Surto registrado em Queensland em 1994 revelou o vírus Hendra, levou cientistas até as raposas-voadoras e ajuda a explicar por que morcegos entraram rapidamente nas investigações sobre a Covid-19.
Em setembro de 1994, uma égua prenha chamada Drama Series adoeceu em Hendra, região de Queensland.
Pouco depois, o animal morreu em um estábulo de maternidade.
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Em menos de 12 horas, outros sete cavalos morreram, enquanto novos animais apresentavam sinais graves da doença.
Os sintomas incluíam febre, inchaço, dificuldade respiratória, olhos avermelhados, espasmos e secreção sanguinolenta pela boca e pelas narinas.
O episódio se tornou ainda mais preocupante quando pessoas responsáveis pelos animais também adoeceram.
Pesquisadores descobriram, então, um vírus até aquele momento desconhecido.
O patógeno recebeu o nome de vírus Hendra, em referência ao local onde o surto foi identificado.
Investigação começou com uma pergunta: de onde vinha o vírus?
A descoberta imediatamente abriu uma nova frente de pesquisa na Austrália.
Especialistas precisavam encontrar o animal capaz de carregar o vírus sem apresentar a mesma doença grave observada nos cavalos.
Hume Field participou dessa investigação e passou a procurar possíveis reservatórios naturais em diferentes regiões.
Um novo episódio envolvendo Hendra posteriormente mudou o rumo da pesquisa.
O segundo foco estava localizado cerca de 1.000 quilômetros distante do primeiro.
Essa distância indicava que o possível hospedeiro precisava conseguir circular por grandes áreas.
Os pesquisadores começaram, dessa forma, a observar animais com grande capacidade de deslocamento.
Raposa-voadora encontrada em 1996 mudou a investigação
A resposta começou a surgir em 1996.
Pesquisadores identificaram uma raposa-voadora-preta capaz de carregar o vírus.
Testes posteriores também analisaram outras espécies de morcegos.
Os resultados mostraram que esses animais conseguiam conviver com o patógeno sem apresentar os mesmos efeitos registrados nos cavalos.
A descoberta colocou as raposas-voadoras no centro dos estudos sobre o vírus Hendra.
O Queensland Health passou a reconhecer esses morcegos como hospedeiros naturais do patógeno.
Esse achado também ampliou o interesse científico pelas características biológicas dos morcegos.
Por que os morcegos chamaram tanta atenção dos cientistas?
Os morcegos representam o segundo maior grupo de mamíferos do planeta.
Existem aproximadamente 1.400 espécies, além de serem os únicos mamíferos capazes de realizar voo ativo.
Muitas dessas espécies conseguem percorrer dezenas de quilômetros durante uma única noite procurando alimento.
O próprio voo também provoca um forte aumento da temperatura corporal.
Essa temperatura pode alcançar níveis semelhantes aos observados durante episódios de febre em outros mamíferos.
Pesquisadores passaram, portanto, a investigar como essa característica poderia influenciar a relação desses animais com diferentes vírus.
Hume Field também chamou atenção para outro aspecto importante.
Segundo o pesquisador, o surgimento de doenças está diretamente relacionado ao aumento das oportunidades de contato entre animais e seres humanos.
Perda de habitat pode aproximar morcegos das cidades
A presença dos morcegos perto de áreas urbanizadas também está ligada às transformações ambientais.
Perda de habitat, mudanças climáticas, degradação e doenças aumentam a pressão sobre diversas espécies.
Algumas regiões australianas perderam mais de 95% das áreas usadas pelos morcegos para alimentação durante o inverno.
A redução dessas fontes naturais de alimento pode levar os animais para áreas ocupadas por pessoas.
Propriedades rurais, plantações e locais com criação de cavalos podem, dessa maneira, tornar-se novos pontos de alimentação.
A preservação das florestas surge como parte importante desse cenário.
Árvores que produzem pólen e florescem durante o inverno oferecem alimento longe das cidades.
Um trecho de eucalipto vermelho, por exemplo, atraiu morcegos de toda uma região para uma área afastada.
A concentração dos animais naquele ambiente reduziu drasticamente o contato em áreas urbanizadas.
Caso Hendra ajudou a preparar cientistas para novos vírus
As pesquisas realizadas na Austrália criaram conhecimentos importantes para investigar doenças emergentes.
Estudos envolvendo outros vírus também passaram a apontar morcegos como reservatórios naturais.
O vírus Nipah, associado a episódios na Malásia, tornou-se outro exemplo analisado pelos pesquisadores.
Mudanças ambientais e desmatamento também fizeram parte desse contexto.
A experiência acumulada com Hendra e Nipah criou métodos para localizar possíveis animais envolvidos na circulação de novos patógenos.
Esse conhecimento ganhou importância décadas depois.
Covid-19 colocou novamente os morcegos sob investigação
O surgimento da Covid-19 levou pesquisadores a investigar rapidamente diferentes possibilidades para a origem do SARS-CoV-2.
Os morcegos receberam atenção porque décadas de estudos já haviam identificado esses animais como reservatórios naturais de outros vírus.
A investigação científica utilizou conhecimentos construídos anteriormente com Hendra e outros patógenos.
Essa relação, porém, exige cuidado.
A presença dos morcegos nas investigações não significa que esteja definitivamente comprovado que o SARS-CoV-2 passou diretamente desses animais para humanos.
A Organização Mundial da Saúde considera que as evidências disponíveis favorecem uma possível origem zoonótica.
A origem exata do SARS-CoV-2, entretanto, continua sem uma conclusão definitiva.
O verdadeiro problema pode estar no contato entre espécies
O caso Hendra deixou uma conclusão que vai além dos próprios morcegos.
A transformação dos ambientes naturais altera a forma como animais selvagens procuram alimento e abrigo.
Destruição de áreas de alimentação pode obrigar morcegos a ocupar espaços cada vez mais próximos das cidades.
O contato com cavalos, outros animais e seres humanos também pode aumentar nessas circunstâncias.
Hume Field defende justamente que as oportunidades de contato são fundamentais para compreender o surgimento de novas doenças.
A preservação ambiental, nesse contexto, também pode funcionar como uma barreira natural entre espécies.
Uma descoberta de 1994 que continua relevante décadas depois
O surto ocorrido em Hendra começou com cavalos adoecendo de forma inesperada.
A investigação levou cientistas até um vírus desconhecido e, posteriormente, aos morcegos que funcionavam como seus hospedeiros naturais.
Décadas de pesquisas construídas a partir desse episódio ajudaram a acelerar investigações sobre outros patógenos.
A história também explica por que morcegos, vírus zoonóticos e possíveis pandemias passaram a aparecer frequentemente na mesma discussão científica.
O episódio australiano mostra, sobretudo, que apontar simplesmente um animal como responsável não explica todo o problema.
A maneira como seres humanos modificam florestas e aumentam o contato entre espécies também faz parte dessa equação.
Diante disso, o que deveria receber mais atenção para reduzir o risco de novas doenças: investigar reservatórios animais ou preservar habitats para diminuir o contato entre espécies?
