foi inaugurada em janeiro pelo chefe do Estado-Maior de Defesa da Índia, o general Anil Chauhan. Os planos governamentais preveem ainda a expansão das instalações navais e aéreas já existentes por todo o arquipélago, embora o aspecto militar do projeto, como reconhecem as próprias autoridades, permaneça amplamente secreto.
O cerco da China no Índico
Toda essa movimentação faz parte de um tabuleiro geopolítico mais amplo, no qual Índia e China disputam influência. Pequim é acusada há anos de buscar desenvolver instalações ao redor do Oceano Índico, numa estratégia que ficou conhecida como o “colar de pérolas”, um conjunto de pontos de apoio que, na visão indiana, cercaria o país. O projeto de Grande Nicobar é a resposta direta a essa percepção de ameaça.
O próprio Judiciário indiano reconheceu essa motivação. Ao analisar o projeto, o tribunal ambiental da Índia observou que a área está localizada dentro da estratégia do “colar de pérolas” da China, que as autoridades indianas buscam neutralizar sob a política “Act East”, ou “Agir a Leste”. Foi com base também nesse argumento estratégico que a corte afirmou não ter encontrado motivos sólidos para intervir nos planos, abrindo caminho para que a obra avançasse apesar das contestações ambientais e humanitárias.
Os shompen e o alerta de “genocídio”
É aqui que o projeto encontra sua faceta mais dramática e controversa. A ilha abriga povos indígenas, entre eles os shompen, caçadores-coletores que evitam qualquer contato com o mundo exterior e são descritos como um dos povos mais isolados da Terra. A floresta que o projeto pretende derrubar é justamente aquela da qual eles dependem para sobreviver.
As organizações de direitos humanos fazem um alerta severo. A ONG Survival International advertiu que as comunidades indígenas enfrentam um “genocídio em nome do megadesenvolvimento”, já que a destruição da floresta e a chegada de forasteiros poderiam introduzir doenças infecciosas contra as quais os shompen têm pouca ou nenhuma imunidade. Um grupo de acadêmicos de várias partes do mundo chegou a escrever à presidente da Índia, Droupadi Murmu, pedindo a suspensão dos planos, sob o argumento de que eles ameaçam a vida dos povos nicobarese e shompen que habitam a ilha.
Quantos indígenas vivem ali, de fato
Um ponto que merece precisão diz respeito ao número de habitantes originários da ilha, muitas vezes citado de forma imprecisa. A população indígena de Grande Nicobar é composta por cerca de 1.200 pessoas no total, incluindo dois grupos distintos: os nicobarese e os shompen. Destes, os shompen, o povo mais isolado, somam apenas algumas centenas de indivíduos, vivendo embrenhados na floresta.
Essa pequena população está no centro de um dilema ético profundo. De um lado, o governo indiano insiste que cumpriu todas as exigências ambientais e prometeu proteger os povos, comunidades, flora e fauna da ilha por meio de zonas protegidas designadas; de outro, os críticos afirmam que nenhuma zona de proteção é capaz de blindar um povo isolado do impacto de uma cidade planejada para centenas de milhares de habitantes ao seu redor. O acesso a partes de Grande Nicobar, vale notar, exige autorizações especiais, sobretudo para qualquer contato com os grupos indígenas, uma medida que existe justamente para protegê-los.
Uma expansão que não para em Grande Nicobar
O impacto do plano de desenvolvimento já começa a se espalhar por outras ilhas do arquipélago. Grande Nicobar é o carro-chefe, mas não o ponto final. O governo indiano enxerga toda a cadeia de ilhas como uma região a ser transformada, o que acende o alerta sobre outros povos isolados que vivem nesse território.
Uma das próximas ilhas na mira já foi identificada. A cerca de 400 quilômetros de Grande Nicobar, a Ilha de Little Andaman deve, segundo o almirante Joshi, “experimentar a próxima onda de desenvolvimento”, embora cerca de 143 membros da tribo onge vivam ali em isolamento, pescando em recifes de coral e caçando na floresta. A fala de um morador indígena local, registrada pela reportagem, resume a resistência desses povos: “Não precisamos de nada do governo nem de ninguém”. O caso de Grande Nicobar, portanto, pode ser apenas o primeiro capítulo de uma transformação que redesenhará todo o arquipélago.
E você, acha que a importância estratégica de um projeto como esse justifica o risco ambiental e a ameaça a povos isolados, ou existem limites que o desenvolvimento não deveria ultrapassar? Conte aqui nos comentários a sua opinião sobre esse dilema.
