Sem dinheiro para cursinho, a menina estudou por livros doados por outro estudante. O material vinha respondido, e a mãe apagava as respostas para a filha poder resolver tudo de novo. O pai imprimia as provas antigas. Na terceira tentativa, veio a aprovação em medicina.
Angélica Oton, então com 20 anos, foi aprovada no curso de medicina da Universidade Federal da Paraíba com nota 877,55 no Exame Nacional do Ensino Médio, entrando pelo Sisu de 2024. A menina, natural de Itaporanga, no sertão paraibano, estudou sem cursinho preparatório e sem aulas particulares, usando livros doados por outro estudante de medicina que também não teve acesso a esse tipo de apoio.
A história foi contada por ela em entrevista ao Correio Braziliense, publicada em fevereiro de 2024. Filha de uma gari e de um vigia, ela chegou a estudar de 10 a 11 horas por dia, com material impresso pelo pai e com as respostas dos livros apagadas pela mãe para que pudesse refazer os exercícios do zero.
Os livros que vieram de outro estudante
O ponto de partida da preparação não foi uma matrícula em cursinho, foi uma doação. Angélica recebeu livros de um rapaz que também cursa medicina e que, como ela, não tinha tido acesso a cursinhos nem a aulas particulares na própria preparação.
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O detalhe importa mais do que parece. O material que abriu a porta da faculdade para ela já tinha servido a alguém em situação parecida, o que transforma a doação em uma espécie de revezamento entre estudantes que não podiam pagar pelo caminho tradicional. Foi com esses livros, e não com apostilas compradas, que a menina montou a própria base de estudo para as três tentativas no exame.
Vale registrar o que esse arranjo revela sobre o funil de acesso ao curso. Medicina é disputada por candidatos que passam anos em cursinhos caros, com plataforma digital, banco de questões e professor particular. Do outro lado da mesma prova estava uma estudante usando livro de segunda mão e vídeo gratuito na internet, respondendo às mesmas questões e concorrendo pelas mesmas vagas.
A borracha da mãe e o truque de apagar para responder de novo
O problema dos livros doados era óbvio: parte deles vinha com as respostas já preenchidas. Um caderno de exercícios respondido perde quase toda a função, porque o estudante enxerga a solução antes de tentar resolver.
A solução veio da mãe, e permitiu que a menina refizesse o mesmo caderno quantas vezes fossem necessárias. Maria do Rosário passou a apagar as respostas dos livros para que a filha pudesse responder tudo novamente, exercício por exercício. É um trabalho manual, repetitivo e silencioso, que não aparece em nenhuma estatística de aprovação, mas que devolveu ao material a única coisa que faltava nele: a possibilidade de errar sozinha antes de conferir o gabarito.
Onze horas por dia, de manhã, de tarde e de noite

A rotina de estudo que ela descreve é pesada. Angélica lia apostilas, fazia resumos e usava bastante o YouTube como fonte de aula, dividindo o dia entre os três períodos. Segundo ela, muitas vezes foram de 10 a 11 horas diárias dedicadas ao material.
Vale dimensionar o que significa esse número. Onze horas de estudo equivalem a uma jornada de trabalho e meia, feita em casa, sem colega de sala, sem professor para tirar dúvida na hora e sem cronograma montado por terceiros. A menina precisava ser aluna e coordenadora do próprio curso ao mesmo tempo, decidindo o que estudar, em que ordem e por quanto tempo.
Havia também a régua para os dias ruins, e esse detalhe costuma ser o mais útil para quem estuda por conta própria. Mesmo nos dias cansativos, ela garantia pelo menos uma hora de estudo, variando conforme a disposição. Manter a corrente em movimento importava mais do que bater a meta cheia todo dia, estratégia que sustentou a preparação ao longo de dois anos sem estrutura paga por trás.
O pai que imprimia as provas antigas
A divisão de tarefas dentro de casa tinha uma terceira ponta. Se a mãe apagava as respostas, o pai cuidava do material de treino: era João Salviano do Nascimento quem imprimia as provas antigas e os simulados que a filha usava para medir o próprio desempenho.
Resolver prova anterior é uma das técnicas mais recomendadas para quem se prepara sozinho, e era com esse material impresso que a menina media o próprio ritmo. É uma das técnicas mais recomendadas para quem se prepara para o exame, porque expõe o estilo das questões e o ritmo do tempo de prova. Sem impressão, esse treino simplesmente não existiria em casa, e é por isso que a tarefa do pai pesa tanto na história quanto o material doado. A conta que a família montou foi essa: livros de graça, conteúdo gratuito na internet e papel impresso em casa.
Uma gari, um vigia e uma decisão sobre educação
Os pais de Angélica trabalham em funções que raramente aparecem em manchete de aprovação em medicina. Maria do Rosário é gari, João Salviano é vigia, e os dois sustentaram a aposta na educação da filha e do filho mesmo sem condições de bancar um cursinho preparatório.
O apoio aparece nos detalhes práticos do relato, e não em discurso. Foi a mãe que apagou as respostas e o pai que imprimiu as provas, enquanto a filha ocupava o tempo com o estudo. É uma divisão de esforço que só funciona quando a casa inteira entende que aquilo é prioridade, e foi assim que a menina chegou à terceira tentativa com material próprio organizado.
A bolsa que exigia ser a primeira da turma
Antes do Enem, houve outro obstáculo. Angélica cursou o ensino médio em uma escola particular de Itaporanga como bolsista, vaga que conquistou em um concurso de bolsas. A regra, porém, tinha um preço alto: para continuar com o benefício, era preciso ficar em primeiro lugar da turma.
A menina precisou vencer esse desafio logo na primeira série do ensino médio e manteve a bolsa até se formar, em 2021. Estudar sob a ameaça de perder a vaga caso não fosse a melhor da classe é uma pressão que poucos adolescentes enfrentam, e foi essa a rotina dela antes mesmo de começar a preparação para o exame nacional.
Duas tentativas antes da que deu certo
A aprovação não veio de primeira, e esse é um ponto que a própria estudante faz questão de registrar. Foram duas tentativas anteriores antes da terceira, aquela que finalmente colocou o nome dela na lista.
A menina começou a estudar para o Enem dois anos antes da aprovação, período em que manteve a rotina de livros doados, resumos e vídeos. Entre a primeira tentativa e a vaga em medicina existe uma sequência de reprovações que raramente entra na história quando ela é contada em post de rede social. O caminho descrito por ela tem repetição, cansaço e recomeço, não um salto único de talento.
877,55 no Enem e a vaga na Universidade Federal da Paraíba

