Scott Harrison deixou uma década de festas e excessos para documentar atendimentos médicos na África; ao voltar aos Estados Unidos, arrecadou US$ 14 mil em uma única noite e transformou a iniciativa na charity: water
Durante aproximadamente dez anos, Scott Harrison viveu cercado por casas noturnas, bebidas caras, celebridades e festas exclusivas em Nova York. Como promotor de eventos, ele ajudava a atrair clientes para alguns dos ambientes mais disputados da cidade e parecia ter alcançado o estilo de vida que muitos desejavam.
Aos 28 anos, porém, Harrison percebeu que aquela rotina já não fazia sentido. Ele abandonou as noites de luxo, comprou uma câmera fotográfica e partiu como voluntário para a Libéria, onde passaria a documentar o trabalho realizado em um navio-hospital.
A experiência mostrou uma realidade completamente diferente daquela que conhecia. O contato com pessoas que conviviam com doenças agravadas pela falta de água limpa levou Harrison a retornar aos Estados Unidos com uma nova ideia. Anos depois, a iniciativa se transformaria na charity: water, organização internacional dedicada ao financiamento de projetos de água potável.
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Durante dez anos, Scott Harrison promoveu festas e vendeu uma vida cercada por luxo
Scott Harrison construiu sua carreira na indústria noturna de Nova York. Seu trabalho envolvia organizar eventos, promover casas noturnas e reunir pessoas influentes em festas onde bebidas caras, roupas sofisticadas e acesso exclusivo faziam parte da rotina.
Em entrevista à Condé Nast Traveler, Harrison contou que passou uma década naquele ambiente. Ele chegou a recordar que vendia coquetéis de US$ 16, valor que mais tarde compararia ao custo de alimentar uma família durante um mês na Libéria.
Apesar do sucesso profissional, a rotina começou a provocar uma sensação crescente de insatisfação. O promotor percebeu que havia construído uma vida baseada em excessos, mas não encontrava nela um propósito que considerasse verdadeiro.
Aos 28 anos, decidiu interromper a carreira. Harrison trocou as festas de Manhattan por uma vaga voluntária em um navio-hospital que atendia pacientes em regiões pobres da África.
Uma câmera fotográfica levou Harrison até pacientes que não tinham acesso à água limpa
Sem formação médica, Harrison encontrou na fotografia uma maneira de contribuir. Ele embarcou com a organização humanitária Mercy Ships e passou a registrar pacientes antes e depois de cirurgias e tratamentos realizados a bordo do navio-hospital.
A missão o levou à Libéria, país que ainda enfrentava as consequências de anos de guerra civil. Enquanto documentava os atendimentos, Harrison conheceu comunidades sem sistemas adequados de abastecimento e viu pessoas coletando água em fontes contaminadas.
Segundo o relato concedido à Condé Nast Traveler, ele encontrou moradores consumindo água retirada de áreas pantanosas cobertas por algas e até com sanguessugas. Eram fontes que, como ele próprio observou, muitas pessoas não aceitariam oferecer nem mesmo a animais.
A falta de água limpa estava ligada a praticamente todos os problemas que Harrison encontrava. Água contaminada provocava doenças, dificultava a recuperação dos pacientes e obrigava mulheres e crianças a caminhar durante horas para abastecer suas famílias.
A experiência na Libéria mudou a maneira como o antigo promotor enxergava o dinheiro, o trabalho e as possibilidades de ajudar outras pessoas.
De volta a Nova York, ele transformou a própria festa de aniversário em uma arrecadação
Depois de retornar aos Estados Unidos, Harrison queria levar a crise da água ao mesmo público que conhecera durante os anos nas casas noturnas. Ele acreditava que muitos jovens não faziam doações porque desconfiavam das organizações tradicionais e não sabiam exatamente como o dinheiro era utilizado.
O antigo promotor decidiu começar utilizando aquilo que sabia fazer melhor: organizar uma festa.
