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Maior fábrica de celulose do planeta, cravada no Mato Grosso do Sul, vai rasgar 47 quilômetros de ferrovia própria para arrastar 3,5 milhões de toneladas por ano da terra do eucalipto até o Porto de Santos, rumo ao Atlântico

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 22/07/2026 às 20:06 Atualizado em 22/07/2026 às 21:16
Ferrovia privada de 47 km vai ligar a maior fábrica de celulose do mundo, em Inocência (MS), ao Porto de Santos. Veja o Projeto Sucuriú da Arauco.
Ferrovia privada de 47 km vai ligar a maior fábrica de celulose do mundo, em Inocência (MS), ao Porto de Santos. Veja o Projeto Sucuriú da Arauco.
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A chilena Arauco constrói em Inocência, no Mato Grosso do Sul, a maior fábrica de celulose do mundo em etapa única, com investimento de US$ 4,6 bilhões. Para escoar a produção, ergue uma ferrovia privada de 47 quilômetros que se conecta à Malha Norte da Rumo rumo ao Porto de Santos.

A maior fábrica de celulose do planeta está sendo levantada em Inocência, cidade de pouco mais de 8 mil habitantes no leste do Mato Grosso do Sul, e vem acompanhada de uma ferrovia construída do zero para tirar a produção de dentro do eucaliptal. O ramal privado da chilena Arauco terá 47 quilômetros de extensão e ligará a planta industrial à Malha Norte, operada pela Rumo Logística, de onde os trens seguem pelos trilhos já existentes até o Porto de Santos, no litoral paulista.

O conjunto é o maior investimento da história da companhia. A fábrica do Projeto Sucuriú está orçada em US$ 4,6 bilhões, algo em torno de R$ 25 bilhões, e terá capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose de fibra curta por ano, volume destinado quase inteiramente à exportação. A previsão é que tanto a unidade industrial quanto a ferrovia estejam prontas no segundo semestre de 2027.

Os 47 quilômetros não chegam sozinhos a Santos

Esse é o ponto que costuma ser mal explicado nas manchetes. A ferrovia privada da Arauco não vai de Inocência até o litoral paulista. Ela cobre o trecho que faltava, ligando a área de expedição da fábrica a um pátio de transição ao lado dos trilhos da Rumo, que já cortam o município vindo de Rondonópolis, no Mato Grosso, em direção a Santos.

Somando o que existe dentro do complexo, o número cresce. Além dos 47 quilômetros de linha externa, há cerca de 9 quilômetros de trilhos internos na própria fábrica, o que leva o traçado total para perto de 54 quilômetros. O desenho segue paralelo às rodovias MS-377 e MS-240 e passa exclusivamente por áreas rurais do município.

O investimento só na parte ferroviária é bilionário e aparece em faixas distintas conforme a fase do projeto e a fonte consultada, entre R$ 2,4 bilhões e R$ 2,8 bilhões, valor que não está incluído nos US$ 4,6 bilhões da planta industrial. As obras estão a cargo da Construcap.

26 locomotivas, 721 vagões e 190 caminhões a menos por dia

A frota dimensiona a operação melhor do que a quilometragem. O projeto logístico prevê 26 locomotivas e 721 vagões, com capacidade de até 9.600 toneladas por composição. Cinco locomotivas já foram entregues, em cerimônia realizada na fábrica do equipamento em Minas Gerais.

O impacto mais palpável para quem vive na região aparece nas rodovias. A ferrovia tem capacidade para substituir até 190 viagens de caminhão por dia, retirando das estradas um fluxo que se concentraria em trechos de pista simples do interior sul-mato-grossense. Menos caminhão significa menos desgaste de asfalto, menos risco de acidente e menos emissão por tonelada transportada.

Vale um registro de proporção. Uma composição de 9,6 mil toneladas equivale a algo próximo de 240 carretas graneleiras carregadas. É esse tipo de conta que explica por que operações de celulose e de grãos pressionam tanto por acesso ferroviário no Centro-Oeste.

A fábrica: 3,5 milhões de toneladas por ano e 400 mil hectares de eucalipto

A planta é descrita pela própria companhia como o maior empreendimento industrial de celulose do mundo construído em etapa única, ou seja, sem a lógica de expansões sucessivas que marcou outras fábricas do setor. A capacidade anunciada é de 3,5 milhões de toneladas anuais de celulose de fibra curta, com algo entre 95% e 98% do volume destinado ao mercado externo.

Para abastecer essa máquina, a estrutura florestal é proporcional. O projeto contempla cerca de 400 mil hectares de plantações de eucalipto no entorno, base da matéria-prima que vai alimentar a linha de produção. É essa combinação de floresta plantada, fábrica gigante e ferrovia própria que muda o mapa logístico da celulose no país.

A unidade também foi desenhada para se sustentar em energia. A previsão é de autossuficiência energética com geração superior a 400 megawatts a partir de biomassa, o que reduz a dependência da rede e o volume de emissões associado ao processo produtivo.

