A chilena Arauco constrói em Inocência, no Mato Grosso do Sul, a maior fábrica de celulose do mundo em etapa única, com investimento de US$ 4,6 bilhões. Para escoar a produção, ergue uma ferrovia privada de 47 quilômetros que se conecta à Malha Norte da Rumo rumo ao Porto de Santos.
A maior fábrica de celulose do planeta está sendo levantada em Inocência, cidade de pouco mais de 8 mil habitantes no leste do Mato Grosso do Sul, e vem acompanhada de uma ferrovia construída do zero para tirar a produção de dentro do eucaliptal. O ramal privado da chilena Arauco terá 47 quilômetros de extensão e ligará a planta industrial à Malha Norte, operada pela Rumo Logística, de onde os trens seguem pelos trilhos já existentes até o Porto de Santos, no litoral paulista.
O conjunto é o maior investimento da história da companhia. A fábrica do Projeto Sucuriú está orçada em US$ 4,6 bilhões, algo em torno de R$ 25 bilhões, e terá capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose de fibra curta por ano, volume destinado quase inteiramente à exportação. A previsão é que tanto a unidade industrial quanto a ferrovia estejam prontas no segundo semestre de 2027.
Os 47 quilômetros não chegam sozinhos a Santos
Esse é o ponto que costuma ser mal explicado nas manchetes. A ferrovia privada da Arauco não vai de Inocência até o litoral paulista. Ela cobre o trecho que faltava, ligando a área de expedição da fábrica a um pátio de transição ao lado dos trilhos da Rumo, que já cortam o município vindo de Rondonópolis, no Mato Grosso, em direção a Santos.
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Somando o que existe dentro do complexo, o número cresce. Além dos 47 quilômetros de linha externa, há cerca de 9 quilômetros de trilhos internos na própria fábrica, o que leva o traçado total para perto de 54 quilômetros. O desenho segue paralelo às rodovias MS-377 e MS-240 e passa exclusivamente por áreas rurais do município.
O investimento só na parte ferroviária é bilionário e aparece em faixas distintas conforme a fase do projeto e a fonte consultada, entre R$ 2,4 bilhões e R$ 2,8 bilhões, valor que não está incluído nos US$ 4,6 bilhões da planta industrial. As obras estão a cargo da Construcap.
26 locomotivas, 721 vagões e 190 caminhões a menos por dia
A frota dimensiona a operação melhor do que a quilometragem. O projeto logístico prevê 26 locomotivas e 721 vagões, com capacidade de até 9.600 toneladas por composição. Cinco locomotivas já foram entregues, em cerimônia realizada na fábrica do equipamento em Minas Gerais.
O impacto mais palpável para quem vive na região aparece nas rodovias. A ferrovia tem capacidade para substituir até 190 viagens de caminhão por dia, retirando das estradas um fluxo que se concentraria em trechos de pista simples do interior sul-mato-grossense. Menos caminhão significa menos desgaste de asfalto, menos risco de acidente e menos emissão por tonelada transportada.
Vale um registro de proporção. Uma composição de 9,6 mil toneladas equivale a algo próximo de 240 carretas graneleiras carregadas. É esse tipo de conta que explica por que operações de celulose e de grãos pressionam tanto por acesso ferroviário no Centro-Oeste.
A fábrica: 3,5 milhões de toneladas por ano e 400 mil hectares de eucalipto
A planta é descrita pela própria companhia como o maior empreendimento industrial de celulose do mundo construído em etapa única, ou seja, sem a lógica de expansões sucessivas que marcou outras fábricas do setor. A capacidade anunciada é de 3,5 milhões de toneladas anuais de celulose de fibra curta, com algo entre 95% e 98% do volume destinado ao mercado externo.
Para abastecer essa máquina, a estrutura florestal é proporcional. O projeto contempla cerca de 400 mil hectares de plantações de eucalipto no entorno, base da matéria-prima que vai alimentar a linha de produção. É essa combinação de floresta plantada, fábrica gigante e ferrovia própria que muda o mapa logístico da celulose no país.
A unidade também foi desenhada para se sustentar em energia. A previsão é de autossuficiência energética com geração superior a 400 megawatts a partir de biomassa, o que reduz a dependência da rede e o volume de emissões associado ao processo produtivo.
Uma obra com 14 mil trabalhadores em uma cidade de 8,4 mil habitantes
O choque de escala fica evidente quando se compara o canteiro com o município. Inocência tem cerca de 8,4 mil habitantes e fica a 331 quilômetros de Campo Grande. No auge das obras, o projeto deve reunir frentes de trabalho com aproximadamente 14 mil pessoas, número que supera com folga a população local.
