Maior banco do país eliminou mais de 3.500 postos de trabalho e encerrou 319 agências físicas enquanto ultrapassava 100 milhões de clientes e registrava lucros bilionários, gerando mobilização sindical nacional e denúncias de superlotação, sobrecarga e adoecimento entre os trabalhadores.
Bancários de todo o Brasil realizaram, na última terça-feira (17), o Dia Nacional de Luta contra o fechamento de agências e as demissões no Itaú Unibanco, denunciando os impactos da reestruturação promovida pelo banco sobre trabalhadores e sobre a população que depende do atendimento presencial para resolver demandas financeiras básicas no dia a dia.
Os números divulgados pelo próprio banco expõem a dimensão do processo: em 2025, o Itaú Unibanco encerrou o ano com 82.693 trabalhadores no Brasil após eliminar 3.535 postos de trabalho em doze meses, sendo 916 deles apenas no último trimestre, enquanto no mesmo período fechou 319 agências físicas em todo o território nacional.
A contradição apontada pelo movimento sindical é direta: no mesmo período em que cortava empregos e encerrava unidades de atendimento, o banco ampliou sua base de clientes em 1,8 milhão de pessoas e ultrapassou a marca histórica de 100 milhões de clientes, reforçando os resultados financeiros bilionários que a instituição vem registrando sistematicamente nos últimos anos.
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Para as entidades sindicais que representam os bancários, essa combinação entre crescimento da base de clientes, manutenção de alta lucratividade e redução simultânea do quadro de funcionários e da rede de agências configura uma contradição inaceitável, que transfere os custos da digitalização exclusivamente para os trabalhadores e para os clientes que dependem do atendimento físico.
Superlotação e piora no atendimento presencial

O fechamento de agências tem gerado superlotação nas unidades remanescentes, com filas extensas, demoras crescentes no atendimento e dificuldade para a resolução de demandas básicas que exigem presença física, situação que afeta principalmente os clientes que precisam de apoio especializado e não encontram alternativa viável no atendimento digital disponível.
Clientes que antes tinham uma agência próxima à residência ou ao trabalho são obrigados a se deslocar para unidades mais distantes, que muitas vezes não possuem infraestrutura física nem número suficiente de funcionários para absorver com qualidade o aumento da demanda gerado pelo fechamento das unidades vizinhas na mesma região.
O impacto é desigual: idosos, pessoas com dificuldade de acesso à tecnologia e moradores de regiões periféricas são os mais prejudicados pelo fechamento de agências, pois dependem do atendimento presencial para operações que para outros segmentos da população podem ser realizadas com facilidade por aplicativos e canais digitais de autoatendimento.
Sobrecarga e adoecimento entre os trabalhadores
A reestruturação também produz efeitos diretos sobre os trabalhadores que permanecem empregados: dados levantados pelo movimento sindical indicam que 79% dos funcionários afetados foram realocados, frequentemente em condições inadequadas, enquanto 18% foram demitidos e 3% optaram por pedir demissão diante da pressão crescente imposta pelo novo modelo operacional.
Relatos de bancários de diferentes regiões apontam aumento das metas individuais de produtividade, intensificação das cobranças por resultados, redução de equipes sem redução proporcional das carteiras de clientes atendidos e crescimento dos casos de adoecimento relacionados ao trabalho, incluindo estresse, ansiedade, síndrome de burnout e quadros depressivos entre os funcionários.
A coordenadora da Comissão de Organização dos Empregados do Itaú, Valeska Pincovai, afirmou que o banco amplia seus lucros e reduz o atendimento presencial ao mesmo tempo, prejudicando principalmente as regiões mais vulneráveis, e defendeu a suspensão do processo de fechamentos, a abertura de diálogo com as entidades sindicais e a garantia de condições dignas tanto para os trabalhadores quanto para os clientes.
Exclusão bancária e orientações aos clientes prejudicados
A Contraf-CUT, entidade que coordena a mobilização nacional dos bancários, alerta que o fechamento sistemático de agências aprofunda a exclusão bancária, fenômeno que afasta da rede formal de serviços financeiros os segmentos da população com menor familiaridade tecnológica e menor acesso a dispositivos e conexões de qualidade para o uso de canais digitais.
A entidade orienta os clientes prejudicados pelo fechamento de agências ou pela piora no atendimento a registrar reclamações nos Procons estaduais e municipais, formalizando a insatisfação e criando um histórico de denúncias que pode subsidiar futuras ações regulatórias sobre a qualidade e a abrangência do atendimento bancário prestado no país.
O debate em torno do fechamento de agências bancárias está inserido em um contexto mais amplo de digitalização acelerada do setor financeiro, processo que todos os grandes bancos brasileiros vêm conduzindo nos últimos anos com o objetivo de reduzir custos operacionais, expandir a base de clientes por canais digitais e aumentar a rentabilidade por cliente atendido.
No entanto, os críticos desse modelo argumentam que a digitalização não pode ser implementada sem garantias para os segmentos da população que não acompanham a mesma velocidade de adoção tecnológica, sob pena de criar uma divisão financeira que aprofunda desigualdades sociais já existentes e exclui parte da população do acesso a serviços financeiros básicos.
O movimento sindical anunciou que seguirá mobilizado na defesa dos empregos dos bancários, na promoção da saúde dos trabalhadores e na exigência de um modelo de atendimento que atenda de fato às necessidades de todos os perfis de clientes, independentemente de sua condição social, localização geográfica ou familiaridade com as ferramentas tecnológicas disponíveis no mercado financeiro.