Uma obra com 14 mil trabalhadores em uma cidade de 8,4 mil habitantes

O choque de escala fica evidente quando se compara o canteiro com o município. Inocência tem cerca de 8,4 mil habitantes e fica a 331 quilômetros de Campo Grande. No auge das obras, o projeto deve reunir frentes de trabalho com aproximadamente 14 mil pessoas, número que supera com folga a população local.

Depois da inauguração, o quadro se estabiliza em outro patamar. A estimativa é de cerca de 6 mil funcionários nas áreas florestal, industrial e de logística. Só a construção da ferrovia deve gerar por volta de mil empregos, e a obra da fábrica fica a 50 quilômetros da área urbana de Inocência, o que joga sobre a cidade a demanda por moradia, serviço e infraestrutura sem que ela esteja no mesmo terreno do empreendimento.

A primeira ferrovia autorizada a sair do papel em cinco anos

O ramal tem um significado que ultrapassa o projeto da Arauco. Ele é apontado como a primeira ferrovia construída sob o regime de autorização a efetivamente sair do papel desde que o modelo foi criado, cinco anos atrás. Nesse formato, a iniciativa privada solicita a autorização e banca a obra, sem leilão de concessão.

A autorização para implantar o ramal, identificado como EF-A35, foi concedida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres. Na cerimônia de liberação, o ministro dos Transportes, Renan Filho, tratou o empreendimento como solução para um gargalo logístico antigo, com redução do fluxo de caminhões nas rodovias e ganho de segurança viária. A pedra fundamental da ferrovia foi lançada em fevereiro de 2026, e as obras seguem em ritmo acelerado desde então.

A concessionária de rodovia que foi à Justiça para barrar a obra

Nem tudo corre sem atrito. Em julho de 2026, a concessionária Way-112, responsável pela administração da rodovia MS-112 e de trechos das BRs 158 e 436, ingressou com ação de reintegração de posse na Vara Única da Comarca de Inocência para tentar embargar parte das obras. A empresa acusa a Arauco de esbulho possessório por ocupar a faixa de domínio da rodovia estadual e pede inclusive o desfazimento de um viaduto ferroviário construído sobre a pista.

O argumento da concessionária é de que o uso da faixa de domínio dependeria de autorização dela própria e de anuência da Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul, a Agems, o que não teria ocorrido. A Arauco contesta a exigência, sustenta que a autorização federal da ANTT para o ramal EF-A35 é suficiente e alega que a cobrança seria indevida com base em entendimentos já firmados pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal.

Até agora, a Justiça não interrompeu a ferrovia. Em primeira instância, o juiz Edimilson Barbosa Ávila adiou a análise da liminar, determinou a citação da empresa e intimou a Agems a prestar informações. Em seguida, o desembargador Alexandre Branco Pucci, da 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, indeferiu o pedido de tutela de urgência da concessionária. As obras continuam, e o mérito ainda será julgado.

O Ministério Público investiga a expansão do eucalipto

Existe uma segunda frente de questionamento, e ela não trata de trilhos. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul instaurou inquérito civil para apurar os impactos ambientais da expansão das plantações de eucalipto voltadas à produção de celulose na região leste do estado, área que abrange justamente o entorno do projeto.

Inquérito civil não é acusação nem condenação, é instrumento de apuração. O registro entra aqui porque uma pauta sobre ferrovia e megafábrica fica incompleta sem mencionar que o modelo de expansão florestal está sob análise institucional. O desfecho dependerá do que o próprio Ministério Público concluir, e o assunto tende a voltar ao noticiário conforme a área plantada cresce.

O que ainda falta até 2027

No trecho ferroviário, a lista de obras complementares é grande. O traçado prevê passagens inferiores e superiores para garantir a travessia de veículos e animais, além de estruturas de arte especiais, entre elas uma ponte sobre o córrego São Mateus, apontada como uma das principais intervenções do projeto.

O cronograma amarra ferrovia e fábrica no mesmo prazo. A conclusão está prevista para o segundo semestre de 2027, com a produção industrial começando no último trimestre daquele ano, de modo que o escoamento por trilhos exista desde o primeiro carregamento. É esse encaixe que dá ao projeto uma característica rara no setor: operação logística ferroviária própria já no início das atividades industriais, sem passar por uma fase inicial dependente de caminhão.

O retrato é de um projeto que muda a escala de tudo à sua volta. Uma fábrica de US$ 4,6 bilhões no interior do Mato Grosso do Sul, 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano, 400 mil hectares de eucalipto, uma ferrovia privada de 47 quilômetros e um município de 8,4 mil habitantes recebendo um canteiro com até 14 mil trabalhadores. Em paralelo, uma disputa judicial com a concessionária da rodovia e um inquérito ambiental em curso mostram que empreendimento desse porte não avança sem conflito.

E você, acha que uma obra dessas compensa para uma cidade pequena, com emprego e arrecadação, ou o custo ambiental e a pressão sobre a infraestrutura local pesam mais? Se você mora na região ou trabalha no setor, conta nos comentários o que mudou por aí desde que o canteiro abriu.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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