Estudos em Madre de Dios mostram níveis elevados de mercúrio em comunidades indígenas, crianças e gestantes, com contaminação ligada aos rios, aos peixes consumidos pelas famílias e à atividade de mineração de ouro na região
Na Amazônia peruana, o mercúrio usado na mineração de ouro está chegando a comunidades que nem sequer extraem o metal dentro de seus territórios. O contaminante segue pelos rios, entra nos peixes e termina na alimentação das famílias. Em Madre de Dios, crianças e gestantes aparecem entre os grupos mais expostos.
A história de Bayolet mostra como esse problema pode chegar silenciosamente. Quando tinha cinco anos, ela vivia na comunidade indígena de Shintuya, às margens do rio Madre de Dios, e já havia desmaiado duas vezes na escola.
Naquela época, há cerca de uma década, pesquisadores chegaram ao local e coletaram amostras de sangue e cabelo dos moradores. Os exames identificaram exposição ao mercúrio na menina.
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Hoje, aos 16 anos, Bayolet relata dificuldades de concentração, cansaço e fraqueza. Sua mãe, Gladys Ordoñez, lembra que a comunidade dependia dos peixes do rio para alimentação.
E esse é justamente um dos caminhos usados pelo contaminante para chegar ao organismo humano.

78% das comunidades analisadas no Peru tinham níveis acima do limite da OMS
O caso de Shintuya está longe de ser isolado.
Uma análise da Mongabay reuniu 7.725 amostras de mercúrio em humanos e mais de 5.900 em peixes coletadas em diferentes áreas amazônicas do Peru, Bolívia e Brasil. O levantamento considerou 39 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024.
No Peru, foram avaliadas 3.380 amostras humanas distribuídas por 102 comunidades. Em 80 delas, o equivalente a 78,4%, os níveis de mercúrio ultrapassavam o limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde.
O metal também apareceu nos animais consumidos pelos moradores. Em pelo menos 16 comunidades da bacia do rio Madre de Dios, 846 amostras de peixes apresentaram mercúrio nos tecidos.
A alimentação, portanto, virou um ponto crítico.
Segundo Claudia Vega, do Centro de Inovação Científica Amazônica, peixes carnívoros podem acumular concentrações maiores porque se alimentam de espécies menores. Na água, o mercúrio ainda pode ser transformado em metilmercúrio, uma forma mais tóxica, absorvida pelo organismo e capaz de permanecer no corpo durante meses.

Entre crianças indígenas, 85% das amostras ultrapassaram nível de segurança
Um dos estudos avaliados acompanhou 164 crianças entre cinco e 12 anos em 14 localidades próximas à Reserva Comunal Amarakaeri. A pesquisa ocorreu entre 2015 e 2016 e teve os resultados publicados em 2020.
Os números chamaram atenção: 32,9% das crianças apresentaram níveis de mercúrio no cabelo acima do limite da OMS.
Entre os indígenas, a exposição foi bem maior.
O nível médio chegou a 4,1 mg/kg no cabelo das crianças indígenas, contra 1,6 mg/kg entre as não indígenas. No total, 85% das amostras das crianças indígenas superavam o nível de segurança de 2 mg/kg adotado pelo estudo.
Os pesquisadores identificaram associação entre a exposição e déficits cognitivos, pior condição física geral e problemas nas respostas visomotoras.
William Pan, ligado ao Estudo de Coorte Amarakaeri, afirmou que existem comunidades onde a exposição alcança níveis suficientemente elevados para que crianças e adultos apresentem déficits cognitivos significativos, com possibilidade de consequências de longo prazo.
Mercúrio também alcança gestantes e recém-nascidos
A preocupação aumenta durante a gravidez. Um estudo do projeto Coorte de Nascimentos de Madre de Dios analisou 198 pares de mães e recém-nascidos que viviam em comunidades na área de influência da mineração.
Os resultados, publicados em 2023, mostraram que 29% das mulheres tinham níveis de mercúrio no sangue acima dos parâmetros usados pelos pesquisadores com base no Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.
A concentração média chegou a 6,0 μg/L no sangue do cordão umbilical e a 3,6 μg/L no sangue materno.
De acordo com o toxicologista José Alfonso Apesteguia, o metilmercúrio pode atravessar a placenta e alcançar o feto, trazendo risco de danos ao desenvolvimento neurológico.
O problema não ficou restrito aos estudos anteriores. Entre junho e agosto de 2025, uma campanha da Direção Regional de Saúde de Madre de Dios voltou a avaliar moradores de comunidades indígenas e povoados atingidos pela atividade mineradora.
Entre as pessoas submetidas à coleta de urina, 27% apresentaram mercúrio acima do limite considerado seguro.
Além dos peixes, profissionais envolvidos nas avaliações apontaram outras formas de exposição: contato com água contaminada, presença de metais em áreas usadas por crianças para brincar e tomar banho e inalação dos vapores liberados durante a queima de mercúrio no processo de extração do ouro.
Em Madre de Dios, assim, o problema não para na área onde o garimpo acontece. O mercúrio percorre os rios, passa para os peixes e chega à mesa de comunidades distantes. Crianças e gestantes ficam justamente entre os grupos mais vulneráveis.
Fontes: análise da Mongabay baseada em 39 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024; Estudo de Coorte Amarakaeri; Coorte de Nascimentos de Madre de Dios; Direção Regional de Saúde de Madre de Dios.

