O casal batizou a propriedade de Brejo Novo, em Santos Dumont, perto de Juiz de Fora, e hoje a fazenda abriga 156 espécies de aves catalogadas por ornitólogos contratados para medir a saúde da mata, número que virou inspiração para um dos livros infantis escritos pela jornalista
A jornalista Míriam Leitão e o cientista político Sérgio Abranches compraram uma fazenda de 109 hectares em Santos Dumont, perto de Juiz de Fora, em Minas Gerais, arrancaram o pasto que cobria a terra e passaram mais de uma década replantando 32 mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica. A propriedade foi registrada como RPPN, Reserva Particular do Patrimônio Natural, o que significa que a área não pode mais ser desmatada. As informações são do jornal DeFato, em reportagem de 30 de abril de 2025, e da Fundação SOS Mata Atlântica, parceira do projeto desde o início.
O resultado do trabalho aparece hoje no canto das árvores. A fazenda, batizada de Brejo Novo, abriga 156 espécies de aves catalogadas dentro da reserva, algumas raras e outras ameaçadas de extinção, levantadas por um casal de ornitólogos contratado pelos donos justamente para medir se a mata replantada estava mesmo funcionando como floresta.
Pasto deu lugar a mudas plantadas ano após ano

Quando o casal chegou à propriedade mineira, o cenário era o clássico da Zona da Mata: pasto no lugar da floresta original. A decisão foi radical e paciente ao mesmo tempo, destruir a pastagem e replantar espécies nativas, num processo que se estendeu por mais de dez anos de trabalho contínuo.
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O ritmo teve que respeitar o tempo da terra. As 32 mil mudas não foram plantadas de uma vez, e sim em lotes anuais, porque cada trecho recuperado exige acompanhamento próprio. Durante os três primeiros anos de cada plantio, a equipe precisou vigiar de perto o avanço da braquiária, o capim que sufoca as árvores jovens e mata a muda antes que ela consiga se firmar.
Metade da fazenda hoje está replantada ou protegida como reserva, marca que a própria jornalista descreve como difícil de alcançar dentro da Mata Atlântica, o bioma mais desmatado do país.
O tamanho do desafio ajuda a explicar por que o caso chama atenção. A Mata Atlântica cobria originalmente boa parte do litoral e do interior do Sudeste brasileiro e hoje restam fragmentos espalhados, muitos deles isolados uns dos outros. Recuperar trechos particulares, como fez o casal em Santos Dumont, é uma das formas de reconectar essas ilhas de floresta e permitir que animais voltem a circular entre elas.
Fundação SOS Mata Atlântica orientou o que plantar e o que deixar
O projeto não avançou no improviso. A Fundação SOS Mata Atlântica foi parceira desde o começo, e um especialista da entidade avaliou a propriedade para separar as áreas em dois grupos, as que tinham condições de se regenerar sozinhas, por serem promissoras, e as que precisavam de intervenção com plantio direto.
A divisão poupou esforço onde a natureza dava conta e concentrou o trabalho pesado onde não havia mais como esperar. À mata preservada de 18 hectares que já existia na chegada do casal somaram-se outros 18 hectares vizinhos, onde foram refeitas Áreas de Preservação Permanente, as APPs, faixas que a lei manda proteger justamente por sustentarem nascentes, córregos e encostas.
Esse desenho de recuperação segue a lógica que orienta os grandes programas de restauração do bioma. O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, movimento que reúne organizações e produtores rurais, estima que mais de 700 mil hectares já estão em processo de recuperação em todo o bioma, com a meta de chegar a 15 milhões de hectares restaurados até 2050. Propriedades privadas como Brejo Novo entram nessa conta.
Ornitólogos contaram 156 espécies dentro da reserva
Depois de plantar, veio a etapa de descobrir se a floresta nova estava viva de verdade. Para isso, o casal contratou a Aves Gerais, ONG especializada em monitoramento, e dois ornitólogos, Lucas e Luciene, passaram a percorrer a mata fazendo inventário das aves pelo som que elas emitem.
