A corrente de ouro recuperada do galeão espanhol Nuestra Señora de las Maravillas pesa quase 1 kg e mede cerca de 1,8 metro; no mesmo campo de destroços, pesquisadores encontraram esmeraldas, ametistas, moedas, porcelanas e pingentes, enquanto a Allen Exploration continua mapeando vestígios do navio afundado nas Bahamas em 1656.
Uma corrente de ouro de quase 1 kg e aproximadamente 1,8 metro de comprimento está entre os achados mais impressionantes associados ao naufrágio do galeão espanhol Nuestra Señora de las Maravillas, perdido nas Bahamas em 1656. Ao redor do antigo ponto de impacto, mergulhadores e arqueólogos também localizaram esmeraldas, ametistas, moedas, porcelanas, objetos pessoais e pingentes ligados à elite espanhola da época.
Os detalhes foram publicados pela Smithsonian Magazine em 31 de julho de 2022, em reportagem sobre o trabalho da Allen Exploration, também conhecida como AllenX. A equipe recebeu autorização do governo das Bahamas em 2019 para estudar o naufrágio e passou a mapear cientificamente um campo de destroços que havia sido explorado durante séculos por expedições espanholas e caçadores de tesouros.
Galeão afundou nas Bahamas em janeiro de 1656

O Nuestra Señora de las Maravillas seguia de volta para a Espanha carregado com prata própria e parte da carga recuperada de outro navio naufragado quando atravessou o Canal das Bahamas. Em 4 de janeiro de 1656, o galeão perdeu sua posição durante a navegação.
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O navio acabou atingido pela embarcação principal da frota e, em seguida, colidiu violentamente com um recife. O peso da carga contribuiu para uma perda rápida do galeão, enquanto ondas fortes começaram a fragmentar sua estrutura e espalhar partes do navio pelo fundo do mar.
Naufrágio carregava uma carga excepcional de riquezas

O galeão transportava moedas, barras de prata, bens privados e outros objetos destinados à Europa. Parte da carga também havia vindo do Jesús María de la Limpia Concepción, outro navio espanhol que havia afundado perto do Equador antes de sua prata ser recuperada.
Esse contexto transformou o Maravillas em uma espécie de “naufrágio de um naufrágio”, com uma concentração particularmente elevada de metais preciosos. A própria Smithsonian destaca que o navio carregava tanto remessas oficiais quanto bens particulares e mercadorias que aparentemente não estavam declaradas.
Corrente de ouro tinha quase 1 kg e 1,8 metro

Entre os achados da AllenX está uma extraordinária corrente de ouro em filigrana com quase duas libras de peso e seis pés de comprimento, o equivalente a cerca de 0,9 kg e 1,8 metro.
A peça é formada por elos circulares achatados e tubulares decorados com rosetas. O nível de acabamento chamou atenção dos pesquisadores porque sugere um objeto produzido para alguém de posição social elevada, e não uma simples corrente destinada a ser desmontada ou usada como moeda.
Peça pode ter sido produzida nas Filipinas
A historiadora de joias Beatriz Chadour-Sampson analisou fotografias dos achados e apontou que a corrente de ouro provavelmente foi produzida em Manila, nas Filipinas, então parte do império espanhol, possivelmente por artesãos chineses.
Correntes semelhantes aparecem em retratos de membros da elite europeia do século XVII. Segundo a especialista citada pela Smithsonian, peças desse nível de qualidade são raras atualmente porque muitas joias desse tipo foram posteriormente derretidas e transformadas em novos objetos.
Esmeraldas e ametistas levantaram suspeitas de contrabando

