Antes de trabalhar nas passarelas de Paris, Londres e Nova York, Georgie Badiel enfrentava longas caminhadas para buscar água, muitas vezes imprópria para consumo. A experiência inspirou uma fundação que instala sistemas de abastecimento e prepara mulheres para manter as bombas funcionando.
Antes de aparecer em revistas e desfilar para marcas internacionais, Georgie Badiel conheceu de perto uma realidade enfrentada por milhares de meninas em Burkina Faso: acordar cedo, caminhar durante horas e carregar para casa a água necessária para toda a família.
A jornada podia consumir aproximadamente três horas e ainda terminava com água frequentemente suja, capaz de provocar doenças. Anos depois, já reconhecida como modelo, escritora e ativista, Georgie decidiu transformar aquela lembrança em uma iniciativa permanente.
A Georgie Badiel Foundation passou a construir e recuperar poços, instalar estruturas de saneamento e treinar mulheres em noções básicas de engenharia, criando condições para que as próprias comunidades cuidem de seus sistemas de abastecimento.
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Ainda criança, Georgie caminhava horas para conseguir água para a família
Georgie Badiel nasceu e cresceu em Burkina Faso, país da África Ocidental onde muitas comunidades rurais ainda convivem com a falta de água limpa e acessível.
Durante a infância, buscar água não era uma tarefa ocasional. A caminhada fazia parte da rotina diária e precisava ser cumprida antes das demais atividades. Georgie percorria longas distâncias acompanhada da avó ou de outras meninas, carregando um recipiente que deveria voltar cheio.
O percurso podia levar aproximadamente três horas. Além do esforço físico, havia outro problema: a água recolhida nem sempre era segura para beber.
Em entrevista à Teen Vogue, a modelo recordou que a água encontrada durante aquelas caminhadas costumava estar suja e frequentemente deixava as pessoas doentes.
A busca também interferia na educação. O tempo usado para caminhar, esperar e transportar os recipientes era retirado das horas que poderiam ser dedicadas à escola, ao estudo ou às brincadeiras.
A carreira levou a jovem de Burkina Faso às passarelas internacionais
A vida de Georgie começou a mudar quando ela ingressou no mundo da moda. Após iniciar a carreira na África, a jovem conquistou espaço em centros internacionais e trabalhou em cidades como Paris, Londres e Nova York.
Ela venceu o concurso Miss Burkina Faso em 2003 e recebeu o título de Miss África no ano seguinte. Posteriormente, mudou-se para os Estados Unidos e passou a trabalhar com marcas, estilistas e publicações internacionais.
A trajetória parecia distante das caminhadas que marcaram sua infância. No entanto, uma visita à irmã em Burkina Faso trouxe novamente o problema da água para o centro de sua vida.
Segundo a Teen Vogue, a irmã de Georgie, uma entre seus nove irmãos, precisava acordar antes das quatro horas da manhã para buscar a água usada pela família durante o dia.
A cena mostrou que a rotina vivida por Georgie quando criança continuava se repetindo com outra geração.
A influência conquistada na moda ajudou a financiar os primeiros poços
De volta a Nova York, Georgie procurou amigos do setor da moda e começou a mobilizar contatos para arrecadar dinheiro. A iniciativa ficou inicialmente conhecida como Models 4 Water.
A modelo Heide Lindgren esteve entre as pessoas que se uniram ao projeto. O grupo organizou ações e usou a visibilidade da moda para chamar atenção para a falta de água potável em Burkina Faso.
O primeiro poço foi construído na aldeia de Nakar. Em novembro de 2012, menos de um ano depois da primeira instalação, o grupo já arrecadava recursos para financiar o quinto projeto.
O trabalho ganhou uma estrutura mais ampla com a criação, em 2015, da Georgie Badiel Foundation. A organização passou a desenvolver projetos sustentáveis de água em comunidades e escolas do país africano.
De acordo com a fundação, as ações incluem a construção de novos pontos de abastecimento e a recuperação de sistemas que deixaram de funcionar.
Recuperar bombas abandonadas evita que comunidades voltem a buscar água distante
Construir um poço resolve apenas parte do problema. Quando uma bomba quebra e não existe ninguém preparado para consertá-la, toda a comunidade pode voltar a depender de fontes distantes ou contaminadas.
Por isso, a fundação também trabalha na restauração de poços e bombas abandonados. Em muitos casos, uma estrutura capaz de fornecer água limpa já existe, mas permanece inutilizada por falta de peças, manutenção ou conhecimento técnico.
A recuperação dessas instalações pode restabelecer o abastecimento sem exigir a construção completa de um novo sistema.
Além disso, a entidade investe em instalações sanitárias seguras e em educação sobre água, higiene e saneamento. O objetivo é fazer com que o acesso à água tenha impacto duradouro na saúde, na frequência escolar e na rotina familiar.
Com um poço próximo e em funcionamento, meninas deixam de perder parte do dia em caminhadas e passam a ter mais tempo para frequentar a escola.

Mulheres são treinadas para cuidar das bombas e proteger o abastecimento
Um dos aspectos mais importantes do projeto é o treinamento de mulheres em conhecimentos básicos de engenharia.
As participantes aprendem a acompanhar o funcionamento dos equipamentos, identificar falhas e realizar manutenções essenciais nas bombas. Depois da capacitação, elas podem atuar como engenheiras comunitárias responsáveis por proteger o abastecimento local.
A estratégia enfrenta dois problemas ao mesmo tempo. Primeiro, reduz o período em que uma comunidade fica sem água quando ocorre uma falha. Depois, oferece conhecimento técnico e maior autonomia às mulheres, justamente as mais afetadas pela rotina de buscar água.
A Georgie Badiel Foundation afirma que seus projetos são orientados pela própria comunidade. Assim, moradores não recebem apenas uma estrutura física, mas também os recursos necessários para mantê-la funcionando.
O modelo permite que o poço continue atendendo às famílias mesmo depois que as equipes externas deixam a região.
A infância de Georgie inspirou o livro The Water Princess
A história vivida por Georgie também chegou às crianças por meio do livro ilustrado The Water Princess, publicado em 2016.
Escrita por Susan Verde, ilustrada por Peter H. Reynolds e inspirada na infância da modelo, a obra acompanha Gie Gie, uma menina que sonha em levar água limpa e próxima para sua comunidade.
Na história, a protagonista acorda cedo e percorre uma longa distância com a mãe para buscar água. O livro apresenta a crise hídrica de maneira acessível ao público infantil e mostra como uma tarefa aparentemente comum pode impedir meninas de estudar, brincar e aproveitar a infância.
A obra também se tornou parte das ações educacionais da fundação, ajudando escolas e famílias a conversar sobre acesso à água, desigualdade e responsabilidade coletiva.
Georgie transformou uma caminhada da infância em uma solução liderada pela comunidade
Georgie Badiel saiu de Burkina Faso, construiu uma carreira internacional e conquistou espaço em algumas das principais capitais da moda. Ainda assim, decidiu usar a fama para enfrentar o problema que havia marcado sua infância.
Sua iniciativa não se limita a perfurar poços. Ela recupera bombas, cria instalações sanitárias, promove educação e coloca mulheres no centro da manutenção dos sistemas.
A menina que caminhava durante horas para conseguir água tornou-se uma ativista capaz de ajudar outras meninas a permanecer na escola e evitar a mesma jornada.
A história mostra que uma solução pode se tornar mais duradoura quando a comunidade recebe não apenas a estrutura, mas também o conhecimento necessário para cuidar dela.
E você, acredita que treinar moradores para manter os próprios poços é o caminho mais eficiente para garantir água limpa por muitos anos?
