Workshop nas montanhas da Carolina do Norte demonstra passo a passo como construir cottage ecológico usando materiais naturais, fundação drenada, paredes de cob esculpidas e telhado vivo
A construção sustentável ganhou um exemplo prático impressionante com um workshop de 5 semanas realizado nas montanhas da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. O projeto demonstrou como é possível erguer uma casa completa utilizando apenas materiais naturais locais: argila, areia, palha e madeira. A técnica conhecida como cob, uma variação da tradicional taipa brasileira — resultou em um cottage funcional e esteticamente único.
De acordo com informações do canal Natural Buildings, responsável pelo registro em vídeo do workshop, todo o processo foi documentado e transformado em uma série tutorial de sete episódios. A iniciativa busca democratizar o conhecimento sobre bioconstrução e mostrar que habitações ecológicas são viáveis e acessíveis.
A técnica cob, que tem raízes milenares, voltou a ganhar destaque no contexto atual de busca por alternativas sustentáveis na construção civil.
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Esse método construtivo pode reduzir significativamente o impacto ambiental das edificações, além de proporcionar conforto térmico superior às construções convencionais.
Fundação robusta garante durabilidade da construção natural
O primeiro passo crítico na construção de uma casa de taipa é estabelecer uma fundação sólida com drenagem adequada. Segundo informações da Biohabitate, empresa especializada em bioconstrução, quando se trabalha com materiais de terra, é fundamental proteger as paredes da umidade com bases elevadas e telhados com grandes beirais.
No workshop da Carolina do Norte, a equipe iniciou cavando uma trincheira de drenagem com leve inclinação descendente. A confirmação da eficiência do sistema foi feita despejando água na parte alta e observando o escoamento. Após a validação, instalaram manta geotêxtil e preencheram a trincheira com cascalho compactado.
A fundação de pedras empilhadas cumpre dupla função: eleva as paredes de cob do solo, mantendo-as secas, e oferece suporte estrutural para o peso do sistema de parede. De acordo com artigo publicado pela UGREEN em maio de 2024, a escolha da fundação correta é crucial para garantir longevidade e estabilidade das construções em cob, sendo comum o uso de pedra, concreto ou até pneus reciclados preenchidos com terra compactada.
Sobre a fundação de pedra, foi instalada uma camada de cascalho compactado para drenagem, seguida de isolamento feito com pedaços de papelão reaproveitado. Uma camada de barbotina de argila foi aplicada sobre o papelão antes da instalação do piso de terra.
Técnica de mistura e aplicação do cob permite construção artesanal
A preparação do cob segue um método tradicional conhecido como “método da lona”, que foi o único utilizado durante toda a construção do cottage. A mistura básica combina argila, areia, palha e água em proporções específicas testadas previamente.
O processo começa com a mistura a seco de argila e areia sobre uma lona grande. Após adicionar água, os participantes pisam sobre a mistura repetidamente, dobrando a lona para criar um movimento de rolagem. Segundo a Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas, em artigo de agosto de 2024, a técnica cob se destaca pela maleabilidade, permitindo criar formas orgânicas e irregulares.
Quando a consistência ideal é atingida — uma massa coesa que mantém forma — adiciona-se palha para fornecer resistência à tração. A palha funciona como uma armadura natural, impedindo rachaduras. Conforme informações da Wikipedia sobre construção de terra, o cob pode suportar até dois andares quando as proporções e espessuras são adequadas.
Os “pães” de cob são moldados em formatos que facilitam o transporte e a construção. A aplicação nas paredes requer barbotina de argila no topo da fundação, seguida pela colocação dos pães e “costura” manual da mistura para criar uma massa monolítica sem emendas. Ferramentas como o “polegar de cobeiro” ajudam a integrar as camadas.
Esculturas e acabamentos transformam paredes funcionais em obras de arte
Uma das características mais marcantes das construções em cob é a possibilidade de criar elementos esculturais integrados às paredes. No cottage da Carolina do Norte, a equipe adicionou detalhes que incluem animais, nichos, prateleiras e molduras para tijolos de vidro.
A arquiteta Vika Martins, mestre em Desenvolvimento Rural, afirmou à FNA que o cob “pode ser uma excelente opção para construções comunitárias, como centros culturais e espaços de convivência, onde a participação da comunidade no processo construtivo é incentivada e valorizada”. A natureza escultural da técnica permite personalização única de cada projeto.
Para garantir aderência adequada do reboco posterior, foram criados intencionalmente furos e ranhuras nas esculturas. O processo de aplicação do reboco de argila envolveu testes com diferentes proporções de solo argiloso, areias grossa e fina, e esterco animal.
As equipes utilizaram talhadeiras e colheres de pedreiro para espalhar e moldar o reboco nas paredes. Segundo o Estúdio Piloti Arquitetura, especializado em construções com taipa, as paredes de terra funcionam como amortecedoras térmicas, diminuindo amplitudes de temperatura e umidade, contribuindo para a saúde dos moradores e redução de gastos com energia.
O acabamento final incluiu mosaicos de azulejos e mármore, além de refinamento das formas ao redor de nichos e prateleiras. Para superfícies que precisavam de acabamento liso, a equipe realizou brunimento — polimento da superfície do reboco.
Telhado recíproco vivo completa sistema sustentável da edificação
A cobertura do cottage utilizou uma técnica estrutural chamada telhado recíproco, na qual todas as vigas se apoiam mutuamente, eliminando a necessidade de suporte central. Durante a construção, uma viga temporária (chamada “Charlie stick”) sustentou o peso até que a última viga fosse instalada.
As vigas principais foram fixadas com hastes e porcas roscadas. Quando todas estavam posicionadas, a equipe levantou ligeiramente o conjunto para encaixar a viga final, criando uma estrutura autoportante. Após remover o suporte temporário, instalaram vigas secundárias para dar apoio às tábuas de revestimento.
Calços foram cortados e instalados para nivelar os planos do telhado antes da fixação das tábuas de revestimento. Sobre essas tábuas, aplicaram camada de isolamento usando pedaços de carpete reaproveitado, seguida de membrana impermeabilizante.
O telhado verde foi construído em camadas: base de areia, camada de palha e, por fim, solo argiloso local. Conforme informações da Biohabitate sobre telhados verdes, essas coberturas ajardinadas proporcionam isolamento térmico, podem produzir alimentos, captam água de chuva e criam microclima local favorável.
Calhas de drenagem, tábuas de forro e uma claraboia central completaram o sistema de cobertura. O projeto finalizou com fechamento do vão entre o topo da parede de cob e o telhado, aplicação das últimas camadas de reboco e instalação da camada final do piso de terra.
E você, já conhecia a técnica de construção com taipa ou cob? Muitas pessoas ainda associam casas de barro a precariedade, mas como vimos, essas construções podem ser extremamente duráveis e sustentáveis quando bem executadas. Será que essa técnica milenar pode se tornar uma alternativa viável no Brasil para reduzir o impacto ambiental da construção civil? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe se já teve alguma experiência com bioconstrução!


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