O método é mais revelador do que parece. A identificação das espécies presentes indica se aquela mata oferece fruto o ano inteiro para alimentar os pássaros, funcionando como termômetro da saúde do ecossistema recuperado. O levantamento encontrou espécies raras, espécies ameaçadas de extinção e chegou ao número que hoje define a reserva, 156 espécies de aves catalogadas dentro da propriedade, um retrato de biodiversidade que a área não teria como sustentar na época em que era só pasto.
Selo de RPPN tranca a mata contra futuros desmatamentos

A escolha de registrar a área como Reserva Particular do Patrimônio Natural foi o que transformou o esforço do casal em proteção permanente. A RPPN é uma categoria de unidade de conservação criada em área privada, por iniciativa voluntária do proprietário, e vale em caráter perpétuo, com averbação que acompanha o imóvel mesmo que ele mude de dono.
Na prática, o gesto amarra o futuro da terra. Como a propriedade é RPPN, a área não poderá mais ser desmatada, nem por quem comprar a fazenda depois, o que blinda os 32 mil pés plantados contra qualquer reviravolta de vocação econômica da região.
A história da fazenda também chegou aos ouvintes do meio ambiente por outro caminho. Sérgio Abranches, cientista político, sociólogo e comentarista de rádio, foi entrevistado no podcast Tom da Mata, projeto do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica com apoio do WRI Brasil, e contou no episódio sobre o envolvimento com o bioma e a vida dentro da propriedade reflorestada, descrita como lar das 156 espécies de aves e das mais de 30 mil mudas nativas plantadas.
Passarinhos da fazenda viraram livro infantil premiado
O canto que os ornitólogos registraram acabou virando literatura. A fazenda Brejo Novo é o cenário de A perigosa vida dos passarinhos pequenos, livro infantil escrito por Míriam Leitão, publicado pela Editora Rocco com ilustrações de Rubens Matuck e dedicado aos netos da autora.
A história nasceu do próprio quintal reflorestado. No enredo, sabiás, andorinhas, beija-flores, canarinhos-da-terra e coleirinhos enfrentam a falta de árvores e resolvem organizar um concerto ao redor da casa dos humanos para chamar a atenção dos donos da propriedade. Duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti e autora de 16 livros, a jornalista transformou em enredo infantil a mesma agenda ambiental que defende nas colunas e nos programas de televisão. O livro traz ainda um miniguia com as espécies que aparecem na narrativa, apresentando ao leitor mirim os pássaros que existem de verdade dentro da reserva mineira.
Reflorestamento sustentou a eleição da jornalista para a ABL
O trabalho na fazenda entrou no currículo que levou a jornalista à Academia Brasileira de Letras. Em 30 de abril de 2025, Míriam Leitão foi eleita para a cadeira 7 da ABL, vaga que pertencia ao cineasta Cacá Diegues, morto em fevereiro daquele ano, vencendo no primeiro escrutínio com 20 dos 37 votos possíveis, contra 14 do ex-senador Cristovam Buarque.
Na casa de Machado de Assis, ela encontrou companhia para a pauta ambiental. Entre os acadêmicos estão o filósofo e líder indígena Ailton Krenak e o cantor Gilberto Gil, e a nova imortal fez questão de marcar a origem comum com o primeiro. “O Ailton é da mesma região que eu em Minas Gerais, somos filhos do mesmo vale, que sofreu muito e ainda sofre muito na questão ambiental”, disse a jornalista, que completou: “A questão ambiental não é só teórica, ela é radicalmente prática, é vida mesmo”.
Casal transformou pasto em modelo de restauração da Mata Atlântica
O que começou como a compra de uma fazenda degradada em Minas virou, ao longo de mais de uma década, um exemplo prático de restauração no bioma mais devastado do Brasil. Entre o pasto arrancado, as 32 mil mudas plantadas lote a lote, os 156 cantos catalogados e o selo de RPPN que tranca a mata contra o machado, a propriedade de Míriam Leitão e Sérgio Abranches provou que reflorestar é decisão que se mede em anos, e não em manchetes. A floresta nova de Brejo Novo já sobreviveu à braquiária, virou livro, virou episódio de podcast e agora está protegida das próximas gerações de motosserras.
E para você, o que falta para que mais proprietários rurais transformem pasto degradado em reserva protegida, dinheiro, assistência técnica ou vontade política? Conte nos comentários se você conhece alguma área que virou floresta de novo na sua região.