O resultado que fechou a conta foi uma nota de 877,55, suficiente para garantir a aprovação em medicina na Universidade Federal da Paraíba pelo Sisu de 2024. Medicina é historicamente o curso mais concorrido do sistema em praticamente todas as instituições federais do país.

Para a menina de Itaporanga, a entrada aconteceu pela chamada regular, o que significa que ela ficou dentro do número de vagas já no primeiro chamamento, sem depender de lista de espera. Foi a mensagem de parabéns pela seleção na chamada regular que confirmou tudo, exatamente o texto que ela relata ter lido na tela naquela manhã.
A manhã em que a cidade inteira comemorou
O resultado saiu antes do previsto. Angélica esperava a divulgação para a tarde, mas a lista apareceu ainda de manhã, e a comemoração começou dentro de casa. Ela saiu para abraçar o pai e a mãe assim que confirmou o nome entre os aprovados.
O que aconteceu depois explica por que a história correu o país. Os vizinhos começaram a chegar, todo mundo passou a chorar e comemorar junto, e o dia virou festa coletiva. Em cidade pequena, aprovação em medicina de uma menina que estudou com livros doados não é conquista individual, e o relato dela sobre a comemoração da cidade inteira deixa isso claro.
Da criança que adoecia à estudante de medicina
A escolha do curso tem origem antiga. Angélica adoecia com frequência quando criança e precisava se deslocar para cidades vizinhas em busca de atendimento, uma realidade comum em municípios do interior com estrutura de saúde limitada.
Foi nessas internações que nasceu a admiração pela profissão. Ela observava a rotina dos médicos que a atendiam e passou a querer aquilo para si. A menina que corria para outra cidade quando ficava doente entrou na faculdade para ocupar o outro lado dessa cena, o que dá à aprovação um peso que vai além da nota no exame.
A mudança para João Pessoa e o que veio depois
A aprovação trouxe junto uma mudança de vida prática para a menina. Para cursar medicina na universidade federal, ela precisaria deixar Itaporanga e se mudar para João Pessoa, capital do estado, deslocamento comum para estudantes do interior aprovados em federais.
Vale um registro de contexto para quem lê hoje. A entrevista foi publicada em fevereiro de 2024, quando ela ainda aguardava o início das aulas, e o material não acompanha o que aconteceu depois disso. Considerando o calendário normal de um curso de medicina, que dura seis anos, ela estaria hoje na metade da graduação, mas a fonte consultada não traz atualização sobre esse período.
E você, conseguiria estudar 11 horas por dia
A história de Angélica coloca duas conversas na mesa ao mesmo tempo. Uma é sobre esforço individual, sobre a menina que estudou 11 horas por dia com material emprestado e chegou onde queria. A outra é sobre o tamanho do obstáculo, porque a mesma história mostra que faltava a ela algo que boa parte dos concorrentes tinha de graça: cursinho, aula particular e material próprio.
Agora queremos ouvir você. Você acha que casos como esse provam que dá para vencer só com dedicação, ou expõem justamente o quanto o sistema é desigual para quem não pode pagar preparação? E se você já estudou por conta própria para um concurso ou vestibular, qual foi o material gratuito que mais te ajudou? Comenta aqui embaixo e ajude quem está estudando agora.
