Fazenda de 4.364 hectares no Tocantins passou por uma transformação profunda depois de enfrentar queda de produtividade durante anos de arrendamento. A retomada pela família abriu espaço para recuperação ambiental, diversificação agrícola e integração entre diferentes sistemas produtivos, mudando a lógica de uso da propriedade.
Jorge Akira Saijo assumiu o desafio de recuperar uma propriedade rural de 4.364 hectares no Tocantins depois que a fazenda, pertencente à família desde a década de 1980, atravessou um período de queda de produtividade durante anos de arrendamento.
Em vez de simplesmente retomar o modelo agrícola anterior, ele passou a conduzir a Fazenda Tupã como um grande campo de experimentação de práticas sustentáveis, combinando recuperação do solo e das nascentes, reflorestamento, diversificação agrícola e integração entre lavoura, pecuária e floresta.
Fazenda Tupã fica em uma das principais fronteiras agrícolas do Brasil
Localizada no Tocantins, estado inserido na região conhecida como Matopiba, a propriedade integra uma das principais fronteiras agrícolas brasileiras e já era utilizada pela família de Saijo para o cultivo de soja e a criação de gado antes do arrendamento.
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Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, as terras foram arrendadas em 2009, mas a produtividade caiu ao longo dos anos e os arrendatários enfrentaram dificuldades financeiras, cenário que acabou levando a família a reassumir diretamente a operação da fazenda.
Recuperação do solo e das nascentes mudou a lógica da propriedade
A partir dessa retomada, a recuperação ambiental ganhou espaço central na estratégia adotada por Saijo, que passou a trabalhar na regeneração do solo, na recuperação das nascentes e no resgate da biodiversidade existente em diferentes áreas da propriedade rural.
Ao mesmo tempo, áreas foram reflorestadas com espécies nativas, enquanto técnicas como plantio direto, rotação de culturas e integração entre atividades agrícolas e pecuárias começaram a reduzir a dependência de um sistema concentrado principalmente em poucas culturas.
Durante o período de arrendamento, soja e milho haviam se tornado predominantes, mas a volta da família à administração direta abriu espaço para uma mudança mais ampla, que buscava recuperar a produtividade sem separar esse objetivo da reconstrução das condições naturais.

Com isso, solo, água, árvores e produção passaram a ser tratados como partes de um mesmo sistema, permitindo que a recuperação ambiental deixasse de funcionar como atividade paralela e passasse a integrar diretamente a própria lógica econômica da propriedade.
Integração lavoura-pecuária-floresta ampliou a diversidade
Entre as ferramentas adotadas está a integração lavoura-pecuária-floresta, conhecida pela sigla ILPF, modelo que combina componentes agrícolas, pecuários e florestais dentro de uma mesma estratégia de uso do solo e de organização das diferentes atividades produtivas.
A Fazenda Tupã mantém a ILPF entre as práticas apresentadas em seu material institucional, ao lado da agricultura sintrópica, do cultivo de grãos e da produção de frutos nativos e tropicais, reforçando a proposta de diversificar sistemas e fontes produtivas.
Reflorestamento ajuda a recuperar biodiversidade e água
Mais do que recompor visualmente a paisagem, o reflorestamento com espécies nativas passou a desempenhar papel funcional dentro da fazenda, contribuindo para recuperar biodiversidade e construir uma estrutura produtiva mais diversificada, conectada ao manejo do solo e dos recursos hídricos.
Nesse mesmo processo, a restauração das nascentes reforçou a preocupação com a disponibilidade e a conservação da água, recurso decisivo para qualquer atividade agrícola e especialmente relevante em propriedades que dependem de planejamento de longo prazo para manter produtividade e equilíbrio ambiental.
A diversificação também chegou diretamente à produção, já que a antiga concentração em soja e milho cedeu espaço para uma combinação mais ampla de atividades, sem que isso significasse o abandono completo dos cultivos e da pecuária já existentes na fazenda.
Conforme registrado pela Folha, a propriedade passou a trabalhar com soja, hortaliças, banana, açaí e castanha-de-baru, além da pecuária bovina, reunindo diferentes sistemas produtivos dentro de uma mesma estratégia de regeneração, diversificação agrícola e aproveitamento econômico da terra.
