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Marte já pode ter sido coberto por um oceano imenso, mas hoje exibe na superfície a marca de uma “banheira vazia” que sugere um desaparecimento colossal de água e reacende um dos maiores mistérios do planeta vermelho

Escrito por Ana Alice
Publicado em 23/04/2026 às 23:56
Estudo aponta marca geológica em Marte que pode indicar um antigo oceano e reacende debate sobre água e vida no planeta vermelho hoje. (Imagem: Ilustrativa)
Estudo aponta marca geológica em Marte que pode indicar um antigo oceano e reacende debate sobre água e vida no planeta vermelho hoje. (Imagem: Ilustrativa)
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Nova análise do relevo marciano aponta uma faixa plana nas planícies do norte como possível vestígio de um antigo oceano, reacendendo um debate científico que acompanha missões e estudos sobre Marte há décadas.

Marte pode preservar, nas planícies do hemisfério norte, uma pista geológica associada à possível existência de um antigo oceano.

Um estudo publicado na revista Nature identificou uma ampla faixa plana de terreno que, segundo os pesquisadores, pode ser compatível com a marca deixada por uma massa de água que teria coberto cerca de um terço do planeta há bilhões de anos.

A formação foi comparada pelos autores à marca deixada em uma banheira após o escoamento da água.

A analogia se refere ao contorno topográfico que poderia ter permanecido depois da evaporação ou perda gradual de um oceano marciano.

A interpretação, no entanto, ainda depende de observações diretas e segue em debate entre especialistas em ciência planetária.

A hipótese se soma a evidências já conhecidas de que Marte teve água líquida na superfície, como antigos canais fluviais, deltas e leitos de lagos secos.

O ponto ainda discutido é se esses ambientes existiram de forma isolada ou se fizeram parte de um sistema maior, com um oceano estável nas terras baixas do norte.

Os autores chamam a estrutura de plataforma costeira.

Ela seria diferente das possíveis linhas de praia observadas desde as missões Viking, que são mais estreitas e apresentam variações de altitude.

No novo estudo, a busca se concentrou em uma faixa mais larga e plana, formada em uma zona de contato prolongado entre terra, sedimentos e água.

Sinal no relevo marciano reacende debate sobre oceano antigo

O trabalho foi conduzido por Abdallah Zaki, pesquisador da Universidade do Texas em Austin, e Michael Lamb, professor de geologia do Instituto de Tecnologia da Califórnia.

Antes de analisar Marte, a equipe usou simulações computacionais para observar quais marcas geológicas permaneceriam na Terra caso os oceanos fossem removidos.

Nessas simulações, as plataformas continentais apareceram como feições persistentes.

Na Terra, essas áreas acumulam sedimentos transportados por rios e modificados por ondas, correntes e mudanças no nível do mar.

A partir dessa referência, os pesquisadores procuraram uma assinatura topográfica semelhante no relevo marciano.

A análise utilizou dados do Mars Orbiter Laser Altimeter, o MOLA, instrumento instalado na sonda Mars Global Surveyor.

O equipamento mediu a topografia de Marte por meio de pulsos de laser e permitiu mapear variações de altitude na superfície do planeta.

“A questão é: se existisse um oceano em Marte e ele secasse, que vestígios teria deixado?”, disse Lamb.

De acordo com o pesquisador, a equipe procurou uma faixa que contornasse a região onde a costa poderia ter existido, semelhante a um banco plano.

Os pesquisadores afirmam ter encontrado sinais compatíveis com essa interpretação.

Ao mesmo tempo, eles reconhecem que a formação marciana não corresponde exatamente às plataformas continentais terrestres.

Por esse motivo, o estudo trata a estrutura como uma evidência em análise, não como uma confirmação definitiva da existência de um oceano.

Conceito artístico de Marte antigo com água líquida (áreas azuis) em sua superfície  • Nasa/Maven/Instituto Lunar e Planetário
Conceito artístico de Marte antigo com água líquida (áreas azuis) em sua superfície • Nasa/Maven/Instituto Lunar e Planetário

Linhas costeiras de Marte ainda dividem cientistas

A possibilidade de Marte ter abrigado um oceano começou a ser discutida com mais força após as missões Viking, lançadas pela Nasa na década de 1970.

Imagens e medições daquela época indicaram feições que alguns cientistas interpretaram como possíveis linhas costeiras no hemisfério norte.

Essas marcas, porém, levantaram questionamentos.

Uma linha costeira formada por um oceano estável tenderia a manter elevação relativamente constante, como ocorre na Terra.

Em Marte, as possíveis praias antigas aparecem em diferentes altitudes, o que dificulta a interpretação.

Uma explicação considerada por pesquisadores envolve deformações posteriores na crosta marciana.

Processos vulcânicos ou mudanças no relevo poderiam ter deslocado partes dessas antigas margens ao longo do tempo.

Ainda assim, segundo especialistas, essa hipótese não elimina todas as dúvidas sobre a origem das feições observadas.

O novo estudo tenta ampliar o foco da análise.