Em 2006, Harrison realizou uma comemoração de aniversário em uma casa noturna de Nova York e cobrou US$ 20 de cada pessoa que entrava. Em vez de receber presentes, direcionou toda a arrecadação para projetos de água limpa.
A festa reuniu aproximadamente US$ 14 mil, conforme relatado pelo próprio fundador à Condé Nast Traveler. O valor foi usado para financiar os seis primeiros projetos de água em Uganda.
Após a conclusão das obras, Harrison enviou aos doadores fotografias e informações sobre as comunidades beneficiadas. A intenção era demonstrar, de maneira transparente, onde o dinheiro havia sido aplicado e qual diferença aquela contribuição tinha produzido.
A festa que poderia ter sido apenas mais uma noite em uma casa noturna tornou-se o ponto de partida da charity: water.

Os seis projetos em Uganda deram origem a uma organização internacional
A charity: water foi fundada oficialmente em 2006 com a proposta de financiar soluções de água potável em comunidades vulneráveis. O projeto também passou a adotar um modelo no qual as doações públicas seriam destinadas diretamente às obras, enquanto os custos operacionais seriam cobertos por apoiadores privados.
Fotografias, coordenadas de GPS e relatórios dos projetos tornaram-se parte da estratégia de transparência. Em vez de apenas pedir doações, a organização procurava mostrar aos participantes quais comunidades haviam recebido os recursos.
Uma reportagem da Vanity Fair mostra a rapidez da expansão. Apenas dois anos depois do início da iniciativa, Harrison já havia arrecadado US$ 3,5 milhões e ajudado a organizar 624 projetos em 11 países, levando água limpa a aproximadamente 250 mil pessoas.
O antigo círculo de contatos das casas noturnas também ajudou a ampliar a campanha. Eventos apoiados por artistas, empresários e figuras da moda aproximaram a crise hídrica de um público que até então tinha pouco contato com o problema.
O conhecimento usado anteriormente para promover festas foi direcionado à criação de campanhas, vídeos, fotografias e experiências capazes de mobilizar novos doadores.
A iniciativa que começou em uma festa já financiou mais de 209 mil projetos de água
A expansão ocorrida nas décadas seguintes levou a charity: water muito além dos seis primeiros projetos financiados em Uganda.
De acordo com os dados divulgados pela própria organização, a entidade já financiou mais de 209 mil projetos de água em 29 países, com potencial para atender aproximadamente 21,6 milhões de pessoas. Os números são atualizados à medida que novas informações são recebidas dos parceiros responsáveis pelas obras.
As soluções variam conforme cada região e podem incluir poços, sistemas de captação de água da chuva, redes de distribuição, filtros e outras estruturas de abastecimento.
Além de reduzir a exposição a doenças, a presença de uma fonte próxima permite que mulheres e crianças recuperem parte do tempo anteriormente gasto em longas caminhadas. Esse tempo pode ser destinado à escola, ao trabalho e às atividades familiares.
A mudança de Scott Harrison começou quando ele decidiu usar a própria experiência de outra maneira
Scott Harrison não iniciou a charity: water como especialista em engenharia, saúde pública ou abastecimento. Ele partiu de conhecimentos adquiridos em uma área aparentemente distante do trabalho humanitário: a promoção de festas.
A capacidade de reunir pessoas, contar histórias e organizar eventos foi reaproveitada para chamar atenção para a falta de água limpa. A câmera levada ao navio-hospital permitiu registrar o problema, enquanto a primeira festa mostrou que seu antigo público também poderia participar da solução.
A história de Harrison mostra que uma mudança de direção não apaga as experiências anteriores: em alguns casos, transforma aquilo que alguém já sabe fazer em uma ferramenta capaz de mudar outras vidas.
E você, teria coragem de abandonar uma carreira consolidada para transformar completamente a própria vida e ajudar pessoas que nunca conheceu?