Depois da inauguração, o quadro se estabiliza em outro patamar. A estimativa é de cerca de 6 mil funcionários nas áreas florestal, industrial e de logística. Só a construção da ferrovia deve gerar por volta de mil empregos, e a obra da fábrica fica a 50 quilômetros da área urbana de Inocência, o que joga sobre a cidade a demanda por moradia, serviço e infraestrutura sem que ela esteja no mesmo terreno do empreendimento.
A primeira ferrovia autorizada a sair do papel em cinco anos
O ramal tem um significado que ultrapassa o projeto da Arauco. Ele é apontado como a primeira ferrovia construída sob o regime de autorização a efetivamente sair do papel desde que o modelo foi criado, cinco anos atrás. Nesse formato, a iniciativa privada solicita a autorização e banca a obra, sem leilão de concessão.
A autorização para implantar o ramal, identificado como EF-A35, foi concedida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres. Na cerimônia de liberação, o ministro dos Transportes, Renan Filho, tratou o empreendimento como solução para um gargalo logístico antigo, com redução do fluxo de caminhões nas rodovias e ganho de segurança viária. A pedra fundamental da ferrovia foi lançada em fevereiro de 2026, e as obras seguem em ritmo acelerado desde então.
A concessionária de rodovia que foi à Justiça para barrar a obra
Nem tudo corre sem atrito. Em julho de 2026, a concessionária Way-112, responsável pela administração da rodovia MS-112 e de trechos das BRs 158 e 436, ingressou com ação de reintegração de posse na Vara Única da Comarca de Inocência para tentar embargar parte das obras. A empresa acusa a Arauco de esbulho possessório por ocupar a faixa de domínio da rodovia estadual e pede inclusive o desfazimento de um viaduto ferroviário construído sobre a pista.
O argumento da concessionária é de que o uso da faixa de domínio dependeria de autorização dela própria e de anuência da Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul, a Agems, o que não teria ocorrido. A Arauco contesta a exigência, sustenta que a autorização federal da ANTT para o ramal EF-A35 é suficiente e alega que a cobrança seria indevida com base em entendimentos já firmados pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal.
Até agora, a Justiça não interrompeu a ferrovia. Em primeira instância, o juiz Edimilson Barbosa Ávila adiou a análise da liminar, determinou a citação da empresa e intimou a Agems a prestar informações. Em seguida, o desembargador Alexandre Branco Pucci, da 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, indeferiu o pedido de tutela de urgência da concessionária. As obras continuam, e o mérito ainda será julgado.
O Ministério Público investiga a expansão do eucalipto
Existe uma segunda frente de questionamento, e ela não trata de trilhos. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul instaurou inquérito civil para apurar os impactos ambientais da expansão das plantações de eucalipto voltadas à produção de celulose na região leste do estado, área que abrange justamente o entorno do projeto.
Inquérito civil não é acusação nem condenação, é instrumento de apuração. O registro entra aqui porque uma pauta sobre ferrovia e megafábrica fica incompleta sem mencionar que o modelo de expansão florestal está sob análise institucional. O desfecho dependerá do que o próprio Ministério Público concluir, e o assunto tende a voltar ao noticiário conforme a área plantada cresce.
O que ainda falta até 2027
No trecho ferroviário, a lista de obras complementares é grande. O traçado prevê passagens inferiores e superiores para garantir a travessia de veículos e animais, além de estruturas de arte especiais, entre elas uma ponte sobre o córrego São Mateus, apontada como uma das principais intervenções do projeto.
O cronograma amarra ferrovia e fábrica no mesmo prazo. A conclusão está prevista para o segundo semestre de 2027, com a produção industrial começando no último trimestre daquele ano, de modo que o escoamento por trilhos exista desde o primeiro carregamento. É esse encaixe que dá ao projeto uma característica rara no setor: operação logística ferroviária própria já no início das atividades industriais, sem passar por uma fase inicial dependente de caminhão.
O retrato é de um projeto que muda a escala de tudo à sua volta. Uma fábrica de US$ 4,6 bilhões no interior do Mato Grosso do Sul, 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano, 400 mil hectares de eucalipto, uma ferrovia privada de 47 quilômetros e um município de 8,4 mil habitantes recebendo um canteiro com até 14 mil trabalhadores. Em paralelo, uma disputa judicial com a concessionária da rodovia e um inquérito ambiental em curso mostram que empreendimento desse porte não avança sem conflito.
E você, acha que uma obra dessas compensa para uma cidade pequena, com emprego e arrecadação, ou o custo ambiental e a pressão sobre a infraestrutura local pesam mais? Se você mora na região ou trabalha no setor, conta nos comentários o que mudou por aí desde que o canteiro abriu.