Essa diversidade não significa, porém, que todas essas culturas ocupem simultaneamente os mesmos talhões ou que os 4.364 hectares estejam submetidos a uma única técnica de manejo, mas mostra que diferentes sistemas passaram a conviver dentro da mesma estratégia produtiva.
Agricultura sintrópica passou a integrar a transformação
Outra frente adotada foi a agricultura sintrópica, método que organiza diferentes espécies e ciclos produtivos de maneira inspirada nas relações observadas em ecossistemas naturais, buscando combinar produção agrícola, sucessão vegetal e maior diversidade dentro de uma mesma área manejada.
No material institucional da Fazenda Tupã, a propriedade se apresenta como pioneira em um projeto-piloto de agricultura sintrópica voltado ao cultivo de frutos nativos no Tocantins, ampliando o conjunto de experiências conduzidas dentro da área rural.
A combinação dessas técnicas não foi tratada como uma receita única, porque Saijo afirmou à Folha que a fazenda passou a misturar diferentes conceitos de agroecologia e a adaptar métodos conforme as condições encontradas em cada etapa do processo de recuperação.

Práticas como rotação de culturas e adubação natural, inclusive com plantas capazes de fixar nitrogênio, ajudaram a modificar características físicas, químicas e biológicas do solo, reforçando uma experiência construída por ajustes sucessivos em vez de pela aplicação rígida de um único modelo.
Propriedade de 4.364 hectares virou laboratório de agricultura sustentável
Esse processo ajuda a explicar por que Saijo passou a tratar a Fazenda Tupã como um laboratório, expressão que não descreve um centro de pesquisa convencional, mas uma propriedade comercial onde diferentes técnicas agrícolas são testadas e combinadas em escala ampla.
O próprio produtor reconheceu que parte desse trabalho envolve tentativa e erro e que os custos representam um dos principais desafios para quem decide alterar sistemas produtivos já estabelecidos, especialmente quando as mudanças precisam funcionar em uma propriedade de grande porte.
Com 4.364 hectares informados pela reportagem, a dimensão da fazenda coloca o projeto em escala muito diferente da encontrada em pequenas unidades demonstrativas, exigindo planejamento, investimento e acompanhamento prolongado para qualquer alteração significativa no manejo e na organização produtiva.
Por isso, mudanças envolvendo solo, recursos hídricos, presença de árvores e distribuição das atividades não podem ser avaliadas apenas como experiências pontuais, já que afetam diferentes áreas da operação e precisam conviver com a necessidade de manter a produção economicamente ativa.
Produção comercial continuou integrada à recuperação ambiental
A transformação também não pode ser resumida como simples troca da monocultura por novas culturas, porque soja e pecuária continuaram fazendo parte da produção, mas passaram a dividir espaço na estratégia agrícola com hortaliças, frutas, espécies nativas, reflorestamento e recuperação de nascentes.
O que mudou de forma mais profunda foi a lógica de administração da propriedade, que passou a incorporar diversificação, integração produtiva e recuperação ambiental dentro do próprio funcionamento da fazenda, sem separar conservação e atividade comercial em estruturas completamente independentes.
Também é importante distinguir esse modelo de afirmações que as fontes não sustentam, já que a experiência da Fazenda Tupã apareceu em reportagem sobre agricultores que buscavam alternativas ao uso intensivo de agrotóxicos, sem indicar eliminação total desses produtos na propriedade.
O aspecto comprovado está na adoção de práticas voltadas à regeneração, à diversificação, à integração produtiva e à recuperação ambiental, elementos que passaram a orientar parte da transformação da fazenda e da forma como diferentes atividades foram organizadas ao longo do tempo.
A trajetória da Fazenda Tupã mostra que recuperar uma área produtiva não precisa significar abandonar sua função econômica, porque soja, pecuária, hortaliças e frutas continuaram integradas ao negócio enquanto solo, nascentes e biodiversidade passaram a receber atenção dentro da própria produção.
Ao reorganizar uma fazenda que enfrentava perda de produtividade, Saijo colocou a recuperação dos recursos naturais dentro da operação e transformou a propriedade em um exemplo de como sistemas rurais tradicionais podem incorporar novas práticas sem eliminar a atividade que sustenta economicamente a terra.
