A identificação do Fragmento Pioneer, um remanescente de placa oceânica subductada há cerca de 30 milhões de anos, na junção tripla de Mendocino, amplia a área de contato entre placas do Pacífico, Cascadia e América do Norte e introduz novos elementos na avaliação do risco sísmico regional
Um fragmento de placa tectônica considerado perdido foi identificado sob o continente norte-americano, na porção sul da zona de subducção de Cascadia, segundo pesquisa publicada em 15 de janeiro na revista Science. O achado aponta para possíveis implicações na dinâmica sísmica regional.
A pesquisa revela que o chamado Fragmento Pioneer, remanescente de uma antiga placa oceânica subductada há cerca de 30 milhões de anos, encontra-se atualmente preso à base da Placa do Pacífico e se desloca para noroeste junto com ela, em uma região tectonicamente complexa.
O fragmento foi identificado na junção tripla de Mendocino, ponto onde a Falha de San Andreas se encontra com a zona de subducção de Cascadia. Trata-se de uma área onde diferentes regimes de movimento de placas coexistem e interagem diretamente.
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Ao longo da Falha de San Andreas, as placas Norte-Americana e do Pacífico deslizam paralelamente entre si. Já na zona de Cascadia, que se estende do Cabo Mendocino até a Ilha de Vancouver, as placas oceânicas de Juan de Fuca e Gorda mergulham sob a América do Norte.
Esse processo de subducção é capaz de gerar terremotos de magnitude 9 ou superior, conforme dados da Rede Sísmica do Noroeste do Pacífico. Evidências anteriores sugerem que grandes eventos em Cascadia podem desencadear terremotos ao longo da Falha de San Andreas.
Embora o novo estudo não quantifique diretamente o aumento de risco, o primeiro autor da pesquisa, David Shelly, do Serviço Geológico dos Estados Unidos, afirma que a descoberta contribui para compreender melhor a interação entre essas estruturas tectônicas.
Segundo Shelly, o Fragmento Pioneer amplia a área de contato entre o que é efetivamente a Placa do Pacífico e a zona de subducção de Cascadia, alterando a geometria conhecida das interfaces entre as placas na região.
Análise sísmica revelou movimentos sutis das placas
Para investigar a junção tripla de Mendocino, os pesquisadores analisaram pequenos terremotos e tremores de baixa frequência, eventos sísmicos profundos que não são perceptíveis sem sismógrafos sensíveis, mas que ocorrem com frequência em grandes falhas.
A partir desses dados, foi possível determinar direções de movimentos sutis das placas. Na região, a Placa do Pacífico desliza para noroeste contra a Placa Norte-Americana, enquanto colide com a Placa de Gorda, que se move sob o continente.
Até então, existiam explicações concorrentes sobre a localização exata das placas e o traçado das falhas. O estudo indica que a configuração é ainda mais complexa devido à presença de um fragmento inesperado da extinta Placa Farallon.
A Placa Farallon começou a sofrer subducção sob a América do Norte há cerca de 200 milhões de anos, durante a fragmentação do supercontinente Pangeia. A Placa Juan de Fuca é um de seus remanescentes conhecidos.
Fragmentos adicionais alteram o modelo tectônico da região
Os pesquisadores identificaram que outro remanescente da Placa Farallon permaneceu aderido à Placa do Pacífico. Esse fragmento, denominado Fragmento Pioneer, não está subductando, mas se movendo lateralmente contra o continente norte-americano.
Além disso, partes da Placa de Gorda que foram raspadas e transferidas para a Placa Norte-Americana durante colisões aparentam ter retornado à Placa de Gorda, podendo estar mergulhando novamente sob o continente.
Essa dinâmica, descrita por Shelly como uma “batata quente tectônica”, pode ajudar a explicar por que o terremoto do Cabo Mendocino de 1992 teve origem mais superficial do que o esperado pelos cientistas.
Segundo o pesquisador, a falha associada a esses fragmentos pode não seguir a crosta oceânica original, situando-se em níveis mais rasos, o que altera a compreensão sobre a profundidade dos processos sísmicos locais.
Entre o Fragmento Pioneer e a Placa Norte-Americana existe uma falha quase horizontal, comparada por Shelly à cobertura de um bolo em camadas. Essa estrutura não está atualmente incluída nos modelos de risco sísmico.
“Não sabemos se essa falha pode gerar grandes terremotos, mas é algo que precisamos considerar no futuro”, afirmou Shelly, ressaltando que a descoberta amplia as incógnitas sobre o comportamento sísmico da região e exige novas análises.
Este artigo foi elaborado com base em pesquisa publicada em 15 de janeiro na revista Science e em declarações do geofísico David Shelly, do Serviço Geológico dos Estados Unidos, divulgadas pela Live Science, a partir de análises sísmicas da junção tripla de Mendocino, entre as falhas de San Andreas e Cascadia.

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