Os mergulhadores também encontraram esmeraldas brutas e ametistas distribuídas pelo campo de destroços. O detalhe chama atenção porque essas pedras não estavam registradas na carga oficial do Maravillas destinada à Espanha.
A ausência dos minerais nos registros levou os pesquisadores a considerar que parte das pedras poderia fazer parte de mercadorias não declaradas. A Smithsonian observa que o contrabando era recorrente nos galeões espanhóis que cruzavam o Atlântico naquele período, tornando difícil reconstruir exatamente tudo o que estava a bordo.
Pingentes raros estavam ligados à Ordem de Santiago
Entre as joias recuperadas aparecem também pingentes associados à Ordem de Santiago, uma das mais prestigiadas ordens militares da Espanha e de Portugal. Pelo menos quatro objetos encontrados pela AllenX, incluindo três pingentes, foram relacionados à organização.
Uma das peças tem formato de concha e traz ao centro a cruz de Santiago. Outra combina ouro com uma grande esmeralda colombiana, cercada por 12 esmeraldas quadradas, possivelmente relacionadas simbolicamente aos 12 apóstolos.
Joias sugerem presença de passageiros de alta posição
Os pesquisadores acreditam que os pingentes poderiam pertencer a oficiais ou passageiros de posição elevada. Cavaleiros da Ordem de Santiago estavam envolvidos no comércio marítimo e em viagens de longa distância durante aquele período.
A combinação de correntes elaboradas, pedras preciosas e símbolos religiosos revela uma dimensão diferente do naufrágio, indo além das milhões de moedas e barras de prata recuperadas ao longo dos séculos. Os objetos pessoais ajudam a reconstruir quem viajava naquele galeão e como a elite espanhola demonstrava posição social e devoção religiosa.
Campo de destroços se espalhou por quilômetros
A Allen Exploration passou a tratar o local não apenas como um ponto único de naufrágio, mas como um extenso campo de dispersão. Magnetômetros identificaram aproximadamente 8.800 sinais metálicos em uma área de busca de 11 por 5 milhas.
Os pesquisadores começaram então a registrar sistematicamente cada vestígio encontrado. Além da corrente de ouro, apareceram fragmentos de cerâmica espanhola, porcelana chinesa, garrafas de vidro, cabos de espada, moedas, cachimbos e elementos metálicos associados aos canhões.
Séculos de salvamentos alteraram profundamente o naufrágio
A Espanha organizou dez expedições de salvamento entre 1656 e 1679 para recuperar a riqueza perdida. Depois disso, embarcações inglesas, francesas, holandesas e das próprias Bahamas também exploraram a região.
A partir da década de 1970, equipes modernas de caça ao tesouro voltaram ao local. Ao longo de mais de três séculos, cerca de 3,5 milhões de moedas conhecidas como “pieces of eight” e uma quantidade não divulgada de barras de prata foram retiradas do naufrágio, dificultando a reconstrução arqueológica completa.
Pesquisa científica começou após licença concedida em 2019

Em 2019, o governo das Bahamas concedeu à AllenX licença para pesquisar o naufrágio depois de um período de restrições a expedições de salvamento. A equipe passou a combinar mergulhos, magnetômetros, modelagem de correntes marítimas, levantamentos geológicos e observação aérea.
O objetivo passou a ser reconstruir o padrão de dispersão dos destroços e entender como o navio se fragmentou. Essa abordagem é diferente das operações anteriores centradas principalmente na retirada de objetos valiosos, porque cada achado é registrado em relação ao ponto exato onde foi localizado.
Tesouros encontrados não podem ser vendidos pela equipe
A legislação das Bahamas determina que os bens encontrados em naufrágios dentro das águas do país pertencem ao governo bahamense. Os artefatos recuperados pela AllenX são mantidos reunidos para conservação, estudo, armazenamento ou exposição.
Nenhum dos objetos recuperados pela equipe é colocado à venda. A corrente de ouro, os pingentes e outros achados passaram a integrar o trabalho de preservação do patrimônio marítimo das Bahamas, incluindo a coleção do Bahamas Maritime Museum.
Busca ainda procura partes desaparecidas do galeão
Mesmo depois de anos de levantamentos, os arqueólogos ainda não consideram o trabalho encerrado. Uma das grandes metas é localizar o castelo de popa do Maravillas, estrutura elevada da parte traseira do navio que pode ter se desprendido e derivado antes do afundamento definitivo.
Desde 2019, a AllenX também localizou outros naufrágios nas Bahamas. O campo do Maravillas continua oferecendo vestígios porque a violência do acidente, as correntes e séculos de movimentação dos sedimentos espalharam peças muito além do ponto central do desastre.
Corrente de ouro revelou apenas uma parte do que ainda permanece no fundo
A corrente de ouro de quase 1 kg e 1,8 metro se tornou uma das peças mais marcantes recuperadas do Nuestra Señora de las Maravillas, mas está longe de ser o único vestígio excepcional. Esmeraldas, ametistas, pingentes religiosos, porcelanas, moedas e objetos cotidianos continuam ajudando a reconstruir o que havia naquele galeão espanhol antes do naufrágio de 1656.
Séculos de salvamentos retiraram milhões de moedas do local, mas o trabalho arqueológico atual mostra que o fundo das Bahamas ainda conserva fragmentos dessa história. Para você, o que impressiona mais nesse naufrágio: a corrente de ouro de 1,8 metro, as pedras preciosas aparentemente não declaradas ou o fato de o campo de destroços continuar revelando objetos depois de mais de 350 anos? Conte sua opinião nos comentários.
