Cidade que ergueu um arranha-céu de madeira recordista agora luta para tirar do papel um complexo de madeira maciça de 55 andares, pressionado por tarifas, inflação e custos bilionários.
A cidade de Milwaukee, no estado de Wisconsin, entrou para o mapa da construção sustentável ao erguer o Ascent, hoje reconhecido como o maior prédio de madeira do mundo. Agora, um novo arranha-céu planejado para superar essa marca promete transformar ainda mais o skyline urbano, mas enfrenta uma combinação explosiva de tarifas, inflação e um orçamento estimado em cerca de US$ 700 milhões.
No papel, o plano é ambicioso. Liderado pela empresa de desenvolvimento regenerativo Neutral e pelo estúdio de arquitetura Michael Green Architects, o projeto prevê uma torre de madeira maciça com dezenas de andares, integrada a um novo tecido urbano de moradias, escritórios, serviços e espaços públicos. Na prática, porém, a combinação de custos em alta e incertezas econômicas já levou à paralisação das obras em um dos edifícios-chave e deixou em aberto quando, e em que formato, esse novo gigante de madeira vai nascer.
Milwaukee, a cidade que já ostenta o maior prédio de madeira do mundo
Quando o Ascent foi concluído, Milwaukee deixou de ser apenas uma cidade industrial do Meio-Oeste para se tornar vitrine global da construção em madeira maciça.
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Com cerca de 25 andares e aproximadamente 87 metros de altura, o edifício combina estrutura de madeira com elementos de concreto e abriga uso residencial de alto padrão, mostrando que edifícios altos em madeira podem ser seguros, urbanos e lucrativos.
Mais do que um experimento arquitetônico, o Ascent virou argumento de marketing e de política pública. Ter o maior prédio de madeira do mundo no centro da cidade ajuda Milwaukee a atrair investimentos, qualificar o debate sobre clima e reposicionar sua imagem como polo de inovação em construção sustentável.
Esse primeiro recorde é o pano de fundo para entender por que a próxima torre de madeira em disputa é tão estratégica.
Neutral 1005 N Edison St: o projeto que prometia um novo salto
O passo seguinte de Milwaukee rumo a um novo recorde é o edifício Neutral 1005 N Edison St, concebido para superar a altura do Ascent e assumir novamente o posto de arranha-céu de madeira mais alto do planeta.
O projeto é descrito como um prédio com cerca de 114,3 metros de altura, 31 andares e aproximadamente 350 residências, além de áreas comerciais, academia, clínica de saúde e outras comodidades voltadas ao uso cotidiano.
A estrutura é baseada em produtos modernos de madeira maciça, como madeira laminada cruzada (CLT) e madeira laminada colada (GLW), combinados a um núcleo rígido de concreto para elevadores e escadas.
A ideia é unir o melhor dos dois mundos, usando a madeira como protagonista sem abrir mão de reforços tradicionais nos pontos mais críticos da estrutura.
As fundações do edifício já foram concluídas, mostrando que o projeto saiu do papel e chegou a avançar de forma rápida no canteiro.
O problema é que a corrida para erguer um novo “maior prédio de madeira do mundo” esbarrou em um obstáculo que nenhum cálculo estrutural resolve sozinho: o custo.
Tarifa, inflação e um orçamento de US$ 700 milhões pesando na conta

Os gargalos da obra não estão ligados a falhas de engenharia, mas a um cenário financeiro difícil. Segundo a própria Neutral, as tarifas atualmente aplicadas nos Estados Unidos, somadas à inflação generalizada no setor da construção, elevaram os custos a um patamar que torna inviável seguir com o cronograma original.
Diante desse quadro, a empresa passou a trabalhar em conjunto com a construtora CD Smith Construction em uma estratégia de “redução de custos e otimização de valor”, revisando materiais, soluções de projeto e etapas da obra para tentar encaixar a conta.
A paralisação das atividades no canteiro foi apresentada como temporária, mas sem prazo fechado para retomada.
Ao mesmo tempo, o redesenho mais amplo da área do Marcus Performing Arts Center, que inclui uma torre de madeira com cerca de 55 andares e está orçado em aproximadamente US$ 700 milhões, adiciona outra camada de complexidade.
Um investimento desse porte exige alinhamento fino entre custos de construção, taxas de juros, demanda imobiliária e apetite de investidores.
Hoje, o maior desafio da futura torre de madeira de Milwaukee não está na altura do prédio, e sim na matemática financeira necessária para fazer um empreendimento de centenas de milhões de dólares se pagar em um ambiente de tarifas e inflação pressionadas.
Isso ajuda a explicar por que, mesmo em uma cidade que já provou ser capaz de construir em madeira, o futuro do novo arranha-céu permanece em aberto.
Por que insistir em arranha-céus de madeira em plena crise climática
A aposta em madeira maciça não é um capricho estético. Ela se apoia em um diagnóstico incômodo: o setor de construção responde por cerca de 37 por cento das emissões globais de gases de efeito estufa, principalmente pela produção e pelo uso de materiais como concreto e aço, extremamente intensivos em carbono.
A lógica da madeira maciça é inverter essa curva. Árvores absorvem carbono ao longo de sua vida. Quando transformadas em elementos estruturais de madeira maciça e usadas na construção, esse carbono fica “preso” enquanto o edifício existir.
Na prática, cada andar de um arranha-céu em madeira funciona como um grande sumidouro de carbono, o oposto de uma laje de concreto convencional.
Isso não significa que a solução seja simples. Para que a conta ambiental feche, a madeira precisa vir de florestas manejadas de forma responsável, com ciclos de crescimento suficientemente longos, reposição contínua e controle de impacto sobre o uso da terra.
O próprio Michael Green reconhece que garantir madeira sustentável em escala para construir cidades inteiras é um desafio e que, no futuro, será preciso complementar a madeira com outros materiais de base biológica.
Ao mesmo tempo, códigos de construção começaram a mudar. O Código Internacional de Construção dos Estados Unidos passou a permitir edifícios de madeira maciça com mais de seis andares, e países europeus já incluem o uso de madeira em suas metas climáticas.
Milwaukee se encaixa como uma espécie de laboratório dessa transição, aplicando essas permissões de forma ousada em torres cada vez mais altas.
O que está em jogo para Milwaukee e para a construção sustentável

Se o projeto liderado pela Neutral avançar, Milwaukee poderá concentrar em poucas quadras o Ascent e uma nova torre de madeira, consolidando sua posição como referência global em arranha-céus sustentáveis.
Ter dois projetos disputando o título de maior prédio de madeira do mundo na mesma cidade envia um recado forte de que a construção civil pode mudar de material sem abrir mão de escala.
Se, por outro lado, o projeto sofrer cortes severos ou não sair do papel, o caso também será simbólico. Ele mostrará até que ponto a combinação de tarifas, inflação e custos bilionários limita a adoção de soluções sustentáveis em larga escala, mesmo quando a tecnologia está madura e a cidade é favorável à inovação.
No fim, Milwaukee está no centro de um dilema que interessa ao mundo inteiro. A construção em madeira maciça oferece uma alternativa concreta para reduzir emissões e reinventar as cidades, mas ainda precisa provar que consegue sobreviver aos ciclos econômicos, às pressões de custo e às incertezas políticas que cercam grandes projetos urbanos.
E você, acha que vale a pena insistir em arranha-céus de madeira mesmo com um orçamento de centenas de milhões de dólares ou ainda se sente mais seguro apostando no concreto e no aço?

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