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Kinross extrai até 18,6 toneladas de ouro por ano em Paracatu, tem barragem licenciada para 750 milhões de m³ de rejeitos, mais de 60 vezes a de Brumadinho, e agora o MPF busca acordo para reparar três quilombos

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 13/10/2026 às 15:27 Atualizado em 13/10/2026 às 15:28
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Técnicos de capacete e colete na borda da cava da mina de ouro da Kinross, em Paracatu (MG), durante a vistoria do MPF.
Foto: Comunicação/MPF
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A Kinross responde por cerca de 22% do ouro produzido no país e por quase 30% do lucro de US$ 2,39 bilhões da canadense em 2025, segundo o MPF, que tenta um acordo por Machadinho, Amaros e São Domingos.

A Kinross opera em Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais, a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil. Agora o Ministério Público Federal (MPF) tenta fechar com a mineradora canadense um acordo para reparar três comunidades quilombolas. A negociação foi divulgada na sexta-feira (9), em nota do MPF.

A conversa corre numa ação civil pública no Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), conduzida pelo procurador regional da República José Adércio Leite Sampaio. O MPF visitou a mina e fez reuniões com moradores dos quilombos de Machadinho, Amaros e São Domingos. A Kinross não havia se manifestado até a publicação da reportagem do Paranaíba Mais, que pediu posicionamento à empresa.

Quanto ouro sai de uma rocha que tem 0,4 grama por tonelada?

A unidade de Paracatu responde por cerca de 22% do ouro produzido no Brasil, segundo o MPF. A extração anual fica entre 17 e 18,6 toneladas.

O segredo está no teor: 0,4 grama de ouro em cada tonelada de rocha. O presidente da Kinross no Brasil, Rodrigo Gomides, disse à Bloomberg Línea que é um dos menores teores do mundo. Por isso, a empresa precisa investir em tecnologia para manter o custo baixo.

Veja a conta. Dezoito toneladas de ouro são 18 milhões de gramas. Divididos por 0,4 grama, dão 45 milhões de toneladas de rocha, no mínimo, porque nenhuma usina recupera todo o metal.

A própria Kinross fala em fôlego. A mina opera em Paracatu desde 1987, tem vida útil prevista até 2034 e há estudos para ir além, segundo o executivo. A empresa diz responder por 25% da produção legal de ouro do país, número que difere dos 22% do MPF.

Quanto a mina pesa no lucro da Kinross?

Em 2025, a Kinross registrou lucro líquido global de US$ 2,39 bilhões, cerca de R$ 14,73 bilhões. Quase 30% desse resultado veio da unidade de Paracatu, segundo o MPF.

Trinta por cento de R$ 14,73 bilhões dá R$ 4,4 bilhões. É o teto dessa fatia, já que a nota diz “quase” 30%.

Qual o tamanho da barragem que fica sobre o território quilombola?

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) demarca mais de dois mil hectares para o Quilombo do Machadinho. Mais da metade está ocupada pela mineradora, e a maior parte do território fica sob a Barragem de Eustáquio, segundo o MPF.

A estrutura tem capacidade licenciada para 750 milhões de metros cúbicos de rejeitos. É mais de 60 vezes o volume da barragem de Brumadinho (MG) quando se rompeu, cerca de 12 milhões de metros cúbicos, compara o MPF.

Somada à Barragem Santo Antônio, de 483 milhões de metros cúbicos, o complexo acumula 1,2 bilhão de metros cúbicos.

O MPF informa que a barragem de Eustáquio já foi alvo de inquérito civil para apurar trincas e processos erosivos no aterro. Análises da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) acharam arsênio e metais pesados em cursos d’água e no lençol freático da região, de acordo com a nota.

Quem vive entre a cava e a cidade?

O Quilombo de São Domingos reúne cerca de 186 famílias, aproximadamente mil pessoas. Fica entre a cava da mina e a área urbana de Paracatu, descreve o MPF. Moradores do quilombo e de bairros vizinhos relatam tremores e fissuras nas casas depois das detonações da tarde. Também reclamam da poeira nas moradias.

Mapa de satélite de Paracatu com o contorno da propriedade da Kinross e, em amarelo, os territórios dos quilombos Machadinho, Amaros e São Domingos.
Os três territórios quilombolas aparecem dentro e ao redor da propriedade da mina Morro do Ouro. Foto: Mapa: Kinross, divulgado pelo MPF

O MPF afirma que perícias do órgão detectaram níveis elevados de arsênio em amostras de urina de moradores. O metal também apareceu no material particulado do ar perto da mina.

Machadinho e Amaros aparecem na nota como comunidades totalmente desterritorializadas. No Amaros, mais de 500 famílias foram dispersas, segundo o MPF. O órgão atribui isso à expansão da Barragem Santo Antônio e à atuação de outros posseiros. No Machadinho, a maioria das famílias deixou a área e se espalhou por Minas Gerais, Goiás e o Distrito Federal.

Uma das reuniões da vistoria juntou cerca de 300 integrantes do Machadinho.

O que o MPF quer negociar com a Kinross?

A proposta tem três eixos: reconhecimento oficial das comunidades, garantia dos direitos territoriais e critérios para indenizações e reassentamentos. Para Sampaio, a busca por acordo “não significa flexibilizar exigências”, como diz a nota do MPF. A ideia é dar rapidez ao direito à terra e à indenização.

Moradores sentados em auditório ouvem representantes do MPF em reunião sobre a reparação às comunidades quilombolas de Paracatu (MG).
Reunião do MPF com moradores quilombolas durante a vistoria em Paracatu. Foto: Comunicação/MPF

Em paralelo, lideranças locais ajuizaram ações civis públicas que pedem R$ 1 bilhão em reparações morais e socioambientais. Entre os pedidos estão a titulação das terras pelo Incra e a reparação por danos à saúde e ao patrimônio. Há ainda um plano de fechamento de mina com descaracterização das barragens.

Onde o caso tramita?

A ação civil pública que embasa a negociação tem o número 0001628-72.2009.4.01.3806. Ela corre no TRF6, a segunda instância da Justiça Federal com jurisdição sobre Minas Gerais. A Procuradoria Regional da República da 6ª Região (PRR6) é a unidade do MPF que atua no processo.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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