Em vez de buscar apenas marcas estreitas de praia, os autores investigaram uma estrutura mais extensa, que poderia preservar melhor os efeitos de rios, ondas e variações do nível da água.

A proposta é que uma plataforma costeira teria maior chance de resistir às alterações acumuladas ao longo de bilhões de anos.

Rios, deltas e sedimentos entram na hipótese de oceano marciano

A plataforma proposta também foi comparada à localização de antigos deltas marcianos.

Deltas se formam quando rios depositam sedimentos ao chegar a lagos, mares ou oceanos.

Para os autores, o alinhamento de algumas dessas estruturas com a faixa identificada fortalece a hipótese de um antigo limite entre terra e água.

Outras pesquisas recentes mantêm o tema em discussão.

O rover chinês Zhurong, que pousou em Marte em 2021, registrou dados de radar em Utopia Planitia, nas planícies do norte.

Um estudo publicado na revista PNAS descreveu camadas subterrâneas inclinadas interpretadas pelos autores como depósitos costeiros antigos.

Essas estruturas foram associadas a sedimentos que poderiam ter sido acumulados por ondas em uma margem oceânica.

Mesmo assim, os pesquisadores tratam os dados como evidência geológica a ser comparada com outros registros, já que a superfície de Marte passou por longos períodos de erosão, soterramento e alteração.

O conjunto de dados reforça a necessidade de diferenciar ambientes aquáticos menores, como lagos e rios, de uma bacia oceânica ampla.

Essa distinção é relevante porque muda a forma como cientistas interpretam o clima marciano antigo, a circulação de água e a duração de condições potencialmente habitáveis.

Ilustração da NASA mostra como Marte poderia ter sido há bilhões de anos, quando um grande oceano poderia ter coberto cerca de um terço de sua superfície. Imagem: NASA/GSFC
Ilustração da NASA mostra como Marte poderia ter sido há bilhões de anos, quando um grande oceano poderia ter coberto cerca de um terço de sua superfície. Imagem: NASA/GSFC

Água em Marte hoje aparece em gelo, minerais e possível reservatório profundo

Marte é hoje um planeta frio, seco e com atmosfera rarefeita.

A água conhecida aparece principalmente nas calotas polares, em gelo subterrâneo e em minerais hidratados.

Parte do antigo reservatório superficial pode ter escapado para o espaço depois que o planeta perdeu grande parte de sua atmosfera, enquanto outra parte pode ter sido incorporada ao subsolo ou a rochas.

Dados da missão InSight, da Nasa, também foram usados em estudos sobre a presença de água no interior marciano.

Análises sísmicas publicadas por pesquisadores indicaram que medições da sonda são compatíveis com a existência de água líquida em rochas porosas da crosta média, a profundidades estimadas entre 11,5 e 20 quilômetros.

Essa possível água subterrânea não significa que exista um ambiente acessível na superfície atual.

A interpretação aponta para reservatórios profundos, fora do alcance das missões robóticas em operação.

Ainda assim, os dados ajudam a investigar para onde foi a água que moldou paisagens antigas de Marte.

A confirmação de um oceano antigo também teria implicações para estudos sobre habitabilidade.

Ambientes sedimentares associados à água podem preservar registros químicos e minerais importantes, embora nenhuma evidência direta de vida em Marte tenha sido encontrada até agora.

Missão Rosalind Franklin pode ajudar a investigar o subsolo marciano

A missão Rosalind Franklin, da Agência Espacial Europeia, é uma das próximas iniciativas planejadas para investigar o subsolo marciano.

A ESA prevê o lançamento do rover em 2028, com chegada a Marte em 2030.

A Nasa informou que fornecerá serviços e componentes para apoiar a missão, incluindo o lançamento.

O rover foi projetado para perfurar até dois metros abaixo da superfície.

O objetivo é alcançar materiais menos expostos à radiação e às condições extremas do ambiente atual.

A missão buscará sinais químicos e geológicos relacionados à possibilidade de vida passada ou presente em Marte.

A região prevista para a exploração é Oxia Planum, área antiga e rica em minerais formados em contato com água.

Embora o local não represente uma verificação direta de toda a plataforma costeira proposta no novo estudo, os instrumentos do rover poderão contribuir para a reconstrução da história hídrica do planeta.

Especialistas também apontam limites na comparação entre Marte e Terra.

O planeta vermelho não possui tectônica de placas ativa como a terrestre, e isso altera a forma como margens, bacias e sedimentos evoluem.

Diferenças em gravidade, marés, atmosfera e circulação oceânica também podem ter influenciado qualquer corpo d’água que tenha existido.

Por isso, a plataforma costeira descrita no estudo é tratada como uma hipótese testável.

Novos dados orbitais, medições de radar e análises de rochas em solo marciano serão necessários para avaliar se a faixa identificada corresponde, de fato, a uma antiga margem oceânica.

Caso Marte tenha abrigado um oceano estável por longos períodos, a história ambiental do planeta terá incluído uma fase muito diferente da paisagem árida observada atualmente.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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